[Resenha] Medida provisóriaPor: Marco Sartori

Por: Marco Sartori

No teatro de absurdos do Brasil de 2022, rir de nossas próprias desgraças é o melhor remédio. Com isso em mente, Lázaro Ramos adapta uma peça de 2011 para o cinema e amplifica seu discurso numa chave de ironia. O resultado é um filme urgente como nossos tempos, mas que ainda mantém a ginga do brasileiro que não abaixa a cabeça mesmo diante de tanto retrocesso.

Medida Provisória parte de um lugar comum na boca do racista clássico, o famoso “Volta pra África”. A partir disso, o termo em primeiro lugar vira uma piada, para depois se tornar uma realidade. É o início dessa distopia à brasileira, que imagina como seria uma repatriação da população negra (ou melanina acentuada, dentro da moral politicamente correta que permeia a sociedade vigente).

https://cinepop.com.br/critica-medida-provisoria-lazaro-ramos-dirige-brilhante-filme-que-critica-o-governo-brasileiro-328102/

Enfim o Brasil descobriu o poder da distopia para tratar seu mal-estar social. Não é necessário nem avançar tanto no futuro, como a tecnologia no filme sutilmente expressa em telas e monitores mais recorrentes, dando abertura à uma sociedade de vigilância constante, mas não tão distante de um mundo atual. As mudanças extremas acontecem no âmbito político e nos acirramentos raciais. É como se os reais avanços se dessem a passos curtos, enquanto os retrocessos são muito mais céleres, com uma simples canetada provocando um êxodo que redefine todo o tecido social nacional.

Falando em distopias, algo parecido acontece em Bacurau, onde um futuro caótico é apresentado através de notícias da TV, enquanto a pequena cidadezinha segue congelada no tempo. E tanto em Bacurau quanto em Medida Provisória são exatamente os laços da comunidade com o passado e com o que já foi aprendido que são a sua salvação.

Medida Provisória segue por esse caminho com a união e a resistência dos negros diante das adversidades. Os afro-bunkers retratados no filme são uma versão atualizada dos quilombos para a era do racismo sistêmico de um governo burocrático. Como arma de luta há a reafirmação da própria identidade e cultura, com a direção de arte e figurino salientando com roupas que remetem ao afro-futurismo e o carnaval espalhado pelos cenários.

No âmbito da estética, as oposiçõesàs cores da combatividade são demarcadas bem visualmente no filme. Homenageando às distopias de George Orwell na literatura e de Terry Gilliam no cinema, o ambiente dos racistas é tanto burocrático quanto monocromático. Tribunais escuros e pontos de cadastramento com tons acinzentados e frios, lugares habitados por políticos e burocratas com roupas idênticas são as marcas de um governo que tira e pasteuriza as identidades. É através dessas posições que o filme defendeuma de suas principais teses, que o fim das identidades também demarca o fim da empatia. Só assim para uma polícia sem rosto, políticos engomados e tecnocratas que apenas obedecem às ordens estão livres para praticar o indefensável.

Em Medida Provisória, conforme a sociedade deixa de se importar com o outro, o tecido social também se corrompe. E através do medo e da insegurança, as camadas agredidas também deixam a empatia de lado em detrimento à pura vontade de sobreviver. No fim, todos acabam se perdendo na desumanização. Não à toa, as principais reviravoltas no filme se dão por processos empáticos que também afetam outras pessoas e se alastram, como um chamado para o acordar. O simples ato de se importar aqui acaba se tornando uma das principais armas de resistência e combate.

Por baixo de um futuro ameaçador e momentos legitimamente tristes, no entanto, o filme ainda consegue arrancar riso. Mesmo que seja um riso amarelo, um riso desesperado diante do desconforto. Porque em muitos momentos o texto nos apresenta um espelho de nossos atos, ou mesmo dos que estão ao nosso redor, através de sentenças que em algum momento escutamos, seja na mesa de jantar ou no ambiente de trabalho. E nisso reside um dos maiores dons do filme, em conseguir converter essas frases em comentários sarcásticos, sublinhando o quão ridículos eles são. No Brasil de 2022, a música de Cartola de quase 50 anos atrás continua muito atual. É rir pra não chorar.

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