[NEM MAIS UM GOLE] – Entrevista com Shamil CarlosPor: Leo Cucatti

Shamil Carlos, 38 anos, sou pai em período integral. Não me formei em nada, mas trabalho fazendo conteúdo e arte para a Mamahood (marca criada pela minha companheira) e também sou vocalista da banda Horace Green e do Bloco 77.

 

Leo Cucatti: Como era na sua infância? Você se lembra de ver seus pais, tios, parentes bebendo? Lembra o que pensava a respeito? Passou por alguma situação daquelas em que o pessoal molha a chupeta na cerveja ou deixa a criança beber a espuma da cerveja?

Shamil Carlos: Eu fui aquela criança que passava na mesa de natal pedindo um golezinho de vinho para cada adulto da casa e dormiu antes da ceia no sofá aos 7 anos sabe hahahaha mini-alcoolatra; fui muito incentivado pela minha família, pois beber é uma coisa “normal” né… Meu pai deixava a gente colocar o dedo e tomar o colarinho da cerveja mesmo… Cadê o “conselho do telar” nos anos 80 né!

Foi muito, mas muito estranho quando descobri que existiam punks que preferiam não beber ou se drogar, eu nunca imaginei; minha vida até então era só sair com meus amigos para beber. Eu só pensei a respeito, tipo se seria positivo ou negativo beber depois de um dia que dei vexame e dormi na calçada, ae pensei que era melhor dar um tempo… Eu já era vegetariano e já conhecia a cena sXe de São Paulo mas nunca tinha levado a sério e esse tempo sem beber já dura 19 anos =)

 

Leo Cucatti: E na adolescência então você já bebia… Sentia que havia algum tipo de pressão social para beber? Aquela coisa de “homem tem que beber”? Você chegava a refletir sobre isso? Ou só bebia porque era normal e nem pensava na opção de não beber?

Shamil Carlos: Eu bebia sim, comecei cedo acho que com 14 ou 15 já era normal, mas primeiro porrezinho foi com 16. E sim, eu tinha certeza que tinha que beber porque todo mundo bebe, meu pai mesmo hoje (ele não pode mais beber depois de um AVC) ainda acha mais normal meus irmãos que bebem do que eu… Ainda mais porque minha companheira bebe né… Pra ele não faz sentido, tá tipo invertido sabe.

Mas na época que eu bebia eu nem via por esse lado, não pensava sobre só seguia o que todos faziam, até fumar que eu odeio cigarro… Já fingi que fumava porque era normal, meus amigos fumavam né. E sobre o machismo, hoje pra mim é fácil ver isso, até porque eu via meninas bebendo e achava feio, bonito era eu muito macho né… Que bom que a gente muda.

 

Leo Cucatti: Você comentou que sua companheira bebe, e eu sei bem como é isso hehe, gostaria de saber como é pra você, o quanto isso influencia nas coisas que vocês fazem juntos (e vocês fazem muitas coisas juntos, desde trabalhar e tudo mais), como vocês lidam com essa diferença para que o relacionamento seja sempre saudável? 

Shamil Carlos: Olha sendo sincero já tivemos algumas fases né… Quando não tínhamos filhos e saímos muito, já tivemos brigas por isso… Pois tinham momentos que ela estava super feliz e eu putasso… Mas fomos sempre nos adaptando e entrando no meio termo. Hoje com filhos e pandemia , ela continua bebendo em casa e a gente tem se divertido juntos mas são muitos anos juntos entendendo os limites de cada um né.

 

 

Leo Cucatti: Como foi seu primeiro contato com a cultura straight edge? 

Shamil Carlos: Eu não lembro a primeira vez, mas lembro muito de um show do Good Clean Fun (abertura do Dominatrix e Predial) no Hangar que achei a banda foda e tipo “ah legal que não bebem” isso era ano 2000, em janeiro de 2001 eu fui num festival hardcore de SP lá no Belem, a famosa verdurada de dois dias e sai de lá decidido a virar vegetariano.  Tipo, uma coisa foi levando a outra mesmo… Até que depois de um porre de dormir na rua, eu acabei parando de beber.

Eu demorei para me assumir sXe, lembro que quando fiz o fotolog e coloquei xshamilx o login e virou meu nick ae que as pessoas descobriram hehehehe

 

Leo Cucatti: Legal hehe, quer contar melhor como foi esse porre de dormir na rua? E porque esse dia te fez tomar essa decisão? Foi algo que você já vinha pensando ou foi exclusivamente por conta desse dia?

Shamil Carlos: Esse dia foi maluco, só tenho flashs dele… Lembro que fomos gravar a demo do Inkognitta, saímos de lá compramos um garrafão de vinho tosco e fomos pra Vila Madalena bebendo no metrô, chegando lá continuamos a beber muito e de repente eu falei para o segurança que precisava sair pra tomar um ar e dormi na calçada! Fui acordado às 5h da manhã por um amigo, me dando uns chutinhos… E a ressaca moral foi pior que a ressaca física hahahahah

Passou uma semana fui para um bar com um amigo e chegando lá não consegui beber, disse pra ele que não tava legal pra beber, eu já conhecia o rolê sXe, já era vegetariano mas nem pensava em parar de beber…

Ae estranhamente não bebi mais, quando dei por mim eu tava fazendo X na mão heehehehe

 

Leo Cucatti: E o que mudou na sua vida depois que parou de beber? Como você passou a se sentir?

Shamil Carlos: Eu tentei sempre continuar a mesma pessoa, indo pra bares, baladas e talz com meus amigos e namoradas que passaram pela minha vida nesse período todo. O que eu vejo de muito diferente na minha vida é que eu economizo e eu lembro das merdas que os outros falaram hahahaha, sempre me usam para tirar as duvidas tipo “Shamil só você tava sóbrio para explicar o que aconteceu” e depois que aprendi a dirigir virei amigo útil. Mas hoje com 2 filhos eu não tenho saído tanto né, voltei a ser inútil hahahahah

 

Leo Cucatti: Quando eu era bem novo, e comecei a tocar e sair de casa, eu percebia que a bebida sempre era um motivo pra tudo acontecer e se não tinha bebida as pessoas parece que nem se empolgavam com nada sabe? Tipo ensaiar… Só gostavam de ensaiar se tivesse cerveja ou vinho, como se a música já não fosse suficiente. Hoje, quase trinta anos depois, eu percebo que não mudou muita coisa… Vejo que quase tudo gira em torno de beber ou de uma mesa de bar, isso me incomoda um pouco, porque parece que não existe prazer se não tem bebida… Você acha que tudo bem não beber? Que da pra sair de casa e se divertir sem beber?

Shamil: Isso já foi motivo de conversas infinitas com meus amigos, pois sempre que a gente falava em sair pra conversar tinha que ser em algum bar, e eu não era de negar afinal gosto de ver meus amigos, mas normalmente bar não é o lugar que eu sinto as pessoas se abrirem, conversar sobre algo realmente importante. Ainda mais quando o bar é ponto de encontro de uma galera, assim, é legal sair e encontrar muita gente e dar risada, mas às vezes eu sinto que ir pra bar todo dia as pessoas entram num esquema meio de viver sem profundidade, um real escape da vida e para isso é total obrigatório estar alterado pelo álcool ou outras drogas né…

 

Leo Cucatti: Em relação aos seus filhos, você já pensa em como será a conversa sobre bebida e outras drogas quando chegar a adolescência ou demonstrarem algum interesse?

Shamil Carlos: A gente meio que já vai conversando, não sei como será quando eles realmente entenderem o que são drogas, mas a gente não esconde, já falei para o Timtim que tem gente que fuma maconha para relaxar e rir mais e ele tem 4 anos. Aliás, ele mesmo já fala que cerveja é para a mamãe que o papai não gosta heheheh

Mas entre os adultos já conversamos de sempre levar o mais sincero possível, até pra eles não fazerem escondidos porque diferente dos nossos pais a gente vai saber muito fácil se eles beberem ou fumarem né; vai ser difícil esconder hehehe.

 

Leo Cucatti: Eu concordo com você, e converso o mesmo com minha filha, acho que essa geração vai crescer muito mais esclarecida sobre esse assunto, com menos tabus… Shamil, muito obrigado por essa conversa! E pra gente encerrar, você gostaria de falar mais alguma coisa sobre esse assunto? Algo que faltou? Que queira complementar ou esclarecer? Deixa pra gente um recado final… 

Shamil Carlos: Léo, obrigado por esse bate papo, foi massa demais falar sobre ser careta e não ser chato hahahaha

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