[NEM MAIS UM GOLE] – Entrevista com Mateus SantosPor: Leo Cucatti

Mateus Santos, sou de São José do Rio Preto interior de SP, mas moro aqui em sp há 7 anos. Toco atualmente no Time and distance e num outro projeto chamado Dear me. Além dessas bandas tenho, junto com meu amigo Zóio, uma pizzaria vegan chamada Pizza Youth.

 

Pizza Youth

 

Leo Cucatti: Na sua infância você se lembra de ver seus pais, tios ou outros parentes bebendo? Lembra o que pensava a respeito? Passou por alguma situação daquelas em que o pessoal molha a chupeta na cerveja ou deixa a criança beber a espuma da cerveja?

Mateus: Sim, na minha família sempre foi bem normal beber socialmente, e o limite foi aumentando com o tempo. Tive um tio que infelizmente morreu por complicações causadas por anos de consumo grande de álcool. Era bem comum os adultos deixarem as crianças “experimentarem” cerveja, mas eu nunca me identifiquei. Nem nunca vi isso como um incentivo pra mim. Bebi uma única vez pra saber que não era pra mim.

 

Leo Cucatti: Você acha que a nossa geração ainda mantém esse hábito de deixar criança provar cerveja ou isso já não é visto mais de forma tão “normal” nos dias de hoje? 

Mateus: Pô, da minha geração, dos amigos que conheço que tem filhos acho que ou não rola ou rola muito pouco. Mas nunca vi, pessoas da minha idade passando pra frente esse tipo de coisa não.

 

Leo Cucatti: Você lembra quando e porque começou a ter um pensamento crítico em relação à bebida alcoólica?

Mateus: Talvez desde a adolescência, acredito que todos tem liberdade pessoal pra fazer suas escolhas, mas há sim um peso, por conta de propagandas, de como o álcool é inserido desde sempre na maioria das famílias, que a indústria normaliza e incentiva ao consumo. Então não me via bebendo pra me inserir em lugares, ou não conseguia ver vantagem em beber. Fazia tudo que queria fazer sem beber e isso sempre foi bom pra mim.

 

Time and distance

 

Leo Cucatti: Muitos estudos afirmam que a propaganda de bebidas alcoólicas contribui para a ampla aceitabilidade social das bebidas alcoólicas, e, desse modo, influencia tanto no primeiro uso quanto no uso continuado dessa substância. Você acha que somente essa propaganda que vem tanto da televisão como de diversos outros veículos é capaz de influenciar a maioria dos jovens a começar a beber ou existe algum outro tipo de pressão social? 

Mateus: Sim, acho que é o estímulo desde sempre. E a bebida alcoólica é sempre colocada como um escape, uma boa forma de aproveitar momentos com família e amigos. Propagandas desse tipo moldam o pensamento de muitas pessoas desde cedo, sem dúvida.

 

Leo Cucatti: Você não chegou a ser pressionado a beber? Por amigos ou mesmo pela família…

Mateus: Nunca fui pressionado a beber, mas já fui pressionado a fumar maconha. E fui meio que deixado de lado por alguns amigos por não fumar por um tempo. Mas nunca me importei muito com isso. Acho que se uma parada te faz bem, ninguém precisa te pressionar a fazer ou não, escolhas né? Hahaha

 

Leo Cucatti: Falando em maconha, que eu acho que o efeito é bem menos prejudicial do que o álcool, porque você acha que existe a aceitação social do álcool e o repúdio a maconha? 

Mateus: Concordo, acho que há exatamente uma construção de que o álcool e o cigarro são válvulas de escape, “que todos merecem ao fim de uma semana de trabalho, beber com os amigos, com a família” e esse tipo de coisa. Isso faz bem pros negócios, o capitalismo é o maior aliado tanto do álcool quanto do cigarro, e é interessante continuar fazendo as pessoas acreditarem que precisam tanto do álcool quanto do cigarro para aguentar seus dias, o estresse e exploração nos seus empregos, conflitos cotidianos, e etc.

E uma parte fundamental disso é vandalizar outros tipos de substâncias, inclusive a maconha que é bem menos nociva que tanto o álcool quanto o cigarro.

 

Leo Cucatti: Como, quando e porque se deu a sua decisão de não beber? 

Mateus: Eu venho de um bairro na periferia de São José do Rio Preto, sempre vi amigos que vinham de uma realidade bem precoce de consumo de drogas, cigarro ou álcool. Sempre tive uma visão clara de que aquilo era mais nocivo que bom pra essas pessoas. Isso no meu ensino fundamental. Essa percepção sempre foi nítida e eu sempre tentei me afastar, simplesmente por não me sentir atraído, e por achar que não valia a pena à longo prazo. Quando comecei a ouvir punk, entre tudo que estava absorvendo no início veio o Minor Threat e foi quando me vi realmente dentro da subcultura. Não precisava me transformar em nada. Aquilo era o que eu sempre fui. Simples assim.

 

 

Leo Cucatti: E você se preocupa em ver jovens ainda bem novos começando a beber? O que acha que poderia ajudar pessoas tão novas a não beber?

Mateus: Acho que sempre vai ser muito mais fácil encontrar álcool, o consumo é liberado e se vende em cada esquina. Penso que desde a minha geração nada mudou em relação a isso, não fizeram campanhas como aquelas que tem do lado de trás de uma embalagem de cigarros, apenas comerciais exaltando o lado positivo e isso é comprado pela galera. Acho que pra muitas pessoas consumir álcool é sinônimo de diversão.

Leo Cucatti: Mano, acho sempre muito importante refletir sobre o consumo de álcool, agradeço pela conversa! Deixa uma mensagem final pra quem estiver lendo a entrevista…

Mateus: Valeu Léo, eu quem agradeço. Cada um tem liberdade pra escolher e viver sua vida da forma que prefere, acho que isso não tem que mudar, porém é como eu disse: Tudo em excesso faz mal, e o consumo de álcool em excesso é altamente destrutivo e delicado. Todas as outras drogas tem o impasse de conseguir, são criminalizadas e repudiadas. O álcool tem muito mais fácil acesso.

Eu nunca me senti atraído por essa ideia de liberdade/diversão/escape que a indústria de bebidas vende, então, deixo aqui exatamente esse trecho pra reflexão… Quanto o álcool se faz presente na sua vida? Já atravessou a barreira da diversão?

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