[NEM MAIS UM GOLE] – Entrevista com LucePor: Leo Cucatti

Suelen Lucelina ou simplesmente Luce, tem 24 anos, paraense, formada em design de moda, drug free e atualmente vocalista da Klitores Kaos Krust, está aqui pra representar a mulher preta no crust/hc nacional, ocupar espaço onde tentam tirar e berrar alto onde querem calar.

 

Leo Cucatti: Quando criança você se lembra de ver seus pais, tios, parentes bebendo? Lembra o que pensava a respeito? Passou por alguma situação daquelas em que o pessoal molha a chupeta na cerveja ou deixa a criança beber a espuma da cerveja?

Luce: Quando criança o meu avô e tio bebiam em datas comemorativas e me lembro de uma situação específica que meu avô me deu a latinha que ele tava bebendo pra eu provar escondido da minha mãe, eu tinha curiosidade de saber como era e achei o gosto horrível de primeira, a partir daí eu não tive mais contato, pois contei pra minha mãe inocentemente, ela ficou brava com ele.

 

 

Leo Cucatti: E quando foi que você começou a ter um pensamento crítico em relação ao consumo de bebida alcóolica?

Luce: Quando eu comecei a beber na minha adolescência e vi que o uso exacerbado dela estava me trazendo mais malefícios que benefícios, principalmente pro meu emocional. Eu sempre tive consciência que o excesso poderia me fazer mal tanto pra minha saúde física quando a mental, mas o desejo de sempre mais um copo, mais um outro tipo de bebida, mais uma mistura de várias no copo pra poder amenizar dores internas era maior que a razão. Após um grande “pt” que eu tive eu prometi pra minha mãe nunca mais por nenhuma gota na minha boca, não é fácil, nenhum pouco! Mas o medo das consequências eram ainda maiores junto com meus problemas com ansiedade, eu preferi procurar ajuda em outro ponto em vez de encobrir minhas dores com bebidas.

 

Leo Cucatti: E o que você acha que é o mais difícil nessa decisão de não beber? É por conta de sair pra curtir e socializar, sendo que a maioria das pessoas bebem? Ou é mais uma questão pessoal e interna mesmo?

Luce: Externamente eu fico bem, socializo normalmente, mas internamente eu me sinto deslocada como se eu não fizesse parte daquele grupo, é uma dor interna única. Acabo me sentindo anormal ou até mesmo uma “criança” ou uma “pessoa estranha” sabendo que escolher não beber é normal, e que devo ser tratada que nem os demais, pois beber ou fumar não me faz mais adulta ou madura que ninguém e que não beber me faça ser uma criança. Tudo é questão de escolhas pra vida e eu não deveria ser julgada por isso de maneira ofensiva.

 

Leo Cucatti: Durante esse tempo em que você bebeu, vocês sentia que havia algum tipo de pressão, seja social ou interna, para beber? Algo do tipo “Preciso beber para fazer parte de um grupo”?

Luce: Sentia sim, mesmo não sendo escancarado, mas essa pressão existia sim, era sempre pra eu ingerir mais e mais (sabendo que eu não gostava tanto de exagerar por problemas no estômago)  e por não saber dizer não e pra não me sentir excluída eu consumia exacerbadamente. Porém chegou um momento que vi que eu não era mais a mesma pessoa, pois estava sendo influenciada demais, aí a partir de muitos acontecimentos como eu já disse acima, eu resolvi parar definitivamente, quem gostasse de mim verdadeiramente iria entender.

 

Leo Cucatti: E como foi que você conheceu a cultura Straight Edge? Isso te ajudou de alguma forma a parar de beber ou você conheceu depois te ter parado?

Luce: Conheci através do meu meio hardcore da minha cidade, fui atrás pra aprofundar no assunto e vi muita identificação nesse movimento. O SxE chegou na minha vida após eu ter parado de consumir álcool e eu vi que tinha outras pessoas que pensavam o mesmo que eu e eram meus melhores amigos, ai eu aderi no movimento.

 

Leo Cucatti: Você acha que a cultura SXE é um espaço convidativo para mulheres? Para meninas adolescentes?

Luce: Posso falar apenas pela minha convivência, teoricamente sim, mas em prática boa parte de quem é do movimento a mais tempo não vê verdade na gente, nos chamam de “empolgadas”, “hipócritas” entre outros ‘adjetivos’, tanto para meninos quanto meninas novas que se dizem SxE, muito da minha mágoa no movimento é por isso.

 

Leo Cucatti: Você teve alguma mágoa com o movimento SXE no geral ou com alguma pessoa ou situação? Quer falar um pouco sobre isso?

Luce: Na verdade uma mágoa com um todo, um combo entre o movimento e as pessoas que seguem, eu acredito muito que quando você diz o que segue o mínimo é você fazer o que a ideologia diz, e a maioria apenas acha que é só não beber ou fumar e é muito além disso, e eu observadora como sou, presto atenção em tudo ao meu redor. É de uma hipocrisia no discurso, até mesmo opressora e limitante tanto pra quem é quanto pra quem está chegando agora. Em quase 3 anos vendo isso eu sinto que me saturei do rótulo e uma série de outros fatores no meio da “cena”, eu continuo seguindo mas sem dizer que sigo, eu não preciso provar nada pra bolha e nem pra movimento algum.

 

Leo Cucatti: Como você analisa as propagandas de cerveja? Tanto pelo fato delas existirem (forçando e incentivando o uso de uma substância que pode te vender uma falsa ideia de alegria, mas que pode proporcionar destruição) quanto pelo conteúdo? (na maioria dos casos apenas objetificando o corpo da mulher, ou tentando passar uma impressão de que o homem que bebe está sempre rodeado de lindas mulheres).

Luce: Sinceramente, hoje em dia as propagandas parecem muito mais evoluídas e inclusivas pra vários tipos de pessoas, mas isso não impede que outras empresas de bebidas ainda usem dos clássicos artifícios como mulheres de corpo e cor padrão, praia e alegria. Independente da temática, a intenção e a consequência do uso exacerbado é o mesmo, não que eu esteja vendo apenas o lado pior, mas devemos sempre ver os dois lados de uma moeda, os benefícios a curto prazo e as consequências a longo prazo, e por isso na mesa quando for consumir e pra quem não consome nem começa.

 

Leo Cucatti: Você percebe hoje em dia que algumas propagandas de cerveja que já não utilizam esses métodos? Que tentam se fazer mais presentes dentro de diversas representatividades? O que você acha disso?

Luce: Sim, percebo que novas propagandas mostram um grupo de amigos ou um grupo de pessoas bem diversificadas, acredito em uma grande representatividade visual de várias bolhas sociais, isso serve pra novas demanda de clientes de várias movimentos e grupos sociais pra alcançar ainda mais o público, e claro, lucrar com isso, mas claro, comparando como eram as propagandas a uns 10/20 anos atrás, estamos no lucro, mesmo eu não concordando como o capitalismo tende a manipular o consumidor.

 

 

Leo Cucatti: E você acha que é tranquilo sair pra se divertir sem beber? Ter uma banda? Cantar e expurgar toda a raiva de forma sóbria?

Luce: Com certeza! Falando por mim, a sobriedade faz eu me expressar com ainda mais intensidade o que devo expressar no palco, pois estou com mais clareza mental sobre tudo ao meu redor, tanto no contexto físico ou social. As emoções são genuínas e nem nenhum nível de alteração, e eu sempre vou prezar por ser assim, independente do que seja sua intensidade tanto boa quanto ruim. Eu prezo a sobriedade.

Eu entendo que pra muita gente seja difícil lidar com a sobriedade e os excessos de pensamentos das problemáticas diárias e a bebida faz aliviar muitas coisas a curto prazo, eu realmente entendo, porém quando você toma a decisão de não beber e procurar o alívio e a melhora emocional em outras coisas com zero poder de degradação como fazer exercícios constantemente, uma boa alimentação, estar com quem você ama, fazer seus hobbies preferidos e claro, tratamento psicológico, parece ser bobo mas tudo isso a longo prazo te faz se sentir como se a vida valesse a pena, pois as vezes as respostas estão nas pequenas coisas perto de você.

 

Leo Cucatti: Luce, foi um grande prazer essa conversa toda e nossa reflexão sobre o consumo de bebida alcóolica… Só tenho a agradecer e deixo esse espaço para suas considerações finais…

Luce: Eu que agradeço pelo convite de participar dessa entrevista tão importante e necessária nos dias de hoje, uma pauta que sempre deve ser tocada e pessoas que decidem não beber tenham voz e respeito em nosso meio underground, como eu estou tendo agora. Muito obrigada!

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