[NEM MAIS UM GOLE] – Entrevista com Leo Mesquita

Trabalhador comum brasileiro tentando sobreviver. Guitarrista e vocalista da banda Surra. Vegan sXe sem ilusões de um mundo perfeito. Já passou meses sem lavar o cabelo.

 

Leo Cucatti: Quando criança você se lembra de ver seus pais, tios, parentes bebendo? Lembra o que pensava a respeito? Passou por alguma situação daquelas em que o pessoal molha a chupeta na cerveja ou deixa a criança beber a espuma da cerveja?

Leo Mesquita: Avós, pais, tios, primos mais velhos, todo mundo bebia. Ninguém aloprava de ficar desmaiado ou agressivo, não lembro de nada disso, mas todos bebiam. Nunca passei por isso da chupeta na breja não haha, meus pais não deixavam a gente beber nada alcoólico quando eu e meus irmãos éramos crianças.

 

Surra thrash
Foto por Pedro Henrique

Leo Cucatti: Quando/Como foi que você começou a ter um pensamento crítico em relação ao consumo de bebida alcoólica? E alguma vez você já bebeu? Como foi a sua decisão pessoal de não beber? Por qual motivo?

Leo Mesquita: Eu bebi e fumei a adolescência inteira e comecei a minha vida adulta indo trabalhar não navio desses de luxo, tá ligado? Lá eu trabalhava no bar e tinha acesso a quase qualquer coisa, foi fácil eu optar por segurar a bronca das 11, 12 horas de trabalho por dia com o álcool, todo mundo da ‘crew’ lá tinha que dar um jeito.

Quando eu voltei é que comecei a pensar que isso não me servia mais, eu estava me sentindo um pouco dependente disso e outras coisas pra poder me divertir. Queria ir em frente com a música, trabalhar pra ter as coisas e tal, e vi que não tinha a mesma maturidade nem controle dos meus amigos e amigas. Confesso que isso foi uma merda de admitir pra mim mesmo.

Acho que também juntou com ter conhecido a galera do HC/Punk que não bebia e era vegan, ai decidi não consumir mais e ver até aonde iria com isso.

 

Leo Cucatti: Realmente existe essa ideia de que é preciso beber para se divertir. Hoje você acha que é tranquilo sair pra se divertir sem beber? Ter uma banda? Cantar e expurgar toda a raiva de forma sóbria?

Leo Mesquita: Total, mano. Não acho que seja regra, mas pra algumas pessoas é até melhor, sabe? De repente se nasce não meio em que o consumo de álcool não é questionado então não passa pela cabeça dessa pessoa uma outra forma de lazer. Ao mesmo tempo que algumas pessoas vivem se proibindo de tudo com alguma culpa moral ou religiosa e também não veem nada além disso. Questionar o consumo de algo não significa interromper imediatamente ou pra sempre, e sim você entender o que isso faz na tua vida e se você ainda é você sem aquilo.

Até agora, não beber só me ajudou. Eu consigo estar atento aos acontecimentos e lidar (às vezes) com a realidade, então meio que é um condicionante pra eu escrever as letras e cantar/tocar. Mas isso sou eu, alguns amigos e amigas consomem bebida e outras coisas e nem por isso estão desatentos.

 

Leo Cucatti: Você sente que existe algum tipo de pressão social para beber? Mesmo a bebida alcoólica sendo algo bastante prejudicial para a vida e saúde, porque você acha que existe tanta propaganda e, de certa forma, incentivo para que as pessoas bebam?

Leo Mesquita: Existe sim. Percebo uma falsa sensação de liberdade de escolha pra quase tudo.

Tipo, considero que a gente também ‘escolhe’ as coisas: o que comer, o que vestir, o que assistir, se vamos beber ou não e etc, mas que as opções que nos são apresentadas desde que somos crianças são as que estão aí: essa comida é mais gostosa, essa roupa é mais bonita, esse programa é mais legal e etc.

No modelo de sociedade que vivemos quase tudo é uma mercadoria, quase tudo é impulsionado pela propaganda muitas vezes abusiva do consumo dessa mercadoria. Acho que no caso da bebida, além da venda da mercadoria, tem o interesse da classe dominante em oferecer para o trabalhador uma saída fácil pra vida cansativa e mal remunerada que a própria burguesia coloca pra massa trabalhadora.

 

Leo Cucatti: Como você analisa as propagandas de cerveja tentando vender uma falsa ideia de alegria? essas que na maioria dos casos objetifica o corpo da mulher e tenta passar uma impressão de que o homem que bebe está sempre rodeado de lindas mulheres. Existem também algumas propagandas de cerveja que atualmente já não se utilizam desses métodos, tentando se fazer mais presentes dentro de diversas representatividades? O que você acha disso? É mais ou menos isso que você critica na letra “Do lacre ao lucro”?

Leo Mesquita: Eu analiso as propagandas de cerveja como analiso outras propagandas. Elas possuem um alvo e usam as ferramentas pra tornar o seu produto atrativo. A ideia de que a vida pode ser uma festa e ninguém para de sorrir nessa porra é infalível, né haha? Quem não quer isso? Dessa mesma forma, só que com propagandas diferentes, vendem todo o resto. A objetificação da mulher e todo o cenário de um comercial desse é o que já existe na mente das pessoas, é o que vende, é a ferramenta pra fazer as pessoas escolherem a cerveja X ao invés da Y. “Olha, é a cerveja da propaganda que tem aquela atriz gostosona e pah” – parece uma idiotice, mas funciona, fica no inconsciente das pessoas.

E sim, percebi muito isso. Bom, a internet democratizou grandão todas as discussões sobre opressão, né? Isso é do caralho, considero uma evolução. Dia sim, dia não, alguma coisa desse tipo é ‘trending topics’ no Twitter e tal. Mas aí, não demorou quase nada pros cosmético, salgadinhos e cerveja aparecerem sendo o ‘produto antifascista’ do momento hahaha. Isso não é o fim do mundo, mas acho importante entendermos que isso não é revolução porra nenhuma, isso é uma empresa procurando se inserir numa pauta pra vender o produto. E já que eu tô respondendo isso durante a interminável pandemia no Brasil, vale dizer que até banco que tem dinheiro o suficiente pra vacinar o país inteiro apareceu defendendo grupos oprimidos em suas propagandas. Quer defender a gente? Passa o dinheiro todo pra cá e salva nossa vida, vacina geral e aproveita e dá moradia adequada pra todo mundo. 

 

Leo Cucatti: Como foi seu primeiro contato com a cultura straight edge? (o que você achou?)

Leo Mesquita: A primeira vez que ouvi falar chegou pra mim tudo torto. Chegou vários papos de que era ‘uma galera q não comia carne, não bebia e que não fazia sexo’ uns bagulho assim. Num ouvi falar de Minor Threat, de política, de veganismo, de porra nenhuma! Era só uma galera que ‘não podia’ fazer uma lista de coisas haha. Obviamente achei uma merda, e eu também bebia na época e tal, enfim.

 

Leo Cucatti: Você acha que existe uma falsa impressão de moralismo no fato de não beber ou usar drogas? Pois pode parecer que optamos por não beber por não nos permitirmos certas liberdades, o que você acha disso? Você já refletiu sobre isso?

Leo Mesquita: Já, até hoje reflito sobre isso. Antes de qualquer coisa acho que todo mundo lida com a vida com alguma moral, a gente é socializado assim. E também vale dizer que existem pessoas que não bebem e não usam nada do que é dito como ‘droga’ e julgam moralmente ou marginalizam socialmente as pessoas que consomem. E nem estou falando só dos bitolado religioso ou algo assim, falo no geral. Pô, não teve (ou tem, sei lá) uma galera do straight edge que entrou nessas de encher a galera que bebe de porrada? Teve muito nos EUA, mas também teve aqui. Num show do Gorilla Biscuits aqui na baixada santista um mano derrubou breja num sXe e apanhou covardemente de uns 3, 4 amigo do cara. Isso talvez crie uma imagem de que pessoas que não consomem são uns “direitoso” que se consideram superiores.

Mas nem por isso eu acho que optar por não consumir algumas coisas é exclusividade dessa galera. Dá pra ser crítico e repensar as coisas na nossa vida sem cair nessas. Num podemos ficar com medo de sermos tachados de moralista e calar a boca. Não da pra ignorar o papel que o consumo de droga tem na vida de algumas pessoas, ninguém é igual.

 

Leo Cucatti: Leo, muito obrigado por essa conversa, acho muito importante refletirmos sobre esse consumo e a maneira com que o álcool está inserido em nossa sociedade… Fique a vontade para deixar um recado final para quem acompanha a coluna ‘Nem mais um gole’.

Leo Mesquita: Que isso, Leo, muito obrigado a você por considerar minha opinião pra essa entrevista! Seguimos produzindo conteúdo e debatendo sobre tudo, não pode ficar parado senão as ideia atrofiam hahaha

Espero que mais conteúdos como esse que faz as pessoas pensarem sejam notados. Abraço!

 

[NEM MAIS UM GOLE] – Entrevista com Andreza Poitena

Andreza, 43 anos, é entre outras coisas, punk, anarquista e autodidata. Abandonou o futebol profissional pelo universo que o punk lhe proporcionava, montou e monta bandas, espaços subversivos, subverte a […]

Leia Mais

[NEM MAIS UM GOLE] – Entrevista com Cibele Minder

Meu nome é Cibele Minder, tenho 32 anos, sou uma sapatão de São José dos Campos, mas vivo atualmente na capital $P. Trabalho como luthier, consertando e construindo instrumentos de […]

Leia Mais

[NEM MAIS UM GOLE] – Entrevista com Carol Rocha

Carol Rocha, 28 anos, vegan e straight edge, bissexual. Diagramadora, às vezes ilustradora, ex-baixista e agora vocalista da Gulabi. Metaleira que ama kpop e odeia metaleiro.     Leo Cucatti: […]

Leia Mais

[NEM MAIS UM GOLE] – Entrevista com July Salazar

Olá, meu nome é July Salazar, tenho 30 anos, vivo em Lima, Peru, sou graduada em administração e negócios internacionais, trabalho em um provedor de suprimentos abrangente, tenho uma banda […]

Leia Mais

[NEM MAIS UM GOLE] – Entrevista com Leo Mesquita

Trabalhador comum brasileiro tentando sobreviver. Guitarrista e vocalista da banda Surra. Vegan sXe sem ilusões de um mundo perfeito. Já passou meses sem lavar o cabelo.   Leo Cucatti: Quando […]

Leia Mais

[RESENHAS CÁUSTICAS] MORE THAN THE X ON OUR HANDS

[RESENHAS CÁUSTICAS] MORE THAN THE X ON OUR HANDS – A WORLDWIDE STRAIGHT EDGE COMPILATION (2000) Commitment Records   Box set dividido em 6 vinis 7″, sob a iniciativa de […]

Leia Mais