[NEM MAIS UM GOLE] – Entrevista com Fausto OiPor: Leo Cucatti

O meu nome é Fausto Oi, tenho 40 anos, nasci em 21/05/1980.

Comecei a tocar aos 16 anos, idade que montei a minha primeira banda, os Espuletões.
Toquei em diversas outras bandas, de 1996 até aqui: Low Battery, Subdvision, Good Intentions, Dance of Days, Eu Serei a Hiena, Inspire, Bluezera, Radical Karma e Ouse Morrer.

Aderi ao estilo de vida Straight Edge em 1998. No mesmo ano me tornei vegetariano e vegan, decisões que levo comigo até hoje.

 

Leo Cucatti: Como foi e porque você decidiu não beber… E quando foi isso, em que época da sua vida?

Fausto Oi: Eu nunca tive um grande gosto por bebida. Nunca fiquei bêbado ou fui um adolescente que via na bebida uma forma de rebeldia. Creio que a última vez que bebi algo alcoólico foi em 1997.

 

Leo Cucatti: Na sua infância você se lembra de ver seus pais, tios ou outros parentes bebendo? Lembra o que pensava a respeito? Passou por alguma situação daquelas em que o pessoal molha a chupeta na cerveja ou deixa a criança beber a espuma da cerveja?

Fausto Oi: Sim, era super normal nos fins de semana ou quando os parentes iam em casa abrirem um vinho, ou cerveja. Creio que o meu primeiro contato foi com uns 10, 11 anos. Tinha aquele Keep Cooler, que parecia um refrigerante alcoólico e era normal, pelo menos no meu bairro, os pais compartilharem com os filhos.

Mas lembro de ficar com dor de cabeça com uns 12 anos bebendo vinho num domingo, numa reunião familiar, e isso me fez não curtir muito, sabe? Mas todo Natal ou ano novo a galera abria uma cidra, essas baratinhas mesmo, Cidra Cereser ou algo do tipo para brindar. Fiquei, após essa dor de cabeça, apenas consumindo álcool nessas situações.

Bebi cerveja pouquíssimas vezes, não curtia o gosto, achava muito amarga.

 

Nem mais um gole - Fausto Oi
Felipe Ramalho

 

Leo Cucatti: E durante a sua adolescência você sentia alguma pressão social para beber?

Fausto Oi: Olha, tinha sim, mais da galera da escola, já tinha muita gente no colegial que se sentia mais legal por beber e fumar, então por um tempo eu e outras pessoas que não bebiam muito tinha aquela fama de nerd.

 

Leo Cucatti: Como foi seu primeiro contato com a cultura straight edge? 

Fausto Oi: O meu primeiro contato, na verdade, sem saber muito bem com o que era, foi com o sucesso do Shelter aqui no Brasil. Mas sabia que eram Hare Krishnas, não usavam drogas, e tiveram uma banda Straight Edge. Fui saber mais ao certo em 1998, quando conheci as verduradas através de amigos e me identifiquei logo de cara. Me senti bem em saber que tinha uma galera aqui no Brasil que não bebia e não fumava, era do hardcore/punk e já estavam produzindo e atuando na cena há algum tempo.

Nem mais um gole - Fausto Oi

 

Leo Cucatti: Mesmo com o potencial de destruição do álcool, porque você acha que existe tanta divulgação e, de certa forma, incentivo para que as pessoas bebam? 

Fausto Oi: Acho que o álcool sempre foi associado a pessoa se divertir, se enturmar, ou ter coragem para tomar uma decisão, perder a timidez. Pessoas que dizem que só vão ter coragem para certa coisa se beberem. Isso é triste, as pessoas procuram artifícios para encarar a vida.

 

Leo Cucatti: Levando em conta essa ideia de que muita gente bebe para se divertir, para se soltar e deixar de lado a timidez, você foi um adolescente tímido?  Como encarar a timidez e a vida, no geral, de forma sóbria?  

Fausto Oi: Sim, fui extremamente tímido, dificuldade de me expressar, receio de conversar com as pessoas. O que me ajudou muito foi começar a tocar, montar banda, me comunicar através da música.

Leo Cucatti: Foi a mesma coisa comigo… Ter banda desde muito novo me ajudou muito.

 

 

Leo Cucatti: Você acha que o álcool pode ser um intensificador da violência? Seja uma briga de bar, de trânsito ou violência doméstica… Como você vê a relação de consumo de álcool e violência?

Fausto Oi: Existem muitos casos de violência gerada pelo álcool, pessoas que perdem o controle… Mas claro que não é porque a pessoa bebe que ela logo vai se alterar a ponto de cometer um ato de violência ou algo do tipo, de forma alguma é para parecer que, uma substância que altera, vai agir de formas iguais para todas as pessoas, afirmar conclusivamente  que quem bebe vai fazer isso, agir de tal maneira, parece preconceituoso. Não é todo mundo que vai beber um pouco e que vai sair fazendo merda, ou bater em alguém. Mas tem muitos casos de excesso, vício, que se tornam muito complicados e infelizmente rotineiros, como violência doméstica, ou afetam a sociabilidade da pessoa, que se torna briguenta em diversas situações.

 

Leo Cucatti: Sim, sim, você tem toda razão, pois acaba tendo um efeito diferente de pessoa pra pessoa… Como você lida ou reage com amigos muito bêbados, que se tornam inconvenientes ou mesmo agressivos?  (Eu já tive muita paciência, muita mesmo, convivi a vida toda com pessoas que bebem e/ou usam drogas, e sempre fiquei bem, mas de uns anos pra cá fui ficando sem paciência, quando sei que em algum lugar vai ter muita bebida eu prefiro nem ir).

Fausto Oi: Felizmente faz um bom tempo que não tenho alguém próximo que se porta de forma violenta por conta da bebida ou alguma droga ilícita. Mas é uma situação horrível quando algo do tipo acontece. Como lidar com isso? Ter alguém próximo que perde o controle a esse ponto é muito triste, como fazer essa pessoa a procurar ajuda? Pois muitas vezes a pessoa não reconhece que tem um problema e que precisa de ajuda.

 

Leo Cucatti: Você tem o hábito de ler? Lê biografia de bandas?

Fausto Oi: Sim, eu gosto muito de livros, filmes e documentários sobre bandas. Se você pega o livro “Mate Me Por Favor” são muitos os relatos.

Li o livro do Steven Adler do Guns N’ Roses, muitas histórias pesadas (Li o Reckless Life também, que fala sobre a gravação do “Appettite For Destruction”), um livro sobre o Led Zeppelin, vários documentários e filmes. Todas as bandas grandes possuem casos fortes de alcoolismo.

 

Leo Cucatti: Sim, era sobre isso mesmo que eu ia falar. Biografias de bandas como Metallica, Motley Crue, Sepultura, Megadeth, Ramones… Todas as histórias são cheias de bebidas, drogas, clínicas de reabilitação, e ainda tem aquela ideia do famoso sexo, drogas e rock n roll…

Fausto Oi: Vários desses caras eram uns fodidos e sem grana. Levavam uma vida basicamente noturna e em lugares com muitas drogas e bebidas, mas mal podiam pagar por elas. E, ainda muito jovens, se tornaram estrelas do rock, ganhando muito dinheiro e, com isso, podendo gastar muito com aquelas bebidas e drogas que não podiam gastar. E aí são muitos relatos de overdoses. Eu acho que rolava um deslumbramento, uma coisa também de ‘sou jovem, invencível e as pessoas me amam’, uma sensação de poder de que poderiam fazer qualquer coisa. É difícil julgar, pois, a pessoa não tinha quase nada antes e depois tinha dinheiro e todas as oportunidades. Infelizmente alguns morreram nesse caminho, nesses exageros. Imagina se o seu disco vende milhões de cópias e de repente você se torna rico. Muitos acharam que aproveitar a vida e a fama era aquilo, extravagâncias, exageros, e acabou se tornando um clichê de um rock star, que viver radicalmente era aquilo.

 

Leo Cucatti: Por outro lado tem o livro Dance of Days* onde mostra uma ideia de que não beber e não consumir droga é que é ser contra o sistema e não seguir aquilo que o sistema te empurra goela abaixo.

Fausto Oi: E, pra mim e pra muitas pessoas que eu conheço ser radical é isso, é ir contra esse sistema. Eu não digo que essa é a melhor ou única forma não, mas é a forma que faz sentido pra mim.

E não beber não faz a minha forma de protesto melhor ou pior que outra, mas é uma forma de protesto. E de forma alguma isso pode se tornar uma parede para dividirmos lutas em comum e que são as mais importantes.

 

Leo Cucatti: Penso assim também… Fausto, muito obrigado por essa conversa, gosto muito de refletir sobre esse assunto, espero que tenha gostado também… Deixa um recado final pra gente.

Fausto Oi: Leo, muito obrigado pelo convite. Não beber é uma escolha que faz sentido pra mim, não sinto vontade, e sou feliz por as pessoas que me cercam respeitarem minha escolha. É difícil que, em fases das nossas vidas, em ambientes de convívio, beber significa ter aceitação, ser corajoso, dá um status. Felizmente no ambiente que frequento eu não tenho essa cobrança, e os meus amigos e amigas respeitam a minha decisão. E eu não fico “enchendo o saco” de ninguém se bebem ou não. Porém, o excesso de bebida ou o possível descontrole que ela pode trazer para uma pessoa, não pode ser justificativa para algum ato de violência, desrespeito ou qualquer ato que prejudique outra pessoa.

 

*Dance of Days – Duas décadas de punk na capital dos EUA. Autores: Mark Andersen e Mark Jenkins. Lançado no Brasil por Edições Ideal. 

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