[NEM MAIS UM GOLE] – Entrevista com Diego VergueiroPor: Leo Cucatti

“Meu nome é Diego, trabalho na área de TI, tenho 34 anos, nasci e moro em Campinas/SP, Pratico ciclismo de estrada e mountain bike, faço parte do grupo Ovelhas Negras, temos em comum a paixão pela bike e o ódio ao fascismo, desde pivete sempre tive uma paixão por música barulhenta e ficava fascinado pelas camisetas com caveiras, demônios, etc.. Vegano há mais 13 anos, já toquei em algumas bandas e fiz meus melhores amigos da cena hardcore/punk.”

 

 

Leo Cucatti: Fala Diego, pra começar fala pra gente porque você escolheu não beber.

Diego: O lance de nunca ter bebido ou usado nenhum tipo de droga lícita ou ilícita é devido a uma experiência familiar com meu pai (o qual não cheguei a conhecer) que bebia muito e ficava machão, minha mãe sofreu demais e ela nunca escondeu nada de mim e meu irmão. Foi aí quando começamos a entender melhor as paradas que pivetes fizemos um pacto que minha mãe nunca iria ver nós doidão de drogas e até hoje é assim. Mesmo com muitas oportunidades, nunca tivemos vontade, nunca foi necessário em nada. Droga te aprisiona e você se torna escravo dela, eu escolho a liberdade!

 

Leo Cucatti: Mano, uma pergunta que eu sempre faço é sobre a infância de cada um, como são as primeiras lembranças em relação ao álcool; se teve pais ou tios, que bebiam e que por vezes se tornavam inconvenientes ou violentos, como você comentou sobre seu pai, se não for incômodo pra você falar sobre isso, eu gostaria de saber como é que foi pra você ainda muito novo, tomar essa consciência sobre a bebida alcoólica e como outros parentes adultos lidavam com o assunto… 

Diego: Então, na real não cheguei a ter um contato direto com o álcool, porque quando minha mãe teve experiência com meu pai eu era recém-nascido e depois que ela se separou dele, ele nunca mais nos procurou, mas, quando fomos crescendo minha mãe começou a contar tudo que ela viveu na relação e sofreu muito, a partir disso tivemos a decisão de nunca usar nenhum tipo de droga. Fora ele, nunca tivemos problema com outras pessoas na família em relação ao álcool e outras drogas. Todas as pessoas que acompanharam nosso crescimento apoiavam nossa decisão, principalmente aquelas que sabiam de tudo que aconteceu.

 

Leo Cucatti: E como foi que você conheceu a cultura SXE? Acredito que você, e seu irmão, tenham se identificado logo de cara, não?

Diego: Conheci através de amigos mais velhos da cena, na época eu só ouvia metal extremo e era bem fechado pra punk/hardcore, aí quando um amigo me mostrou Point Of No Return, pirei demais e a partir dali foi que me interessei em conhecer mais sobre tudo que envolve o SXE, veganismo e toda a contracultura envolvida. E por conta do problema que houve na família em relação ao álcool, sem dúvida o SXE caiu como uma luva.

 

Leo Cucatti: Na entrevista com o Fausto falamos um pouco sobre o livro “Dance of Days – duas décadas de punk na capital dos EUA”, que conta a história da cena de Washington e de bandas como Minor Threat, Teen Idles, Rites of Spring… Você leu? Uma das coisas que fica claro no livro é essa questão de não beber e ser contra sistema, porque basicamente o sistema nos quer dopado e embriagado, não nos querem sóbrios… O que você acha disso? 

Diego: Infelizmente ainda não li o livro, mas assim que tiver uma oportunidade irei ler com certeza. O capitalismo tenta empurrar goela abaixo tudo que lhe é conveniente, a bebida talvez seja uma das maiores armas que possuam, pois é viciante e qualquer reunião entre amigos, a pessoa se torna uma escrava do álcool, sentindo a necessidade de interação através da bebida. Nós que confrontamos essa ideia, acreditamos na desconstrução dessa falsa sensação e também mostramos que é possível se reunir com amigos e levar uma vida normal, divertida sem que o álcool esteja presente no nosso cotidiano.

 

Leo Cucatti: Dentro disso ainda, você acha que existe certo padrão comportamental; por exemplo, recentemente a cerveja Heineken fez uma postagem em homenagem ao dia mundial sem carne, e isso bastou para que fossem massacrados com mensagens do tipo: “vou fazer um churrasco pra comemorar” ou então “Heineken acabou pra mim, essa cerveja não entra mais na minha casa” e até vídeo de gente jogando cerveja fora apareceu… Isso tudo, penso eu, por conta de um comportamento já pré-estabelecido de que quem bebe ter que ser machão, carnívoro, aí esse é o comportamento ao que refiro essa imagem de beber e ser machão, atrelada a ideia de comer carne… (a própria cerveja que eles gostam sofreu esse ataque virtual e cancelamento porque fez uma simples homenagem ao dia mundial sem carne) – o que você acha disso?

Diego: Então, pra começar a Heineken nem é uma cerveja apta para veganos, pois patrocina eventos com animais e essa postagem que fizeram é total oportunismo por conta do crescimento do mercado vegano, outras marcas também atuam dessa forma, mas sem preocupação nenhuma com a causa animal e sim para maximizar seus lucros. E sim, a maior parte dos homens, conecta que beber e comer carne é ser macho alfa (como os próprios dizem) e se você diz que não bebe e não come carne, os caras te chamam de marica ou então te lançam “nem transa também?”, são características estruturais do homem macho alfa e acredito que quando tomamos uma decisão de não beber e se alimentar de produtos de sem origem animal, estamos saindo da bolha, da nossa zona de conforto, obviamente que continuamos sendo homens e o machismo precisa ser desconstruído dia a dia, seja em palavras, atitudes entre outras coisas.

 

Leo Cucatti: Mudando um pouco de assunto, você está sempre de bicicleta por aí, a gente sabe que grande parte dos motoristas não respeitam ciclistas e uma boa parte dos brasileiros dirigem bêbados, sem se importar com nada, sempre vemos casos de ciclistas atropelados e motoristas que fogem… Gostaria de saber se você já passou por alguma situação dessas ou presenciou algo… 

Diego: É uma situação bem complicada, o Brasil também está bem atrasado nessa questão em relação a outros países, acredito que não seja de interesse ($) do governo construir ciclovias e contribuir para a melhoria da mobilidade urbana, é mais interessante pra eles amontoar pessoas dentro de ônibus e metrôs cobrando valores abusivos, a bicicleta não paga passagem e nem impostos (depois que você compra). Todos os dias em qualquer lugar do país, vemos casos de atropelamentos de ciclistas e em boa parte os motoristas estão embriagados e o final já sabemos que não acaba em nada. Eu pedalo muito pouco dentro da cidade, faço alguns treinos em locais mais específicos e mais tranquilos dentro da cidade ou então em apenas uma parte pra me deslocar para alguma rodovia ou trilha, mas de qualquer forma sempre procuro ficar atento e nunca confiar nos carros por mais que a preferencial seja dele.

 

 

Leo Cucatti: Sim, é verdade. E ainda por cima em vários desses casos de atropelamentos, mesmo com a pessoa bêbada, acaba não dando em nada, saem impunes… O que você acha que pode ser para criar uma consciência coletiva sobre não dirigir embriagado?

Diego: Sem dúvida, a criação de medidas mais duras com mais fiscalizações, radares e etc. Mas pra variar esse desgoverno faz tudo errado, a nova lei que está pra ser vigorada vai aumentar a renovação da CNH para 10 anos para condutores com menos de 50 anos e se fizer um levantamento a faixa etária de quem atropela se encaixa em menos de 50 anos, na maioria jovens saindo bêbado de algum rolê.

 

Leo Cucatti: Mano, isso é muito triste… Deixa a gente sem nenhuma esperança de melhora. Tudo aqui parece ser errado, na base de que quem tem mais pode mais… é triste.

Leo Cucatti: Pra gente finalizar essa conversa, gostaria de propor uma outra reflexão… Porque eu acredito que muita gente já deve ter te falado algo tipo, como por exemplo, o fato de não beber nos torna (ao olhar dos outros) algo mais conservador ou moralistas, como se apontássemos o dedo pra quem bebe, ou até mesmo aquele coisa de “esse aí não sabe viver” “não curte a vida”. O que você acha disso? O que pensa sobre isso?

Diego: Esse lance de apontar o dedo pra quem consome qualquer tipo de droga é um grande erro até porque muitas vezes a pessoa não foi pra esse caminho do nada, é necessário fazer uma série de recortes. Julgar ou ter preconceito com quem bebe, fuma, cheira não é esse o caminho, já vi muitos SXE “truezão” que apontava o dedo ou até cortava relações com o amigo que voltou a beber/fumar e depois de algum tempo tava bebendo também haha. Boa parte dos meus melhores amigos são pessoas que consomem álcool e outras drogas e são pessoas fantásticas, que posso contar sempre. Acredito que podemos fazer as mesmas coisas que as pessoas que bebem, podemos nos divertir, interagir, trocar ideia da mesma forma, a diferença são as nossas escolhas, mas nem por isso me acho melhor ou pior que alguém.

 

Leo Cucatti: Diego, muito obrigado pela conversa, como disse, acho muito importante essa reflexão sobre o consumo de álcool, que é algo tão comum no nosso dia a dia… Agradeço mesmo essa conversa e deixo aqui um espaço final pra você…

Diego: Muito obrigado irmão pelo espaço, fiquei muito feliz com o convite e é um prazer enorme fazer parte desse projeto. Vamos sobreviver a esse caos, derrubar Bolsonazi e que assim que for possível podemos todos estarmos aglomerados em formato de jacarés gritando como sempre por justiça! Saudades tua irmão, se cuida, forte abraço!

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