[NEM MAIS UM GOLE] – Entrevista com Clayton Clemente

Clayton Clemente, 42 anos. Graduado em educação física. Pós graduando em Lesões e doenças musculoesqueléticas prevenção e condicionamento físico ambos pela FMU, atua como personal trainer e educador físico com crianças TEA (transtorno do espectro autista) e também já participou de alguns shows/turnês e ex integrante das bandas adhaga e armas em punho.

 

Time Pma

 

Leo Cucatti: Quando criança você se lembra de ver seus pais, tios, parentes bebendo? Lembra o que pensava a respeito? Passou por alguma situação daquelas em que o pessoal molha a chupeta na cerveja ou deixa a criança beber a espuma da cerveja?

Clayton: Meu pai e meus tios tinham o costume de ir sempre ao boteco ficavam bebendo e jogando sinuca, algo bem normal por estar em família. Eu ficava tomando Gini e comendo doce de abóbora, não me lembro disso exatamente.

 

Leo Cucatti: E quando foi que você começou a ter um pensamento crítico em relação ao consumo de bebida alcoólica?

Clayton: Desde a adolescência com o Punk/Hc você acaba questionando tudo ao seu redor, porém, o grupo que vive acaba te influenciando em algumas atitudes e comportamentos.

 

Leo Cucatti: E alguma vez você já bebeu? Como foi a sua decisão pessoal de não beber? Por qual motivo?

Clayton: Já bebi sim. Estava num momento punk literalmente da vida e do rolê. Quando notei que não tinha necessidade nenhuma para fazer às coisas da vida. Ser feliz, me divertir, não estão relacionados com beber ou qualquer droga.

 

Leo Cucatti: E você sente que existe algum tipo de pressão social para beber? E mesmo a bebida alcoólica sendo algo bastante prejudicial para a vida e para a saúde, porque você acha que existe tanta propaganda e, de certa forma, incentivo para que as pessoas bebam?

Clayton: A pressão social existe, sempre vai existir, porque vivemos em grupos, cada grupo faz as regras, então, se quer fazer parte de algum rolê ou grupo você deve seguir as regras, portanto beber está ligado totalmente numa sociedade onde é preciso ser o melhor sempre, onde não se pode demonstrar fraqueza, ser feliz e rodeado de amigos com a internet isso se agravou a questão do status. A mídia em geral vende essa falsa realidade ligada à felicidade da bebida e mulheres lindas perfeitas.

 

Leo Cucatti: Na entrevista com o Fausto falamos um pouco sobre o livro “Dance of Days – duas décadas de punk na capital dos EUA”, que conta a história da cena de Washington e de bandas como Minor Threat, Teen Idles, Rites of Spring… Você leu? Uma das coisas que fica claro no livro é essa questão de não beber e ser contra sistema, porque basicamente o sistema nos quer dopado e embriagado, não nos querem sóbrios… O que você acha disso? 

Clayton: Eu não li inteiro esse livro, porém nessa sociedade que vivemos o sistema (estado + igreja) querem pessoas alienadas, sem posicionamento político ou questionador, só viver e aceitar. Porque com o álcool é mais fácil neutralizar e dopar o povo.

O álcool é uma ferramenta de controle de massa, só pensar como é usada na sociedade como o sinônimo da felicidade. Até na copa do mundo vendeu bebida alcoólica nos estádios para se notar a força e o poder que a bebida exerce nas pessoas, juntar a atração mais assistida do mundo com a bebida.

 

Clayton Clemente

 

Leo Cucatti: E porque o álcool não é visto como uma droga? Uma vez que é legalizado e tem até propaganda veiculada em todos os meios…

Clayton: O álcool sempre foi a forma de publicidade da mídia, as grandes empresas lucram com a felicidade do povo, ver o povo fazendo festa e se divertindo. A imagem de mulheres peladas e festejando nas campanhas publicitárias é uma ferramenta de manobra. O álcool serve como controle de massa, assim fica mais fácil manipular as pessoas, ninguém está se importando com a vida ou com o próximo. Todo mundo frio e apático por dentro, essa sociedade transforma todos em egoístas.

 

Leo Cucatti: Você acha que as relações interpessoais são de certo modo, frias, egoístas, vazias que faz com essas pessoas, relacionamentos, busquem na bebida algum tipo de alívio? Porque é difícil viver na sociedade que vivemos estando sóbrio?

Clayton: Vivemos numa sociedade que está preocupado somente com a imagem, então, seguimos um padrão. Quem não estiver nesse padrão precisa demonstrar estar sempre bem e feliz. A bebida faz esse papel porque todos estão bem e felizes nas fotos do Instagram, Tinder e nas campanhas publicitárias. Isso afasta cada vez mais as pessoas da realidade vivendo num mundo irreal.

 

Leo Cucatti: No geral o rock tem essa coisa de “sexo, drogas e rock n roll”, porque você acha que esse lema pegou tanto entre fãs do gênero? E você acha que é tranquilo sair pra se divertir sem beber? Ter uma banda? Cantar e expurgar toda a raiva e angústia de forma sóbria?

Clayton: A mídia fez a gente acreditar que o rock é uma rebeldia com esse termo, mas na verdade só matou as pessoas aos poucos. As drogas matando lentamente como o álcool e todas as doenças (cirrose, obesidade), as drogas mais pesadas que já destruíram a vida de vários roqueiros levando a depressão e morte, o sexo (DSTS) continua matando até disseminando a população. É possível ter banda e ser “locão” no palco gritando toda insatisfação desse sistema triste que nos fizeram acreditar sem ter usado uma gota de álcool ou qualquer outra droga. A rebeldia está em você e não num slogan para vender camisetas, cigarros e mais bebidas.

 

 

Leo Cucatti: Recentemente a cerveja Heineken fez uma postagem em homenagem ao dia mundial sem carne, e isso bastou para que fossem massacrados com mensagens do tipo: “vou fazer um churrasco pra comemorar” ou então “Heineken acabou pra mim, essa cerveja não entra mais na minha casa” e até vídeo de gente jogando cerveja fora apareceu… Isso tudo, penso eu, por conta de um comportamento já pré-estabelecido de que quem bebe tem que ser machão, carnívoro, aí esse é o comportamento ao que refiro essa imagem de beber e ser machão, atrelada a ideia de comer carne…  o que você acha disso?

Clayton: As grandes marcas estão sempre interessadas em tomar propriedade de alguns movimentos ou atitudes, como já disse com o rock, porém uma grande parcela hoje já não aceita esse jogo midiático. E tem uma parcela Sxe nesse jogo contrário a tudo isso. Manter sempre um posicionamento contrário à esses marcas que ainda exploram milhões de pessoas.

 

Clayton Clemente

 

Leo Cucatti: Pra gente finalizar essa conversa, gostaria de propor outra reflexão… Porque eu acredito que muita gente já deve ter te falado algo tipo, como por exemplo, o fato de não beber nos torna (ao olhar dos outros) algo mais conservador ou moralistas, como se apontássemos o dedo pra quem bebe, ou até mesmo aquele coisa de “esse aí não sabe viver” “não curte a vida”. O que você acha disso? O que pensa sobre isso?

Clayton: Vivemos numa sociedade que julga sempre e não sabe respeitar as diferenças alheias, temos sempre que provar e demonstrar nossa felicidade, principalmente, com essa rede virtual. As pessoas tem que entender que todas e todos podem e estão felizes sem usar drogas, a gente tenta maquiar a vida, vivemos numa sociedade tão cruel que para algumas pessoas não é fácil estar sóbrio, porém, a felicidade está longe disso, temos que encontrar maneiras de buscar a felicidade. A revolução vai ser feita com todas e todos juntos só quando pararmos de julgar os outros.  O moralismo ou conservadorismo está nos dois lados vimos isso nas últimas eleições tanto pessoas do Punk/Hc, Sxe, metaleiros e do rap se posicionaram de direita elegendo esse presidente. Agora a batalha é juntar as pessoas, unir o povo para derrotar esse governo de merda.

 

Leo Cucatti: Clayton, muito obrigado por essa conversa… você gostaria de deixar uma mensagem final sobre esse assunto para quem acompanha a coluna ‘nem mais um gole’?

Clayton: Vamos manter o respeito e juntas e juntos podemos enfrentar as batalhas do dia dia. Saber escutar e ouvir os problemas dos amigos porque nossa luta também é interna.

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