[NEM MAIS UM GOLE] – Entrevista com Cibele Minder

Meu nome é Cibele Minder, tenho 32 anos, sou uma sapatão de São José dos Campos, mas vivo atualmente na capital $P. Trabalho como luthier, consertando e construindo instrumentos de corda. Quando não estamos em pandemia também trabalho como roadie. Gosto de tocar guitarra, cantar e tocar violão além de fazer uns desenhos abstratos pelas paredes e tirar fotografias pinhole.

 

Leo Cucatti: Quando criança você se lembra de ver seus pais, tios, parentes bebendo? Lembra o que pensava a respeito? Passou por alguma situação daquelas em que o pessoal molha a chupeta na cerveja ou deixa a criança beber a espuma da cerveja?

Cibele Minder: Olha, na minha família nunca teve alguém que bebia no sentido de passar do ponto e fazer coisas desagradáveis pelo que me lembro; mas era comum em comemorações tomar os espumantes da vida, umas cervejas e tal. Não pensava muito sobre, era mais algo de adulto mesmo na minha cabeça. Eu lembro, de ter experimentado a primeira vez do copo do meu tio, achei amarga e não me atraiu nada, só entendi porque ele sempre tinha aquele cheiro (rs).

 

 

Leo Cucatti: Por que você escolheu não beber?

Cibele: Agora em abril desse ano (2021) completou três anos que não bebo mais. Antes desse momento de decisão eu já tinha ficado alguns períodos sem consumir álcool e foram bons, mas sempre acabava retornando. Ao longo da minha vida toda, desde minha adolescência, o álcool sempre esteve presente na maior parte dos meus momentos de lazer e socialização. Nunca questionei, até porque achava divertido e beber é algo muito naturalizado e incentivado. Me “ajudou” a superar inseguranças momentaneamente e a ser uma pessoa mais sociável (hoje super acolho minha introspecção rs). Parei de beber uma vez como parte de um tratamento ginecológico que estava fazendo uma época, pois uma das coisas que pioravam o quadro era o álcool (tudo que virava açúcar no corpo). Nesse tempo percebi o quão centralizadas no álcool eram minhas relações e rotina, comecei a refletir em quantas ideias trocadas no rolê que eu me esquecia no dia seguinte, no quanto o consentimento se tornava nebuloso em diversos momentos e o quanto de dinheiro que eu gastava nisso tudo. A partir desses questionamentos, em outras reflexões tidas por trocas com outras pessoas e lendo textos, eu e Pamela, minha amiga (na época, companheira) começamos a escrever e organizar essas inquietações que ambas compartilhávamos. Então, escrevemos a zine “álcool: prazer colonizado pelo capitalismo patriarcal” que possibilitou várias trocas e conversas em rodas (dentro e fora delas) que propúnhamos em diferentes espaços, e, pra mim, mostrou o quanto fazia sentido continuar não consumindo álcool e construir relações à parte disso, que a meu ver foram mais potentes e cuidadosas. Fazer outras coisas que não beber possibilitou trocas bem diferentes das que estava habituada, com mais qualidade.

 

Leo Cucatti: Sim, eu me lembro do zine, inclusive participei de uma dessas rodas de conversa em Itanhaém no No Gods No Masters Fest, e realmente foi muito interessante. Eu gostaria de saber como foram essas rodas de conversa, quais eram os questionamentos e experiências mais comuns que vocês encontraram?

Cibele Minder: Então, sinto que na maior parte das vezes as pessoas que participavam das rodas estavam lá por conta de alguma coisa que já estavam pensando sobre seu próprio consumo, ou curiosidade mesmo. Não me lembro de ter rolado de colarem na roda pra provar o quanto era legal beber ou qualquer coisa. Até porque esse nem era o nosso objetivo quando a gente propunha esses momentos, sobre ter um comportamento certo/errado ou julgar uma pior/melhor decisão de cada pessoa. Na maior parte das vezes rolava muito um compartilhar de experiências semelhantes, de se fazer o uso do álcool como um escape psicológico, pra “destravar” timidez ou esquecer um pouco o que se estava vivendo nesse cotidiano maçante capitalista sem perspectivas. Rolaram muitas reflexões sobre o condicionamento social que somos impostas, como se essa fosse a única forma de se divertir e trocar com as pessoas nos momentos de lazer; como fundamental pra um momento de encontro entre amigas etc. Além de diversos relatos sobre assédio sofrido, muitos em meios ditos libertários, de esquerda e etc…

 

Leo Cucatti: Porque você acha que a sociedade, no geral, não vê o álcool como uma droga com potencial de destruição muito maior do que outras como a maconha, por exemplo?

Cibele Minder: Eu acho que por ser uma substância que é vendida legalmente e inclusive incentivada por meio de propagandas, em anúncios, filmes, novelas etc; há uma grande aceitação e naturalização do álcool nos diversos espaços de socialização, nos âmbitos privados e públicos. Eu entendo também que não é à toa que esse incentivo exista e que o uso seja tão frequente por parte das pessoas. A gente vive num cotidiano muito zoado e alienante de trabalho dentro do capitalismo, muitas vezes sem perspectiva de melhora de vida, com nossos sonhos sendo engolidos por esse cotidiano maçante de trabalhar quase todos os dias da vida pra se ter onde morar, sem tempo para o ócio, pra criação sem cobrança e tudo mais. E o álcool é inserido de forma muito estratégica dentro dessa lógica pra despressurização desses nervos; ele é o que o sistema permite que se use pra esquecer pelo menos por uma noite que seja e assim seguir em frente. E não é questão de julgar como certo ou errado quem bebe pra ter seus momentos de prazer, ou simplesmente pra esquecer tudo mesmo. Afinal, quem que está aguentando com sanidade tudo que estamos vivendo, né? Cada um tem um lugar de escape. Mas respondendo sua pergunta, entendo que o álcool seja bem mais aceito por conta disso, tanto pela necessidade das pessoas de um refúgio do caos quanto pelo papel social que ele tem no apaziguamento das tensões de classe. E a maconha também foi estrategicamente situada aí, nessas tramas sociais de forma marginalizada pra se inventar uma guerra às drogas que na verdade é só um pretexto pra criminalizar a pobreza, constituída majoritariamente por pessoas negras e indígenas. Aí, criou-se esse estigma em relação à periculosidade da substância pra legitimar a perseguição de toda uma parte da população que acaba, por falta de oportunidade e perspectivas, se envolvendo com o tráfico de drogas. E isso tudo mesmo estando mais que comprovado que o álcool traz diversos malefícios ao nosso organismo e sociedade (estatisticamente existe um agravamento em relação à violência contra a mulher por exemplo quando o agressor faz uso contínuo e abusivo do álcool) enquanto existem estudos e comprovações do poder de cura da planta da maconha e seus derivados em vários aspectos terapêuticos e medicinais.

 

Leo Cucatti: Como você analisa as propagandas de cerveja? Tanto pelo fato delas existirem (forçando e incentivando o uso de uma substância que pode te vender uma falsa ideia de alegria, mas que pode proporcionar destruição) quanto pelo conteúdo? (na maioria dos casos apenas objetificando o corpo da mulher, ou tentando passar uma impressão de que o homem que bebe está sempre rodeado de lindas mulheres) Você percebe hoje em dia que algumas propagandas de cerveja que já não utilizam esses métodos? Que tentam se fazer mais presentes dentro de diversas representatividades? O que você acha disso?

Cibele Minder: Bom, acredito que as propagandas existam porque a cerveja gera lucro (muito lucro!), e isso é o que basta pro capital criar toda uma cultura de alcoolismo aceitável e desejável. Beber, e beber bastante, sempre foi algo associado ao universo masculino, botecos cheio de homens (costumo dizer que é o antro de amor deles, onde a presença feminina é sempre hostilizada ou objetificada), quem bebe mais é o mais macho etc e tal e aí essas propagandas misóginas né, com objetificações absurdas em que a mulher esta ali como objeto tanto quanto a cerveja. De uns tempos pra cá diversos debates se fortaleceram/tiveram maior visibilidade por conta da luta do movimento feminista que, somado ao poder de disseminação de ideias da internet, impulsionou vários boicotes e exposições de empresas que ainda hoje se utilizam de publicidade misógina e na maior parte das vezes racista. A partir daí, dessa mudança da demanda de mercado, passaram a mudar as estratégias com um discurso mais abrangente, em que mulheres estão ali bebendo também e não só como corpos seminus rebolantes; tem até empresas que investem em coisas como ‘cerveja para mulher’ com teores mais baixos de álcool, o que é ridículo, pois continua segmentando e estigmatizando mulheres nesse lugar de fragilidade.

E esse discurso supostamente mais abrangente se dá não porque o mercado está mais ‘inclusivo’ mas porque viu que existe um nicho a se absorver e que ele precisa se remodelar pra continuar lucrando.

 

 

Leo Cucatti: Pra você qual a principal diferença que você percebe quando bebia e saia pra se divertir e depois que parou de beber?

Cibele Minder: Gastar menos dinheiro! haha Costumava gastar até as últimas moedas que tinha no rolê pra beber. Mas acho que tiveram vários pontos que mudaram. Pra além da questão física mesmo de não ter mais ressacas que zoavam meu corpo e mente no dia seguinte, gostei muito da consciência que retomei. Quando bebia perdia um pouco a noção dos meus limites, sobre questões de consentimento comigo mesma, do que eu queria fazer, e até com quem eu queria estar. Também era costume não lembrar muito das ideias que trocava com as pessoas quando eu estava bêbada. Tinha vezes que acordava com a sensação de que o rolê tinha sido divertido, mas eu não lembrava ao certo como as coisas tinham se desenrolado e nem de todas as ideias trocadas. Várias noites viraram só fragmentos na minha mente. E não que eu ligasse muito pra isso na época, mas depois de um tempo passei a me incomodar com essa memória nebulosa constante (porque eu nunca fui de beber pouco também). Quando comecei a pensar mais sobre isso eu ainda bebia e comecei a tentar analisar melhor o que me motivava a beber. Passei a perceber que muitas vezes eu só pegava uma cerveja no rolê por condicionamento mesmo, porque aquilo era o que eu tinha me habituado como forma de extravasar e curtir; ou sempre beber aquela cerveja depois de trabalhar porque sim, mesmo sem ter tanta vontade eu bebia porque tinha à disposição. Trabalhei durante muito tempo tocando na noite, em barzinhos, casa de show etc. e o ambiente era isso aí. Comecei a me questionar também porque que tudo girava em torno do álcool, porque que sempre que eu marcava algo com minhas amigas tinha que ser num bar, ou mesmo em outro lugar, mas com essa centralização no álcool. Tipo, por que a gente não tira essa diversão de outros lugares? Lugares interiores mesmo. E aí comecei a focar em marcar programas e coisas com minhas amizades que fossem pra fazer outras coisas, coisas que sentia que adicionavam mais na minha vivência, algum esporte, ler juntas, tocar sem necessariamente estar chapada, cozinhar, escrever uma zine ou só ficar num parque caminhando, trocando ideia, pensando em utopias, bolando estratégias de sobrevivência, de bem viver, de se organizar mais conscientemente. Acho que têm pessoas que podem conciliar isso de boas, mas pra mim foi bem positivo ter repensado toda essa lógica de divertimento/consumo, foi meio que virar uma chavinha na mente mesmo. Nesse último mês de maio completei 3 anos sem beber e sinceramente não é algo que sinto falta.

Resumindo, sinto que tenho mais qualidade nas trocas, aprendi que tudo bem não ser essa pessoa super extrovertida e “pra fora” que o álcool me propiciava; me aproximei mais da minha introspecção e ela tem sido bem boa pra mim.

 

Leo Cucatti: Cibele, muito obrigado por essa entrevista, gostei demais dessa conversa, desses momentos de reflexão sobre tudo o que você falou… Deixe uma mensagem final pra quem acompanha coluna “Nem mais um gole”.

Cibele Minder: Pô, agradeço o convite e fico feliz por poder trocar essa ideia. Espero que ela possa contribuir aí com reflexões diversas. Inclusive, nesse meio tempo relançamos a zine do “Álcool: Prazer colonizado pelo capitalismo patriarcal”, tá online pra quem quiser ter acesso:

https://drive.google.com/file/d/1gu-Q2RBwBH3Lv4v20uqwGC1crg6o8Umu/view)

Valeu Leo, até uma próxima!

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