[NEM MAIS UM GOLE] – Entrevista com Carol Rocha

Carol Rocha, 28 anos, vegan e straight edge, bissexual. Diagramadora, às vezes ilustradora, ex-baixista e agora vocalista da Gulabi. Metaleira que ama kpop e odeia metaleiro.

 

 

Leo Cucatti: Quando criança você se lembra de ver seus pais, tios, parentes bebendo? Lembra o que pensava a respeito? Passou por alguma situação daquelas em que o pessoal molha a chupeta na cerveja ou deixa a criança beber a espuma da cerveja?

Carol Rocha: Lembro bastante, eu não gostava de cumprimentar pessoas que tinham bebido por causa do cheiro forte e presenciava atitudes que me deixavam desconfortável. Minha mãe e meu pai nunca molharam a chupeta, mas já teve parente que deu umas gotinhas pra eu saber o gosto.

 

Leo Cucatti: Alguma vez você já bebeu? Sentia que havia uma pressão de amigos e da sociedade pra você começar a beber ainda muito jovem?

Carol Rocha: Eu comecei a beber um pouco depois da idade que os jovens costumam começar, comecei com 18 mesmo mas bebida mais “suave” junto da minha mãe. Quando eu tinha 16 anos meus amigos da escola bebiam depois da aula, eu era vista como certinha porque não bebia e não fumava, a primeira vez que fiquei muito bêbada foi com 19 anos e lembro que foi porque me encheram o saco por beber devagar, aí bebi rápido demais por pressão e deu ruim. Entrei na faculdade com 20 anos e comecei a beber mais e depois da morte da minha mãe comecei a beber mais ainda, chegava sempre um momento que pensava “melhor diminuir” e diminuía por uns 3 meses, depois voltava porque era muito mais fácil de socializar.

 

 

Leo Cucatti: Sobre a timidez, vejo que muitas pessoas começam a beber para se sentir parte de um grupo ou até mesmo para se soltar e deixar e deixar de ser tímida… você foi uma adolescente tímida? Precisou (em algum momento) de bebida para deixar de ser tímida? Como encarar a timidez de forma sóbria?

Carol Rocha: Eu era muito tímida, ainda sou, mas antes era DEMAIS, a bebida me deixar mais desinibida contribuiu para que eu continuasse bebendo. Além de tímida eu tenho cara de brava, se eu não tomasse iniciativa as pessoas não vinham falar comigo, usei bastante a bebida pra tomar coragem. Depois de parar uma das coisas que parece que eu desaprendi várias coisas, aprendi de verdade a falar com confiança em um grupo grande de pessoas, achava que sabia, mas era tudo ilusão de bêbada hahahaha ainda tem coisas que são um desafio, tipo flertar, não só pela timidez, mas também porque não me sinto bem em tentar algo com alguém que está muito alterada enquanto eu não estou.

 

Leo Cucatti: Quando foi que você começou a ter um pensamento crítico em relação ao consumo de bebida alcóolica? E por que você escolheu não beber?

Carol Rocha: Eu já presenciei cenas desagradáveis causadas pelo consumo desenfreado de bebida alcóolica, é algo que carregava comigo antes mesmo de começar a beber e deixei as lembranças pra lá quando vi como era mais fácil me enturmar bebendo. Com o tempo alguns acontecimentos fizeram os questionamentos voltarem, eu sentia muita vergonha do meu comportamento depois e era um pouco assustador ver como TUDO girava em torno da bebida, as pessoas ao meu redor não conseguiam pensar em diversão sem ter álcool envolvido.

Eu diminuí bastante quando tive uns problemas de saúde, percebi que eu nem gostava tanto assim do gosto da bebida e me sentia muito melhor, que não precisava ficar bem loucona pra me divertir. Outro dia até conversei com uma amiga sobre como os roles da nossa bolha LGBT giravam sempre em torno disso, os meus finais de semana eram quase sempre festa pra ir beber, bar, qualquer coisa ligada a bebida.

 

Leo Cucatti: Sim, muitas pessoas com quem conversei nessas entrevistas falaram coisas parecidas, que quando perceberam tudo girava em torno de se reunir pra beber… Hoje (sem considerar os dois anos de pandemia heheh) você acha que é possível sair pra se divertir, ver amigos, socializar, tocar, ter uma banda, sem precisar beber?

Carol Rocha: É possível sim e acho até melhor sem beber, às vezes quando estava alterada já não queria socializar mais por achar que começaria a ser inconveniente, aconteceu algumas vezes de passar mal e o role já acabar pra mim. Minha relação com a banda (no sentido de tocar e tals) melhorou bastante, tenho mais foco e meu desempenho nos shows deu um salto. Percebo que eu não beber faz com que algumas pessoas fiquem receosas até eu me mostrar que sou alguém sociável que apenas não bebe. Ao mesmo tempo entendo quem não consegue abrir mão e precisa disso.

Com as minhas amizades que mais curtem beber não muda muita coisa, conseguimos nos divertir, desenvolver uma conversa, rir, do mesmo jeito que era antes, o que muda é eu ficar mais atenta pra ninguém passar mal (mandar comer alguma coisa, beber alguma coisa não alcoólica nos intervalos).

 

Leo Cucatti: Porque você acha que a sociedade, no geral, não vê o álcool como uma droga com potencial de destruição muito maior do que outras como a maconha, por exemplo?

Carol Rocha: Acho que pelo fato de ser legalizado e as propagandas pintam uma imagem muito glamourizada.

 

 

Leo Cucatti: Como foi seu primeiro contato com a cultura SXE? Você se identificou logo de cara ou não?

Carol Rocha: Comecei a ouvir Minor Threat com 14 anos, sabia já o que era, mas só fui conhecer um straight edge quando eu tinha 16 anos (isso não durou muito na vida dele, tanto que ele nem lembra que um dia disse que era hahaha), achei as ideias muito interessantes e me identifiquei, mas os que eu tinha visto se encaixavam dentro de um padrão de aparência no hardcore que eu estava bem longe de ser, a maioria homens brancos de classe média e eu uma adolescente do extremo da zona sul de São Paulo, então achei que não me encaixaria e acabei deixando pra lá. Retomei o contato quando conheci meu amigo Ricardo (o príncipe vegano) e minha amiga Sirlene, a visão que eu tinha mudou.

 

Leo Cucatti: Pra gente finalizar essa conversa, gostaria de propor outra reflexão… Porque acredito que já devem ter te falado algo tipo, como por exemplo, o fato de não beber, nos torna (ao olhar dos outros) algo mais conservador ou moralista, como se apontássemos o dedo pra quem bebe, ou até mesmo aquele coisa de “essa aí não sabe viver” “não curte a vida”. O que você acha disso? O que pensa sobre isso?

Carol Rocha: Já ouvi bastante isso, me tiraram de “certinha” várias vezes e também rolou de me falarem “pode beber/fumar, ninguém vai saber”, a minha escolha não é pra provar qualquer coisa pra alguém, segui por esse caminho porque é o que faz sentido pra mim, acho que cada um curte a vida do jeito que achar melhor.

Se tem alguém no role que gosta de beber, usar drogas, não vou apontar o dedo. Já me irritei antes, mas hoje passa batido, eu sei o que é melhor pra mim e não sinto que estou perdendo algo.

 

Leo Cucatti: Carol, foi um grande prazer essa conversa toda e nossa reflexão sobre o consumo de bebida alcóolica… Só tenho a agradecer e deixo esse espaço para suas considerações finais…

Carol Rocha: Eu que agradeço! Muito obrigada pelo convite. Achei muito foda essa série de entrevistas sobre um assunto tão necessário, o underground e o meio LGBT são universos que pessoas de fora associam a consumo desenfreado de álcool e drogas, não que quem usa esteja errado, mas isso não é uma regra, não é o que nos define.

 

 

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