Nem mais um gole - Adriessa

[NEM MAIS UM GOLE] – Entrevista com AdriessaPor: Leo Cucatti

Adriessa nasceu em Santos, tem 38 anos e mais de 20 na cena DIY. Vocalista e guitarrista mas bandas Anti-Corpos, Eat My Fear e Iron. Vegan, straight edge, queer e feminista. Atualmente vive em Berlin aonde organiza shows queer feminista com o coletivo S_he’s Amazing e tenta tocar música suja, política e utópica mundo afora.

 

Leo Cucatti: Como era na sua infância?

Você se lembra de ver seus pais, tios, parentes bebendo? Lembra o que pensava a respeito?
Passou por alguma situação daquelas em que o pessoal molha a chupeta na cerveja ou deixa a criança beber a espuma da cerveja? O que acha sobre isso?

Adriessa: Minha infância teve muita lembrança relacionada ao álcool. Minha mãe bebia pouco, meu pai já bebia mais e às vezes ficava mais agressivo quando bêbado. Muitas vezes passou do limite, não que isso tenha me gerado trauma, hoje ele é bem diferente, mas ele era muito jovem também.

No natal de 1989 foi o mais trágico até hoje na minha vivência. A minha avó havia sido atropelada e eu e meus dois irmãos pegamos caxumba! Foi um natal de pijamas somente eu, meus irmãos e meus pais. Em algum momento eu peguei escondido um copo da famosa cidra cereser e mandei ver junto com os remédios que estava tomando por conta da caxumba, creio que tive alucinações e eu VI PAPAI NOEL SAINDO DA JANELA do segundo andar hehehe espero que tenha sido alucinação…

Mas acho que os piores momentos relacionados ao álcool eram protagonizados por meus padrinhos. Brigas físicas e verbais, os dois sempre indo além do limite e barreiras. Era pesado e sempre normalizado. Isso deixou trauma, pois ambos eram pessoas que eu amo muito e que combinados com álcool viravam uma bomba!

Sobre situação de molhar a chupeta eu não tive, mas vi meu tio fazendo isso com meu primo… Acho bizarro!

 

Leo Cucatti: Caramba, e quantos anos você tinha nesse natal de 1989? E como você vê hoje em dia essa “normalização” da bebida gerar comportamentos violentos?

Adriessa: Sou de 1982, 7 anos.

Eu acho a questão do álcool complexa em vários sentidos. Óbvio que hoje em dia eu olho pra trás e vejo diversas situações causadas por influência alcoólica; completamente bizarras. Mas é sempre importante tentar entender as raízes do consumo de drogas e álcool e tentar cada vez mais entender que o capitalismo é uma grande parte desse jogo. Frustração, falta de oportunidades, medo, exclusão… A propaganda nos mostra algo que não podemos muitas vezes ter, falhamos constantemente e é muito difícil ficar sóbrio nesse mundo que tenta te derrubar o tempo todo.

Aqui em Berlim é extremamente normal de manhã cedo você ver homens trabalhadores tomando uma cerveja no trem pra começar o dia, de café da manhã mesmo. O alcoolismo aqui é brutal! Só que esses homens são a maioria super frustrados, tipo, alemão com salário baixo, sem bens alguns e que provavelmente vão ter que catar garrafa na rua pra completar a grana da aposentadoria que não é suficiente. A previdência daqui é bem cruel com o trabalhador padrão.

Ao mesmo tempo na cena queer feminista, que faço parte, o lance de beber e provar que podemos fazer o que quisermos sempre foi algo muito importante, a libertação! Mas em um momento isso me assustou e foi um dos grandes impulsionadores para eu parar com o álcool. De repente aos 33 anos eu estava rodeada com diversas amigas super jovens e alcoólatras e isso me impactou.

 

Foto René Greffin
Foto por René Greffin

 

Leo Cucatti: Sim, você tem toda razão, muitas vezes essas frustrações, esses medos acabam empurrando as pessoas para a bebida e drogas… Mas eu acho também que na adolescência, principalmente, é mais uma coisa de farra, de fazer pra se sentir parte de um grupo… O que você acha disso? Você sentia algo assim na sua adolescência?

Adriessa: Óbvio, queremos pertencer e eu queria ser livre do estereótipo de menina frágil e tal. Eu era a mina briguenta, cara de brava, deixava as pessoas do meu rolê bem afastadas. Curtia isso! Nasci e cresci em Santos, era aquilo, semana escola e finais de semana rolê nos bares alternativos da cidade e show. Muito show e muito álcool! Eu nunca pirei na sensação de estar bêbada e perder o controle, mas fazia parte, é o que eu via como normal. Mas o SXE é o mesmo. A maioria dos jovens entraram no role como uma forma de ter sua gang, seu grupo, pertencer a algo. Tanto que a maioria quando cresce desencana e para de ver sentido.

 

Leo Cucatti: Como foi seu primeiro contato com a cultura straight edge? O que você achou? Você se identificou? Teve interesse? Achou uma bobagem?

Adriessa: Acho que como a maioria da galera da minha idade o primeiro contato foi através do Shelter e o clipe de Here We Go na MTV. Logo em seguida conheci uns meninos que eram SXE em Santos dos quais, a maioria desses caras, eu não gostava muito não. Eles ficavam tirando onda das meninas da cena, se achavam tipo, meio superiores e eu tinha um bode monstro. Era um lance, tipo, “colé desses caras do colégio particular se achando superior porque não bebem?”. Tipo, a cena hardcore, metal, punk em santos era muito fértil e todos acabamos indo em shows ou dividindo palco de festivais de escola e etc. Muitos dos caras, hoje em dia são grandes amigos, mas na época eu pegava mal demais com eles principalmente por posturas sexistas e tudo ser piadinha, sabe?

 

Leo Cucatti: Você acha que a cultura SXE é um espaço convidativo para mulheres? Para meninas adolescentes?

Adriessa: Acho que o hardcore em geral não é convidativo para as mulheres, queers e trans. É um espaço que ainda tem um discurso muito raso e o SXE, por mais que seja libertário ainda reproduz muito disso, enfim, o mundo num geral não é convidativo para as mulheres.

 

Adriessa Souza

 

Leo Cucatti: Pergunto isso porque nos anos 90 eu achava que era um movimento, um grupo bastante acolhedor, mas lá pela metade dos anos 2000 eu vi tudo isso se transformar num bando de cara fortão, careca, com bermudas camufladas, e isso até me afastou um pouco também, e teve aquela história de um grupo de whatsapp (se não me engano), que vazou várias conversas machistas e expondo algumas meninas. Você se lembra disso, o que achou? Você já era straight edge nessa época?

 

Adriessa: Então Leo, é complicado. Meu contato com o SXE vem no final dos anos 90 e como te disse eu achava um movimento de menino bobo e a maioria dos caras, que eu conhecia eram meninos brancos de classe média tentando pertencer a algo, o que é normal quando você tem 15,16 anos… A cena que eu tinha contato, a de Santos, pra mim não era politizada e muitos dos caras, que hoje são próximos de mim tinham posturas extremamente escrotas muitas vezes.

A primeira vez que eu li sobre SXE em um contexto mais político foi quando fui ao show do Desecration e alguém estava panfletando algo sobre SXE, provavelmente o Marcolino, e aí fiquei sabendo do lado mais político do SXE. Era estranho, porque mesmo curtindo muito o som das bandas, como na época eu não era, eu tinha meio distância até pra me aprofundar.

Aí com internet, conhecendo bandas, eu fui começando a achar o SXE interessante, mas sempre me mantive longe porque não achava que fosse pra mim. Há 5 anos o SXE faz sentido na minha vida. Como mudança interior e exterior, envelhecer e ver amigos e amigas com dependência de drogas, sociedade fodida, entender como o álcool destrói vidas, lares e tudo mais fez com que eu passasse a não consumir mais o álcool que era a droga que eu usava e como sou punk e drug free acabei usando o rótulo pra mim.

Sobre o Kings, além do fato todo, ser bizarro por si, eu ainda acho muito revoltante/triste ver que os caras não se responsabilizaram pelo que aconteceu e fica por isso, manja? Não estamos falando em punitivismo, cadeia ou mesmo ”exclusão da cena”, mas em entender que essa ”brincadeira” deixou traumas nas garotas que foram expostas e nas pessoas que tentaram fazer algo. Eu me envolvi demais nesse caso, na época o Anti-Corpos era bem forte na cena de SP e essas garotas e outras pessoas de coletivos feministas nos procuraram para ajudarmos a expor o caso. Eu perdi amigos nessas e alguns ainda dói bastante. Acho que o acontecimento deixou marcas e mágoas, mas sei que não foi o primeiro e nem será o último, infelizmente.

Esse acontecimento abriu um debate, as minas foram pra cima e não se calaram, foi um divisor de águas que eu particularmente considero que foi importante para abrir uma reflexão sobre o machismo dentro do hardcore punk e o SXE. Lembro bem lá no início dos anos 2000 quando uma garota teve fotos íntimas compartilhadas no fórum SXE e nada aconteceu, pelo contrário, muitas das pessoas que conheço foram as que ajudaram a compartilhar isso. Se lá atrás a atitude fosse outra talvez não tivesse existido Kings, manja?

 

Leo Cucatti: Caramba, eu não tinha noção disso tudo, foi um caso que eu ouvi falar na época, mas como não conhecia ninguém envolvido e pra mim não chegou nenhum nome, nenhuma pessoa ou banda, eu só imaginei que fossem um bando de idiotas, que como eu disse antes, já estavam tomando conta do movimento, e não me aprofundei… Mas ouvindo isso de você agora, vejo que só não me aprofundei porque não doeu em mim ou em alguém muito próximo. Mas entendo agora o quanto isso fez mal pra algumas meninas. Você sabe dizer se esses caras envolvidos foram punidos de alguma forma? Ou se explicaram? Vieram a público pedir desculpas? Assumiram a responsabilidade de alguma forma? Mesmo que já passado vários anos…

Adriessa: A Punição é complexa. Não acho que punir é o mais adequado nesses casos. Sobre responsabilização nos Kings, tirando um ou outro que escreveu carta sobre o grupo nunca houve de fato uma responsabilidade e isso é muito zoado e sabe por quê? Mais uma vez você continua vendo os caras e suas bandas ali, fazendo, produzindo, sendo parte. E as minas? Como sempre acabam saindo, deixando de frequentar e ser parte. Eu acho que o lance é excluir os caras? Não. Mas também não é passar a mão na cabeça e vir com o clássico ”Ele mudou!”. Mudou? Mudar seria sentar com a comunidade, ver como agir dali pra frente, como fazer o espaço do hardcore punk frequentável pros dois lados. Enfim, é um processo que foi ignorado. Acho que enquanto não usarmos estratégias de comunidade e responsabilidade eu não acho que nossa cena vai ser um espaço para todes.

 

Leo Cucatti: Muito importante esse ponto que você levantou, porque na maioria das vezes não há sequer o questionamento de como mudar e de como os espaços do hardcore, seja com bebida alcóolica ou não, muitas vezes ainda reproduzam comportamentos machistas e não seja um espaço totalmente seguro e livre para todes… o que você acha que poderia ser feito nesse sentido?

Adriessa: É difícil Léo, não existe espaço seguro, mas podemos tentar chegar ao mais próximo escutando quais as necessidades que a comunidade demanda. Às vezes fazer um time de pessoas responsáveis nos shows para que alguém que se sinta desconfortável com alguma situação possa se dirigir. Aqui chamamos de ”awareness team” não sei como seria a tradução do termo. Em caso de pessoas que tenham algum tipo de conflito divida o mesmo espaço o ideal seria formar um grupo responsável para criar ambiente frequentável sem exclusão ou punição. Por exemplo, se alguma pessoa que frequenta espaços de shows acabe ficando mais violenta consumindo álcool, talvez chegar num acordo que só frequente sóbrio ou coisas do tipo. Acho que ouvir as necessidades da comunidade é o primeiro passo pra mudança. Da uma olhada na nossa cena e quem frequenta os shows e repara quantas pessoas deficientes estão lá, quantas mães frequentam os shows? Tornar o espaço bem vindo para todes é difícil, mas dá pra fazer melhor.

 

Leo Cucatti: E pra encerrar, quero agradecer muito por essa conversa produtiva e de muita reflexão, e deixar esse espaço final pra você falar o que mais tiver vontade em relação ao consumo de álcool e outras substâncias psicoativas ou o que mais quiser… Muito obrigado!

Adriessa: Valeu demais pelo papo. Acho que todes temos que viver a vida como faz sentido ou melhor pra si. Se as drogas fizerem parte dessa caminhada tá tudo mais que certo. O importante é ser responsável e cuidar um de outre, sóbrio ou não. Alias, não está nada fácil se manter sóbrio nesse mundo tão caótico, né? Fiquem bem!

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