I Wor Kuen: Luta antiracista e pelo socialismo dos asiáticos-americanosPor: Fábio Tardelli

Aos amantes de literatura estadunidense quando passam por Jack London, Frederick Douglass e até mesmo Stephen King devem ter percebido que a problemática dos direitos sociais naquele país aponta justamente para um sistema que prioriza o capital e mercadorias do que pessoas. Entre linhas de seus escritos profundas denúncias diretas ou mesmo subliminares pelo contexto brutal na qual seus personagens traçam lutas e sobrevivem, enquanto lutam sempre com o estereótipo do lumpemproletariado de lá: racista, violento e covarde [que ataca em bandos ou se vale de mecanismos legais ou ilegais para coagir].

Não que esse fenômeno seja parte de uma historicidade inerente do texano ou nova iorquino, mas sim da forma como o capitalismo em sua face da acumulação primitiva e depois industrial se forjou lá.

Entre os mitos que se saíram das fornalhas da terra de George Washington, há muitos que precisam de um trato carinhoso e respeitoso daqueles que lutam por uma sociedade justa e igualitária, e isso passa por um poderoso movimento socialista no berço do imperialismo do século XX e do Neoliberalismo.

Livin’ On a Prayer

(Once upon a time, not so long ago)

Tommy used to work on the docks
Union’s been on strike, he’s down on his luck
It’s tough, so tough
Gina works the diner all day
Working for her man, she brings home her pay
For love, for love

Vivendo em Oração

(Era uma vez, não muito tempo atrás)

Tommy trabalhava nas docas
O sindicato estava em greve, ele estava sem sorte
É difícil, tão difícil
Gina trabalhava numa lanchonete o dia todo
Trabalhando para seu homem, ela traz o seu salário para casa
Por amor, por amor

 

Panteras Negras, Angela Davis e David Harvey me parecem os nomes mais conhecidos do socialismo estadunidense para o público mais genérico do progressismo brasileiro. Mas há figuras como o historiador Mike Davis, Panteras como Fred Hampton e Huey Newton e organizações como Jovens Senhores, Boinas Marrons, Jovens Patriotas, as organizações indígenas e claro a organização tema desse texto: I Wor Kuen.

Entre os anos 60 e 70 o I Wor Kuen [Punhos Justos e Harmoniosos] se organizou como uma “gangue” [a estilo de Panteras Negras e Jovens Patriotas – como em The Warriors] para lutar contra o racismo contra asiáticos, o imperialismo, guerras dos Estados Unidos contra nações da Ásia e pelo socialismo. Uma organização que transitou pelo marxista-leninismo e maoísmo, e derivava de jovens asiáticos descendentes de várias nações e que estavam insatisfeitos com o reformismo de organizações estadunidenses ligadas ao trotskismo e inspirados por organizações como a dos Panteras Negras decidiram se organizar em um partido combativo.

Basicamente o I Wor Kuen era composto por jovens, professores, operários e pessoas que trabalhavam no comércio. Ou seja, a base da classe trabalhadora, lembrando que nos Estados Unidos, nessa época, havia um expressivo contingente de asiáticos na classe média, diferente de outras minorias como negros, latinos e indígenas, o que dividia bastante as relações dos próprios asiáticos [cuja maioria era chinesa, japonesa ou das Filipinas].

 

Beat It On Down The Line

 

Well this job I’ve got is just a little too hard,

Running out of money, Lord, I need more pay.

Gonna wake up in the morning Lord, gonna pack my bags

[…]

Coal mine, coal mine, coal mine, coal mine.

Coal mine, coal mine, coal mine, coal mine.

Coal mine, coal mine, coal mine, coal mine.

Down in Joe Brown’s coal mine.

 

Yeah, I’m goin’ back to that shack way across that railroad track,

Uh huh, that’s where I think I belong.

Got a sweet woman, Lord, and she’s waiting there for me

And that’s where I’m gonna make my happy home.

 

Bata-o para baixo da linha

 

Bem, este trabalho que eu tenho é um pouco demais

ficar sem dinheiro, Senhor, eu preciso pagar mais

vai acordar no Senhor de manhã, vou arrumar minhas malas

[…]

mina de carvão, mina de carvão, mina de carvão, mina de carvão

mina de carvão, mina de carvão, mina de carvão, mina de carvão

mina de carvão, mina de carvão, mina de carvão, mina de carvão

baixo na mina de carvão de Joe Brown

 

Sim, eu vou voltar a esse caminho barraco em que a ferrovia

Uh huh, que é onde eu acho que eu pertenço

Tem uma mulher doce, Senhor, e ela está lá esperando por mim

E é aí que eu vou fazer a minha casa feliz

Os desafios que o I Wor Kuen enfrentaram foram os mesmos que grupos que Jovens Senhores, Jovens Patriotas e Panteras Negras lidaram nos anos70: a burguesia estadunidense recorreu aos assassinatos e prisões de membros por via da polícia e serviços de inteligência e a desarticulação das massas por vias teóricas e reformismos.

Não à toa, entre os anos 50 e 60, explode teóricos atomizantes das lutas sociais sob o prisma do pós modernismo e teorias vagas como da ferradura e a “ambivalência de extremos entre nazismo e comunismo” de Hannah Arendt, a teoria da verdade de Popper… todas extremamente reacionárias, ganham muito apelo na mídia, nas universidades e claro na cultura pop. Aqui abro um ponto para lerem minha resenha do livro Balas de Washington de Vijay Prashad [da Índia] publicada na revista Tricontinental em sua primeira edição brasileira: https://www.thetricontinental.org/pt-pt/brasil/revista-estudos-do-sul-global-a-atualidade-do-imperialismo-e-a-luta-de-libertacao-dos-povos/ além do EP 6 do Prolecast, o podcast de História, cujo sexto ep nada mais é do que a versão áudio dessa resenha.

De toda forma, deixando a auto ajuda liberal-fascista, esses movimentos se organizavam em torno das mais revolucionárias teorias do século XX, e aí é o ponto no qual os marxismos dão nó científico nas demais concepções de mundo e métodos: a práxis revolucionária. Ao bom marxista, a coisa vai além da produção de textos montados em cópias de citações e esquemas narrativos e argumentativos, o marxismo independente de qual a vertente ou forma de organização exige a luta, exige o concreto e a pesquisa nada mais é que a sistematização teórica de mecanismos de luta e superação do capitalismo. E foi no “poder negro” das organizações radicais como Panteras Negras que o “poder amarelo” alinhou-se na luta de classes. Sim a luta anti racista é o elemento de que atraia os trabalhadores, mas dentro do I Wor Kuen percebiam que o que estava por trás do preconceito racial com asiáticos eram a relação com capitalistas desde as primeiras levas de trabalhadores chineses nos Estados Unidos [entre 1850 e 1880] até a relação do imperialismo contra China, Vietnã, Camboja, Índia e todo o pacote do Oriente Médio.

Para quem curte as questões de “ancestralidade”, muito mal retomadas no Brasil contemporâneo, o que clamava o IWK [I Wor Kuen] era justamente a retomada de valores sociais e culturais dos asiáticos-americanos que vinham adotando valores consumistas e individualistas da sociedade capitalista estadunidense, se comportando como brancos da pior estirpe. Ao propor a retomada às raízes o IWK não negava a importância de brancos trabalhadores, latinos e negros em nome de uma pretensa “pureza” ou mesmo uma retomada vaga e genérica, o elemento da classe era muito central, mas sim a negação da apatia e demais valores de uma sociedade na qual aparência e consumo auferem cidadania. Daí com tempo abraçam o maoísmo de forma mais intensa.

“[…] Quero estabelecer minha identidade étnica não apenas pelo bem de tais raízes, mas pelo valor inerente que esse plano de fundo merece.

O problema da autoidentidade dos asiáticos-americanos também demanda a remoção de estereótipos. O povo amarelo na América parece ser composto de cidadãos silenciosos. Ele é estereotipado como passivo, complacente e sem emoção. Infelizmente, essa descrição é bastante precisa, pois os asiáticos-americanos aceitaram esses estereótipos e estão se tornando fiéis a eles.”

A professora de matemática Amy Uyematsu ainda chama a atenção para um dado histórico importante nessa questão da apatia dos asiáticos-americanos em sua raiz histórica:

“Os primeiros asiáticos na América eram imigrantes chineses que começaram a se estabelecer em grande número na Costa Oeste entre 1850 e 1880. Eles foram submetidos a um racismo branco extremo, que variava desde a subordinação econômica, passando pela negação de direitos de naturalização, até de violência física. Durante o auge dos linchamentos anti-chineses da década de 1880, os brancos estavam “apedrejando chineses nas ruas, cortando seus queues”, destruindo suas lojas e lavanderias. O pior surto ocorreu em Rock Springs, Wyoming, em 1885, quando 28 residentes chineses foram assassinados. Talvez os asiáticos sobreviventes tenham aprendido a viver em silêncio […]”

Vale mencionar a presença de escravizados chineses e indianos trazidos ao Brasil e Cuba, nações que foram as últimas a abolir a escravidão, e no caso cubano há o agravo da responsabilidade histórica dos Estados Unidos, pois ao se tornar independente da Espanha a ilha emancipou escravizados, porém com intervenção política e golpe dos Estados Unidos o país caribenho retomou a prática. Tal adendo apenas objetiva demonstrar o caso concreto da relação histórica entre escravidão-capitalismo/imperialismo e o racismo.

Everyday People

 

Sometimes I’m right and I can be wrong

My own beliefs are in my song

The butcher, the banker, the drummer and then

Makes no difference what group I’m in

There is a blue one who can’t accept the green one

For living with a fat one trying to be a skinny one

And different strokes for different folks

 

Everyday People

Às vezes eu estou certo e eu posso estar errado

minhas próprias crenças são, na minha canção

O açougueiro, o banqueiro, o baterista e depois

Não faz diferença o grupo estou dentro

Há um azul que não pode aceitar o verde

Para viver com um gordo tentando ser um magro um

E cursos diferentes para pessoas diferentes

 

 

Voltando à segunda metade do século XX e a formação do I Wor Kuen, o grupo se trata de uma fusão importante entre movimentos revolucionários O Partido da Guarda Vermelha (de Chinatown, São Francisco) e o próprio I Wor Kuen, dando então origem em um movimento de alcance nacional e a maior organização revolucionária no movimento asiático dentro dos Estados Unidos.

Seu programa consistia em 12 pontos chaves para Educação, saúde, liberdade dos povos, fim dos racismos, igualdade de gênero e a busca pelo socialismo:

 

“Os imperialistas ocidentais tem invadido e colonizado países na Ásia nos últimos quinhentos anos. O imperialismo amerikano, concentrado na Ásia, está agora envolvido na guerra de agressão mais sádica e genocida que o mundo já viu*. Queremos um fim imediato para o imperialismo amerikano.” (2. Queremos autodeterminação para todos os asiáticos-amerikanos)

 

O ponto 3. Queremos a libertação de todos os povos do terceiro mundo e outros povos oprimidos, é um belo ponta pé na bunda de atomizantes e fragmentadores das lutas sociais em seu mundinho acadêmico pós moderno, encastelados em narrativas e comprometidos com a manutenção da desigualdade:

 

“Povos de cor, asiáticos, negros, marrons e vermelhos estão todos lutando pela libertação da opressão racista de Amerika. Milhões e milhões de pessoas brancas também estão se levantando para combater nosso opressor comum. Reconhecemos que, somente quando a opressão de todos os povos terminar, todos poderemos realmente ser livres” (3. Queremos a libertação de todos os povos do terceiro mundo e outros povos oprimidos)

 

E a revolução armada e a educação seriam os principais meios de luta propostos pelo IWK! Vale lembrar que nos anos 50 até 70 foi prática muito comum da polícia, movimentos supremacistas, fascistas e serviço secreto o assassinato de militantes de esquerda nos Estados Unidos, um dos pontos que fortalecia a organização da luta armada por lá. E no que tange à Educação uma proposta bastante crítica voltada à práxis revolucionária:

 

“Os imperialistas americanos tentaram justificar seu império mundial encobrindo os atos desumanos que eles perpetraram na Ásia e no resto do Terceiro Mundo. Eles também tentam nos fazer uma lavagem cerebral nas escolas com uma história racista que não fala da degradação, opressão e humilhação que os asiáticos e outros povos do Terceiro Mundo foram forçados a sofrer na Amerika. Queremos aprender sobre as lutas heroicas e inspiradoras que os asiáticos têm conduzido em todo o mundo, bem como na Amerika.” (6. Queremos uma Educação que exponha a verdadeira história do imperialismo ocidental na Ásia e ao redor do mundo; que nos ensine as dificuldades e lutas de nossos ancestrais nesta terra e que revele a verdadeira natureza exploratória da sociedade Amerikana).

 

O I Wor Kuen e seus Punhos Justos e Harmoniosos, são algumas das principais organizações sociais-juvenis estadunidenses que a História imperialista e traidora se compromete em apagar. Reconhecer diversidades não pode nos afastar da verdadeira radicalização que ir até a raiz e a raiz é a luta anti capitalista. Somente a luta de classes liberta, somente a consciência de classe caminha para verdadeira libertação do consciente. Não há espaço para dúvidas, para liberais carecas franceses, para temas modas na pesquisa acadêmica e variações neoliberais-fascistas empregadas na formação dos trabalhadores. Somente a ciência da práxis vai libertar pois é a ciência dos trabalhadores.

O motivo de ter parado escrever sobre uma das minhas organizações favoritas não foi à toa, óbvio. Desde o início da pandemia do covid-19 foram registrados nos Estados Unidos mais de 4mil ataques à asiáticos, com mortes inclusive. Uma senhora de 76 anos foi agredida por um homem branco, enquanto crianças e jovens de até 17 anos tem sido alvos constantes de ataques de supremacistas e brancos médios ensandecidos. Chineses, coreanos, vietnamitas e filipinos são respectivamente os alvos favoritos.

A História do vírus chinês de Trump chegou ao bolsonarismo doentio e perverso, respingando em várias comunidades aqui no Brasil [quem aqui trabalha com público e as massas sabe bem o que é ouvir sobre o “vírus chinês” e o “golpe chinês de extermínio do mundo livre” – inclusive mundo livre é uma expressão usada pela liberal Arendt para se referir às nações liberais capitalistas do ocidente]. A coisa tomou forma na arte e até mesmo grupos musicais famosos por oposição ao trumpismo acabaram abraçando a conspiração anti chinesa, como o caso do Brujeria. Fora isso o fator fetichização da mulher asiática também tem sido expressada cada vez mais constante e frequente nessa onda de ódio e mercadorização da mulher [que é praticamente impossível desassociar um do outro].

“Sabem contar otários? Eu acredito que o futuro é nosso! Se vocês sabem contar.” – Cyrus líder dos Riffs no filme de The Warriors, os selvagens da Noite (1979).

“O que existe hoje na Amerika é uma sociedade em que um homem, para sobreviver, deve explorar seu próximo. Queremos uma sociedade que trabalhe para a realização das sociedades humanas. Queremos moradia descente, saúdes, assistência à infância, empregos, saneamento e assistência à velhice. Queremos uma sociedade em que nenhum homem ou mulher morra por falta de comida, assistência médica ou moradia, onde cada um dê conforme suas capacidades e receba conforme suas necessidades” (12. Queremos uma sociedade SOCIALISTA).

The Warriors é um filme [vou deixar o livro de lado, pois tenho N problemas com a abordagem de Sol Yurick] que traz muito da energia e potência da juventude, perdida e fragmentada combatendo a si mesma, mas que com a diretriz devida pode se libertar da algema da apatia, miséria e bestialidade. Não por acaso a referência de muitas das gangues de The Warriors são justamente as organizações concretas que lutaram nos anos 60-70 nos Estados Unidos. Há uma máxima das lutas sociais que nunca pode ser perdida de vista: só a luta muda a vida.

Viva os Punhos Justos e Harmoniosos!

Músicas citadas:

1- Bon Jovi
2- Greatful Dead
3- Sly and the family Stone

Filme citado:

The Warriors, os Selvagens da Noite (1979) – versão dublada.

Referências bibliográficas:

Raça, Classe, Revolução: A luta pelo poder popular nos Estados Unidos. Ed. Autonomia Literária, 2020.

Marxists.org – https://www.marxists.org/history/erol/ncm-1a/iwk-history.htm

Revista Tricontinental – https://www.thetricontinental.org/pt-pt/brasil/revista-estudos-do-sul-global-a-atualidade-do-imperialismo-e-a-luta-de-libertacao-dos-povos/

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