5 eventos memoráveis no interior #1

Com problemas distintos dos da Capital, os shows no interior de SP encontram obstáculos gigantes em muitas cidades quanto à locais de apresentação e público mínimo. Apesar disso, a força de vontade de quem quer ver acontecer encontra formas de contornar as dificuldades e conseguem fazer rolês memoráveis que marcam histórias individuais e coletivas. Numa tarefa árdua de escolha, esses foram 5 dos meus shows mais inesquecíveis.


1- Ratos de Porão | Underground @ Sorocaba 2006

Existem alguns momentos definidores, que moldam muito do que você é ou que constituem sua personalidade. Em 2006 eu tive um desses momentos num show do Ratos de Porão em Sorocaba. Num antigo prédio ao lado do Terminal Santo Antônio, brotava o clube Underground. Hoje o galpão inteiro não está mais lá, demolido e transformado em alguma igreja, mas seus arredores ainda são ponto dos rolezinhos da juventude sorocabana.

Naquele hoje longínquo 2006, O Underground abriu cedo pra receber um punhado de bandas, hoje a maior parte inexistentes. O Mukeka di Rato havia a pouco lançado o clássico Acabar com Você, e era nítido a influência de muitas das bandas que tocavam naquele dia do emergente hardcore rápido e satírico dos capixabas.

De cabeça, só consigo lembrar da abertura da Espírito de Porco e da Krânio, uma banda punk de Indaiatuba ainda muito ativa na época. Mas o clique definidor veio do contexto geral de todo o evento. Era algo novo pra mim ver um contato tão próximo da banda com o público, os músicos vendendo merch na entrada, por exemplo, conversando direto com você.

No ano anterior o Ratos tinha lançado o Homem Inimigo do Homem, até hoje um dos meus discos preferidos deles, e o Juninho ainda começava sua caminhada com a banda. Até então, ainda cru de conhecimento de movimentos ou simbolismos, não entendia o significado maior de um copão de cerveja ser jogado no rosto do baixista, além do desaforo de terminar uma apresentação melado de bebida. A interação do Ratos no palco com o público era algo totalmente à parte pra mim. Inclusive foi a partir disso que se encerrou a noite, com um punk subindo no palco e um dos seguranças não entendendo o ato, simplesmente o puxando pra baixo no mata-leão.

Confusão entre o público, pedidos da banda pra deixar o cara em paz, e um borrifo na multidão. A nuvem de ardência não demorou muito pra chegar do outro lado do salão. Lembro do dia como aquele do Crucificados pelo Spray de Pimenta. Meu primeiro grande show no interior, organizado não por município ou empresa e sim por pessoas como eu ou você. Nem sabia mas estava sendo apresentado ao conceito do faça você mesmo.


2- Boom Boom Kid | Bar do Bilé @ Jundiaí 2009

Em 2009 Jundiaí recebeu um escalação incrível para algumas das apresentações mais divertidas que tive a chance de assistir. O local era o já lendário Bar do Bilé. O paraíso etílico do interior de SP fechou suas portas para o evento, frustrando muito do seu público cativo que não queria dar 15 mangos pra entrar, fazendo-os procurar o próximo boteco aberto.

Apesar que isso não impediu os mais fãs do Bilé de colarem e dançarem junto com o público em rodas punks. O Bar do Bilé é um boteco no seu sentido mais estrito, com seus ovos azuis conservados em vidros e tudo, e o dono é alguém extremamente vibrante. Às vezes eu olhava pra ele só pra tentar pegar algum aceno de desaprovação com as peripécias das bandas e público, e encontrava era uma pessoa amplamente satisfeita com a bagunça no seu espaço.

Tocaram no dia a Sguardo Realta, que lembro pouquíssimo além de ser de uma galera que toca em várias bandas até hoje, o punk 77 dançante da Sweet Suburbia, o queer-core afrontoso da Nerds Attack, a crueza na pegada de Los Angeles da B.U.S.H, hoje conhecida como Futuro, e com o Kalota ainda nos vocais, e a experiência alucinante que era pegar um show do Boom Boom Kid nessa época.

Todo ano os argentinos batiam cartão nas apresentações no Brasil, mas até aquele momento, fora a tour do Vans Zona Punk alguns anos antes, o interior não tinha tido muitas chances de ver a banda do Nekro ao vivo. E em nada deixou a desejar, com o público cantando junto, o vocalista surfando em cima do case da guitarra, passado de mão em mão pelo público, subindo nos PAs e tirando uma lâmpada fluorescente do teto pra brincar de espada jedi. Nessa hora, dou uma olhada por cima do ombro ver se capto um olhar negativo do dono do bar e falho novamente. Só encontro ele dançando atrás do balcão com um sorriso de orelha a orelha.


3- XI Verdurada Piracicaba | Casa do Hip Hop @ Piracicaba 2013

Difícil escolher o melhor evento dos que participei na casa do Hip Hop em Piracicaba. Dona de uma cena efevercente desde sempre, como o lendário show do Fugazi em meados dos anos 90, e a casa de bandas que cresceram absurdamente dentro do nosso contexto, da Children of Gaya a Shit Heroes, Piracicaba teve um momento muito particular pra mim principalmente entre o final da primeira década dos anos 2000 até há alguns atrás.

Foi nesse período que esse coletivo se reuniu e trouxe pra mais uma cidade do interior toda a ideia da Verdurada que nasceu na capital. O local era impossível de ser melhor, a Casa do Hip Hop até lembrava muito o galpão do Jabaquara. Aqui você podia chegar cedo e aproveitar pra andar de skate ou jogar bola na quadra nos fundos da Casa, que lembrava um ginásio.

O rango era sempre excepcional, tanto a comida que dava pra comprar durante o evento quanto a que era servida no final, uma das marcas registradas na Verdurada. O que torna essa edição espetacular pra mim é uma escalação de bandas simplesmente imbatível.

Confere comigo: Parte Cinza trazia letras emocionais e desesperadas, e um instrumental sujo na medida; a experimentação sonora do pós-rock curitibano Beyond Frequency; o X Amor X, despertando do seu caixão de power violence em uma curta temporada pra alegria da velha guarda; e a dobradinha Test e DER, que aproveitavam naquele momento que partilham do mesmo baterista para criar o projeto Otomanos, uma experiência musical absurda. A resposta do público era sempre a total entrega, o caos e a insanidade intencionalmente provocados que apenas eventos como esse conseguem reproduzir.

 


4- Beton | Pé de Macaco S/A @ São Carlos 2016

São Carlos é a minha casa há 8 anos. Olhando em retrospecto para uma vida, parece um curto período de tempo. Na real em 8 anos muita coisa pode acontecer e tudo pode mudar. Bandas e coletivos nasceram e morreram. O contexto underground já existente da cidade amadureceu, se expandiu pras bordas, transbordou e chegou a um fim que por enquanto ainda parece teimoso em se retirar.

Lá pelo meio de 2013 um grupo de amigos conectou suas fissuras pelo audiovisual e por bandas rápidas e barulhentas e disso surgiu a semente do que seria o coletivo Pé de Macaco. Com uma casa no centro da cidade, seu porão virou um estúdio e o quintal era o palco onde um incontável número de bandas tocou de fundo para um muro tosco. De gigs que reuniam meia dúzia de pessoas a uma casa que não comportava tanta gente durante um show do Cólera.

O show que reuniu a Beton da Eslováquia, Negative Side de Mogi Mirim e Neuroligical Disaster representa um ponto de virada para o coletivo. Foi a inauguração de um novo formato que trouxe o debate político para dentro da casa. Era um momento de respiro necessário entre as bandas em que as posições ideológicas eram explicitadas. Dentro de um país que caminhava a passos largos para o autoritarismo, era a forma de diálogo que desconstruia o punk e o metal apenas como diversão e retomava suas raízes de afronta ao sistema e ao status quo.

E as bandas que fizeram parte desse dia foram as mais representativas possíveis. A Neuroligical Disaster era uma das novas promessas da cidade,com um crossover temperado com rap. Negative Side trazia de Mogi um crust d-beat visceral, e era formado por pessoas que tal qual em Sanca movimentam a cena da sua cidade. E a Beton direto da Eslováquia foi uma das bandas mais avassaladoras que já passaram pelo quintalzinho. Se o muro ainda continuava de pé, suas estruturas naquele dia foram seriamente comprometidas.


5- This is Hardcore Sorocaba: Vicious Reality, Time And Distance e Strong Reaction | Asteroid @ Sorocaba 2018

Se algum dia num passado não muito distante tivessem me afirmado que um dos melhores gigs que eu veria na vida teria sido numa segunda-feira de final de janeiro, eu nunca teria acreditado. Parecia até uma manobra arriscada, mas com o olhar de quem vê de fora, Sorocaba pra mim é uma das cenas com as pessoas mais comprometidas de todas as cidades que já rodei.

E naquela segunda-feira preguiçosa de começo de ano, punks, skatistas, metaleiros e rockeiros em geral de plantão atenderam o chamado e lotaram um Asteroid tão surpreso quanto eu ao ver tantas pessoas. Três bandas ali eram o suficiente, uma trinca que se completava perfeitamente. Responsável por abrir o rolê, a Strong Reaction mostrou o seu hardcore voraz e sem firula e deu o tom do que ainda veríamos pela frente.

Antes de partir pras duas próximas bandas, precisamos entender que elas estavam excursionando juntas e tocando todos os dias, e em sua segunda semana de tour, era presumível sentir pelo menos um pouco do cansaço delas. Nada disso! Talvez fosse o calor humano de todas as gigs anteriores, talvez a comida dos locais que passaram, ou simplesmente o cheiro das meias dos amigos na van em que viajavam juntos, o que se via eram apresentações enérgicas e explosivas que marcam qualquer um.

A Time and Distance entrou no palco para não parar um segundo, seja na execução na medida de suas letras políticas e seu instrumental certeiro, seja no discurso entre uma música ou outra do Luis, o vocalista. E pra encerrar, o petardo vindo da Polônia chamado Vicious Reality. A influência clara das bandas dos anos 80, vista também em seus covers, de Project X a SSD, ajudavam a formar um quadro geral do que foi a gig e da sua importância naquele dia. Era como se um pedaço do CBGB tivesse se mudado para o endereço da Rua Aparecida, trazendo consigo o mesmo impacto de suas matinês históricas.

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Há os que digam que um público menor fazem apresentações se tornarem mais intimistas. Pode ser também que quando todo mundo se conhece, a química entre banda e público é elevada. Também tem quem fale que quando as bandas tocam em lugares diferentes dos seus, as apresentações se tornam mais intensas. Muitas podem ser as explicações porque algumas gigs no interior se tornam tão memoráveis.

Texto por: Marco Sartori