Inside A5 entrevista Time And Distance

Vegan Straight Edge Political, o Time And Distance acaba de lançar o “Wounds”, trocamos uma ideia sobre esse lançamento, tours e politica.

 

INSIDE A5: Vocês lançaram recentemente um novo EP, como foi o processo de criação do “Wounds”? Onde ele foi gravado? Saiu material físico desse mesmo?
Luis: Em princípio a idéia era fazer um full lenght, com umas 10 músicas, que ficasse pronto para a tour na Europa, mas todo mundo é bem ocupado e tem o lance de morarmos em lugares diferentes… então conseguimos produzir 7 sons, gravamos com o Diego Rocha no Estúdio Bay Area e mixamos com o Bil Zander, escolhemos 6 e editamos o EP com o auxílio dos selos Palpebrite e Youth 2 Youth (Polônia). No fim, ficamos muito satisfeitos com o resultado, tanto das músicas, quanto da arte, conteúdo… achamos que é o nosso melhor. Musicalmente fomos encontrando uma identidade própria, uma mistura de várias coisas que influenciam a gente, que fica bem mais clara nesse disco.

Rodrigo: Além das questões citadas pelo Luís, como morar longe e a falta de tempo, desde que entrei na banda parece parte natural do nosso modus operandi fazer as coisas quando a gente já percebe o tempo limitado e os prazos se aproximando, deveríamos ser mais disciplinados nesse sentido, mas confesso que há uma certa diversão nesse nosso processo também. Independente da corrida contra o tempo, contra os prazos e contra nós mesmos, esse EP com certeza pode ser considerado uma das melhores coisas que já fizemos enquanto banda.

A imagem pode conter: uma ou mais pessoasINSIDE A5: Quem fez a capa do Wounds e o que ela representa? Saiu um zine sobre as músicas, pode nos contar sobre?
Luis: Foi o Rodrigo Corrêa (Piá), nosso guitarrista. Ele tem se dedicado a produzir arte/colagens/zines (ver a página dele no instagram @sobinfluencia) e ninguém melhor do que ele pra tentar traduzir visualmente a idéia por trás desse disco.

O disco em si carrega uma idéia de anti colonialismo econômico e cultural, um questionamento sobre a perda da nossa autonomia e identidade enquanto latino americanos, pessoas do terceiro mundo… A gente vem pensando muito nisso desde a primeira tour na europa. Sobre como as pessoas do terceiro mundo são tratadas como inferiores em relação as pessoas dos países ricos. Mesmo no meio hardcore punk, onde isso é um pouco mais tênue, existe um racismo e uma hierarquia velada. Por exemplo: Se houver um show de uma banda dos EUA na Europa, mesmo que seja uma merda, todo mundo vai e compra tudo. Enquanto bandas como nós e o Remission (na nossa opinião uma das melhores bandas do mundo em termos musicais) fomos tesourados do Fluff Fest… E nós vamos continuar copiando o hardcore americano/europeu? Por quanto tempo? Por que? Vamos ficar alimentando essa postura de superioridade?

Na nossa opinião, a raiz desse problema é a mesma que afunda a América latina numa posição de completa dependência e submissão. Que inclusive impede pessoas dos países pobres de tentar uma vida melhor em um continente que foi construído e tem se mantido com as riquezas e mão de obra barata dos países do terceiro mundo. Pra poder explicar isso melhor, o zine que acompanha o EP tem 6 textos, escritos por autores diversos e por nós, além de artes que expressam esse sentimento idéia.

Rodrigo: Há algum tempo em que venho me debruçando sobre algumas experimentações estéticas e a colagem tem sido a principal linguagem nesse sentido. A arte que ilustra a capa do EP e do zine é de uma foto do período em que o Brasil estava sob o regime militar, uma foto bastante emblemática, onde a massa caminha sob um par de coturnos. E assim como o Luís disse acima, a ditadura nos países latino-americanos são justamente isso: especulação, violência, colonialismo, a manutenção da condição de terceiro mundo dos países do sul global, exatamente o que vivenciamos agora.

 

INSIDE A5: Quais livros|filmes|séries|podcasts|documentários vocês se inspiraram ou usaram como referência para compor as músicas do novo material?
Luis: Temos escutado muitos podcasts diferentes como o Foro de Teresina, Anti Cast e o Zona Autônoma Literária. Nesse disco, o livro que mais me influenciou foi o As Veias Abertas da América Latina do Eduardo Galeano. É um livro velho, mas acho que é uma crítica altamente necessárias para o momento político que os países Latino Americanos estão passando no momento.

Rodrigo: Estive alheio de boa parte do processo de composição do disco, mas tenho algumas indicações, principalmente de filmes e livros que dialogam com as músicas do EP: Colonialismo: Sobre a Violência (Concerning Violence, mais fácil de achar, documentário), Ditadura Militar: Combate nas trevas, Jacob Gorender, Fascismo: Como nasce e morre o fascismo, Clara Zetkin Imperialismo/guerras culturais/informacionais: Guerra Híbrida, Andrew Korybko. Podcasts: Lado B do Rio, Revolushow, Do rio que tudo arrasta, Rádio Jacobina…

 

INSIDE A5: Como foi a Tour Europa 2019 com o Vicious x Reality e Protein X? Quais as diferenças atualmente do cenário europeu para o brasileiro?
Luis: Pela primeira vez na vida, ficamos sem vontade de voltar pra casa. Nós já tínhamos feito a tour do Vicious Reality no Brasil e ficado amigos deles. Eles lançaram nosso disco, então tudo rodou muito bem. Tocamos shows muito bons em Berlin, Krakow, Viena e ainda tocamos em lugares que não tínhamos ido como Oslo, Copenhaguen, Malmo, Upsala, Trnava, Praga… Além dos shows, as viagens foram mais curtas e conseguimos aproveitar mais os lugares, pular das pedras num lago na Polonia, num rio a noite na Suécia, saltar do cais do porto em Oslo, fazer alguns pic nics, etc. Sobre as diferenças, eu acho que a globalização meio que pasteurizou o comportamento das pessoas, o visual, a música… O show de Malmö (Suécia) talvez tenha sido o show mais impressionante nesse sentido, bandas boas e de estilos muito diferentes, bastante gente diferente, uma identidade própria, uma clima de diversão e respeito.

Rodrigo: Foi incrível, tudo funcionou perfeitamente, conseguimos aproveitar as cidades, conversar com as pessoas, criar novos laços e estreitar os antigos. As diferenças são evidentes quando falamos de estrutura, na maioria dos países que passamos percebemos que as condições para se ter uma banda, gravar um disco, organizar um show, eram minimamente respaldadas por uma condição de bem-estar social e até incentivo do próprio governo. Tudo estava garantido, bons equipamentos, comida e até uma grana, mesmo com shows vazios em algumas cidades, tudo estava lá, pronto. Óbvio que existe muito esforço e gente se dedicando pra isso, mas os latinos sabem bem identificar quais são as diferenças no dia-a-dia (risos).

 

INSIDE A5: Vocês são uma banda que já fizeram muitas tours, qual a importância da estrada para a banda? O que podem aconselhar a outras bandas que querem cair na estrada?
Bruno: Acho que a estrada pra mim significa alcançar mais ouvidos, conhecer e tentar mudar impactar mais pessoas.

Luis: Além do que o Bruno falou, a gente se diverte muito na estrada. Tem um bom espírito para lidar com problemas (grana, pneu furado, roubo de van, equipamento que não funciona, falta de banho, dormir no chão, procurar comida, etc) e está sempre aberto pra tudo. Pra tocar em squat, em centro cultural, no quintal de uma casa… Pra se divertir com coisas estúpidas, pra aceitar o que vier. Eu acho que esse pode ser um conselho: dizer sim para o que se apresentar (seja tomar banho de piscina, ir numa festa ou assistir uma palestra).

Rodrigo: Acho que a importância da estrada pro Time and Distance é fazer que a banda simplesmente continue existindo. Haha Em todas as vezes foram lugares incríveis os que conhecemos, amizades que ultrapassaram os anos, experiências que nos permitiram aprofundar nossa percepção diante do que significa se mobilizar para acessar determinados espaços, pessoas, atividades, enfim… A estrada educa também.

 

INSIDE A5: A filosofia Straight Edge muda alguma coisa na sociedade? O que acham do Straight Edge atualmente? comparado ao seu início.
Luis: Straight Edge é um termo/postura bastante amplo, aplicado de formas muito diferentes. Eu, pessoalmente, não me identifico com o Straight Edge consumidor de discos que fica fazendo posts na internet sobre qual banda é melhor e qual banda é precária. Também não me identifico com o comedor de carne e leite, acho que é preguiçoso e opressor. Não me identifico com o espírito de gangue, de ser violento ou intimidador, acho uma merda machista e insegura. Acho uma estupidez absurda, nada a ver com o Straight Edge que eu conheci, que é algo questionador/contestador, um passo pra você se tornar mais consciente e envolvido com uma série de questões pessoais e políticas, algumas delas muito simples, como respeitar os limites das outras pessoas, especialmente mulheres, como não enganar as pessoas, enfim. Straight Edge é política, de extrema esquerda.

Rodrigo: Na sociedade, não sei. Talvez em algum momento da nossa vida seja importante perceber que se quisermos “mudar alguma coisa na sociedade”, o melhor a se fazer é extrapolar os limites da cena, seja ela punk, straight edge, crust, ou o que for. O straight edge? É punk. E que seja antifascista e anticapitalista.

 

INSIDE A5: O quanto a política está envolvida com a música para vocês? Qual a opinião de vocês sobre esse caos atual brasileiro?
Luis: Cada vez mais envolvida. Nas últimas gravações (Walls, Split e Wounds), todas as músicas tem um cunho político. Temos procurado escrever, falar e discutir sobre as coisas que tem nos afetado, principalmente no contexto de um governo autoritário, sustentado por uma base moral extremamente conservadora e uma orientação econômica neoliberal, com a sobreposição clara e declarada de interesses econômicos/mercadológicos sobre as necessidades das pessoas que trabalham/das pessoas pobres e do meio ambiente.

Rodrigo: Até pouco tempo atrás termos como “fascismo”, “opressor”, “reacionário” pertenciam a um léxico basicamente punk, poucos estilos musicais além do rap traziam as mesmas abordagens com tanta frequência e assertividade na denúncia. Hoje vemos que todas essas palavras pertencem a universos distintos e suscitam preocupação em pessoas vindas de lugares muito diferentes do lugar que viemos. Acho que na verdade é isso mesmo, tudo sempre foi política.

INSIDE A5: O que vocês desejam alcançar com a banda que ainda não foi possível? Quais os planos futuros? Novos materiais, tours, formações, etc.
Luis: Tem muitas coisas pra fazer. Gravar um full lenght, escrever mais textos. De concreto, neste momento, temos discutido a possibilidade de fazer uma tour nos eua, américa central ou na ásia. Também queremos assumir mais a organização de shows, movimentar as coisas da forma como acreditamos ser ideal.

 

INSIDE A5: Para finalizar:
Luis: Obrigado Inside A5. Gostaria de aproveitar o espaço para recomendar algumas bandas boas que tocamos junto na Europa, de diferentes estilos e propostas e que podem interessar a quem ler a entrevista: Protein e Bright Light (Polonia), Ill Fit (Suécia), Modern Love (Noruega), Make Peace (República Checa), Eat My Fear (Alemanha), Better Run (Áustria) e FAIM (banda do Estados Unidos, que estamos planejando uma possível tour no Brasil com eles).

 


 

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