Não há esperança, são Tempos de Morte

A decadência humana em seu ápice nos leva a degustar as mais mórbidas formas de morte. A realidade que se experimenta nesta era é a sobreposição do ódio ao amor.
Aliado a isso o apoio divino, em que tudo se justifica e se honra.
Não há esperança!! São Tempos de Morte! Desgraças, humilhações, crueldades e violações…
Banda Tempos de Morte foi formada em meados de Dezembro de 2014, o nome teve como referência obra “Les temps mort’ do desenhista francês “René Laloux.”
Com o intuito de reunir amigos e de fazer músicas com influências de post-punk e death rock.

 

INSIDE A5: A banda começou em 2014, o que mudou na vida de vocês depois desse início?
Zorel: Eu entrei no final de 2016, na verdade nesse período muita coisa estava mudando radicalmente na minha vida. Já algum tempo eu estava cansado do cenário anarcopunk por vários motivos e precisava de algo que tivesse uma abordagem mais introspectiva e menos panfletária, algo que refletisse meu estado de espírito numa perspectiva mais existencialista e sem os velhos e surrados jargões punx. Não que eu não acredite mais nos ideais libertários, mas muitos desses discursos dogmáticos messiânicos impraticáveis caiu por terra diante de uma crise existencial profunda decidi ver as coisas com mais ceticismo e realismo. Então a Tempos de Morte foi perfeito para exorcizar todos esses “demônios” e “deuses”.
Fejão: Pra mim em especial foi muito bom voltar a tocar baixo depois de 16 anos, trabalhar nessa linguagem diferente em relação a melodias e compassos e conforme fomos tocando com bandas desse gênero fui conhecendo novos amigos que convivo até hoje, então em resumo foi um crescimento tanto como meio de amizade como em experiência musical.
Alê: Eu nem sonhava em ter banda, um dia aceitei o convite dos meninos, que me prometeram que só ficaríamos em estúdio, seriam somente ensaiar e botar ideias nada de shows ou coisas do tipo, mas deu no que deu, não paramos mais, o que mudou muito minha vida, principalmente por ser tímida, cada show/som é uma batalha interna.
Bruno: Não estou na TDM desde seu início, mas acompanho a banda desde o primeiro show que fizeram, então certamente muitas coisas mudaram em mim devido a influência das sonoridades da banda em minhas referências musicais, assim como de suas temáticas e ideologias.

 

INSIDE A5: O Videoclipe de “Deathbird” é um grande trabalho, o que quiseram transmitir com esse vídeo? Como foi o processo de roteiro, filmagem e realização?
Zorel: Foi algo muito orgânico, tanto a banda quanto a produtora estavam em grande sintonia, a escolha do local, a proposta, tudo casou perfeitamente, penso que a ideia do vídeo quanto da música o que pretendemos transmitir é a desolação da humanidade por conta de uma doença, irônico isso diante do que estamos vivendo, não?
Fejão: Eu fiz o som e a Alê a Letra, ai o Zorel e o Tio Lu vieram com as camadas de batera e guitarra, ficou incrível, ai pensamos em fazer um Clip, a Chris já tinha oferecido ajuda a gente, ai ela e a Alê fizeram o roteiro, tudo pronto a Alê cuidou do figurino e a Simbiose Films (Vitor, Mayara, Yuri, Mike e Chris) fizeram em dois ou três dias de gravações se não me engano e o resultado foi espetacular uma obra.
Alê: Deathbird é especial para mim, porque eu estava assistindo Nosferatu- 1922 e dormi durante o filme, quando acordei eu tinha sonhado que estava no filme e tinha a letra toda na cabeça (as coisas meio que acontecem assim comigo no modo geral em minha criatividade), aí um dia a Chris Justino (Vermenoise/ Simbiose Films/ Coletivo Extensão) me ofereceu um presente que seria um vídeo para a Tempos e me perguntou para que som da banda eu gostaria de fazer o tal vídeo, eu contei a história desse som e ela pirou na ideia e assim foi, uma gravação deliciosa em dois dias e bastante trabalho para eles.

 

INSIDE A5: Quais são as referências e influências do EP “Depression” ? O que ele traz de diferente dos trabalhos anteriores?
Zorel: Eu escrevi a letra de “Depression” essencialmente por ter passado por um quadro profundo de depressão durante o ano de 2017, pessoalmente, essa música é muito importante pois retrata algo real e experimentado. Creio que não é apenas um aspecto individual, pois a depressão atinge muitas pessoas atualmente e é uma doença muito séria e bastante ignorada. Acredito que esse EP representa o ponto de encontro de nossa identidade lírica e musical.
Fejão: Ao meu ver ele indica uma fase madura da banda já encorpada com fortes influências de post punk oitentista, com pegadas próprias que todos trazem de experiência de outras bandas ou seja é você tentar fazer um som mas no final chegar num resultado próprio e único. O grande diferencial também é que teve a Mix e Master por Zaf do Escarlatina Obsessiva deu uma boa diferenciada em nosso trabalho.
Alê: É o resultado de um trabalho mais preocupado em seguir o nosso feeling mesmo, nossas influências e por isso saiu tão bonito, é natural e as músicas representam isso.

INSIDE A5: Vocês são uma das bandas referência do gênero atualmente em atividade no Brasil, o que acham desse cenário atual pós punk?
Zorel: Tive a oportunidade de conhecer muita gente interessante e que temos muita afinidade, construindo um cenário muito criativo e com mesclas contra culturais inteligentes e instigantes, creio que se não houver a contaminação de determinados “purismos aristocráticos” do cenário punk tradicional, assim como a criação e reverencia à deuses ultra radicais ditadores de regras ortodoxas, o futuro será post punk! rsrsrs.
Fejão: Em minha opinião, em relação ao Brasil é bem diversificado e receptivo, as bandas procuram fazer amizade e se fortalecer, mas assim como em outras cenas que conheço, punk, hardcore, crust, grind, em São Paulo, tende a ser toda segmentada em grupos isolados e intransponíveis, não sei o que acontece aqui que é raro haver consenso, fica mais fácil haver respeito de pessoas que participam mais de outras cenas do que da própria Cena, salvo alguns heróis que seguem lutando pra ter espaço e organizar eventos.
Alê: Eu não costumo pensar a música voltando me para o cenário Post Punk, não sei fazer algo para me enquadrar nisso ou naquilo, quando compomos na Tempos, fazemos pelo que sentimos, lógico que rola uma inspiração nas bandas que respeitamos mas isso é natural, a TDM passeia por vários cenários musicais e isso não tira nossa identidade, embora temos o cuidado de não compactuar com espaços, bandas, pessoas que estão ligadas ao fascismo ou qualquer outro tipo de preconceito ou intolerância. O resto acontece naturalmente e acabamos tocando em eventos lindos e de grande representatividade no país.
Bruno: A música é algo que independente de nossas vontades, hoje o acesso a materiais audiovisuais dos mais diversos lugares e segmentos se torna mais possível, ao meu ver faz com que haja cada vez mais referências diversificadas nas bandas devido a esse intercâmbio cultural. Aqui no Brasil não é diferente, é comum ver eventos que mesclam diversos estilos do Underground sem rotular nenhum público específico e por vezes com bandas post punk também. Com tudo isso nós acabamos tocando mais nos eventos Post Punk/Dark Wave/Death Rock, é a tendência da banda. Temos várias ótimas bandas post punk em atividade atualmente no país, coexistem mantendo suas semelhanças e diferenças, é algo natural.

 

INSIDE A5: Como é ser uma banda post punk do interior? Vocês sentem que existe uma diferença em comparação as bandas das capitais?
Zorel: Sim, sem dúvidas, nós somos melhores que elas, pobres diabos… rsrsrs. Falando sério, sem sarcasmos, creio que é apenas uma questão geográfica e quantitativa, o que não reflete necessariamente em qualidade. Quantos shows não ocorrem em São Paulo, por exemplo, que não tem mais que vinte pessoas presentes, não é? As capitais são apenas o epicentro do capitalismo e isso reflete em todas as esferas da vida, mais oportunidades, acesso inimagináveis, mas na era da informação virtual isso realmente é concreto? Claro, há lugares em que seria impensável formar uma banda como a nossa, com tantos elementos e pessoas afins, tanto que na atual formação moramos em três cidades diferentes; Sorocaba, Itapetininga e Angatuba. Mas essa é a dinâmica que temos e que está funcionando. Deste modo, seguimos e modéstia a parte sem dever nada à capital, até porque não vemos as bandas da capital como nossos concorrentes, pelo contrário estamos junto com elas e vice e versa e temos enorme respeito e influência delas.
Fejão: Claro que sim, tudo é mais difícil, nossos custos são maiores, nossas oportunidades menores, mas seguimos lutando e temos muitos amigos que nos ajudam na capital e no interior.
Alê: Nossa distância nos poda um pouco, porém não nos matou ainda (rs).
Bruno: Vejo que cada lugar/região acaba desenvolvendo uma cena própria com apoio mútuo entre organizadores e bandas/artistas, rolam eventos legais no interior em várias cidades diferentes. São Paulo não acho que seja tão longe, continuam nos chamando, sinal que nossa música é maior que essa distância. Seja para os show mais perto ou mais longe eu sempre gosto de viajar kk.

INSIDE A5: O que vocês indicam para quem está lendo essa entrevista? (banda|livro|filme|série|documentário)
Zorel: Eu estou tão imerso em estudos acadêmicos sobre saúde mental, racismo e branquitude que qualquer indicação dessas leituras seria imprudente por enquanto, até porque estou construindo um repertório sobre esses assuntos, mas sugiro que busquem o máximo de informação independente e alternativa que possam alcançar. Hoje com qualquer hashtag é possível ter acesso à um mundo de informações, se tratando de material anarquista e libertário há um mundo de informações.
Fejão: Eu gosto atualmente muito da banda Nox Novacula de Seatle, documentário B Movie Lust & Sound sobre a cena de Berlin. Livro infelizmente não estou lendo muito , na verdade to terminando um livro em língua inglesa sobre Simon Bolivar “The Liberator”.
Alê: Eu ouço diversas bandas atualmente em vários cenários, acabei de terminar um curso de música e cultura popular brasileira, então isso vai longe (rs), não consigo indicar apenas uma banda dentre tantas por todo Brasil/mundo. Um livro que estou terminando e indico é o da grande escritora brasileira Maria Carolina de Jesus – “Quarto de Despejo”. E a única serie que gosto ou que consegui assistir é Dark – série alemã, procurem é bem interessante. Filmes, eu amo o atual cenário nacional vindo do Nordeste –Pernambuco/ Ceará, vale a pena ver.
Bruno: Tenho um apresso em assistir e apoiar culturas locais, de pessoas reais do nosso cotidiano, coisas simples como uma apresentação teatral despretensiosa de uma turma escolar podem nos inspirar e nos fazer pensar de muitas formas, convivo com isso diariamente. Uma boa indicação é ver o que está acontecendo em termos de movimento cultural em sua região, e de que forma você pode (se quiser) estar inseridx nisso. Gosto muito do movimento Vanguarda Paulistana, e de como influenciou o experimentalismo no post punk das bandas oitentistas nacionais. Vale compartilhar umas bandas nacionais que mudaram (ou reinventaram) o que temos de alguma forma que curto como Clube da Esquina, Akira S & As Garotas Que Erraram, Vzyadoq Moe…
Citei bandas daqui então uns livros de fora que indico, autores como Neil Gaiman, George Orwell, Evgueny Zamiatin, Aldous Huxley, Edgar Allan Poe, Douglas Adams, Isaac Asimov, Richard Dawkins, Sartre, sei lá, mudam um tanto a maneira como vemos a vida, a morte e o que se passa entre esses dois instantes. Mas tudo isso é bastante pessoal a cada um, tanto no Brasil quanto fora é possível achar muita coisa sobre quase tudo.
Filme: 2001, A Space Odissey. Documentário A Carne É Fraca.

 

INSIDE A5: Quais são as próximas metas a alcançar com a banda? O que podemos esperar pro próximo semestre?
Zorel: Dominar o mundo e espalhar a escuridão com nossa música obscura, rsrsrs. Temos em mente gravar um disco, fazer alguma turnê, se apresentar o quanto possível for e onde nos convidarem. Atenção, precisamos de dinheiro para gasolina, pedágios e se possível comida (Vegan, sempre) e bebidas. Sua satisfação e diversão é garantida!
Fejão: Nossa Meta é conseguir principalmente gravar um material para um Full Album um LP, Mas sabemos que sem apoio de selos e outros interessados será uma missão bem difícil. Nós estamos muito ansiosos também para o WoodGothic 2020, sabe o que disse sobre heróis, então o Zaf e Carol do Escarlatina fazem esse evento de forma heroica em São Thomé das Letras, e é um dos maiores da América Latina.
Alê: Estamos compondo para um novo play que ainda não sabemos como sairá.
Bruno: Quando entrei na banda as composições fluíram de forma muito natural, já eramos amigxs e foi como se as músicas já estivessem lá esperando para serem tocadas, propus nos dedicarmos a um full álbum e a banda se engajou nisso, acredito (espero rs) que uma turnê seja consequência desse trabalho, também pensamos na produção de algo como um vídeo clipe num futuro breve (ou não agora).

 

INSIDE A5: Considerações finais …
Zorel: Em nome da Tempos de Morte, agradeço pela entrevista e oportunidade de estarmos presentes em seu fanzine, mantenha esse veículo de informação sempre ativo e vida longa ao Inside A5! Aos leitores/as, muito obrigado pelo interesse e esperamos nos encontrar pelo mundo o mais breve possível! Stay dark, Stay resist!
Fejão: Mesmo que seja difícil não desista de seus sonhos, a vida passa muito rápido, aproveite.
Alê: Fazemos som por amor e compomos aquilo que sentimos e isso passa pelo tempo porque é sincero, ainda podemos gritar e expor o que pensamos.
Bruno: Se a vida é curta demais para ser pequena, a Morte é então real demais para ser ignorada.

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