Fotos por: Marcela Guimarães

Inside A5 entrevista Sânias

“Sânias nasce da fusão de duas amigas em busca do autoconhecimento por meio de melodias e riffs carregados. Formada em fevereiro de 2019 e composta por Roberta Barcelli (bateria) e Stefany Riot (guitarra/voz), o duo sorocabano segue nas linhas instrumentais do punk-stoner-doom, assim, flertando com ambas vertentes”.

 

INSIDE A5: Como foi a iniciativa de começar a banda? Como a vida de vocês mudou desde o início desse projeto?
Barcelli: Conheci a Sté através do Girls Rock Camp Brasil, projeto de empoderamento feminino através da música do qual ambas participamos como voluntárias. Para mim (Barcelli) falar do Camp e do que ele propicia para as mulheres participantes é primordial para falar sobre a iniciativa em começar a banda. Sou baterista desde os 15 anos de idade mas só depois vivenciar as experiências propostas pelo projeto que consegui me ver como baterista e me enxergar em um projeto musical. A Sté me convidou para ouvir os materiais que ela já estava criando e meio que de cara já rolou uma afinidade muito grande entre nós, tanto musical quanto de relação pessoal mesmo e aí foi só deixar a coisa rolar… Estamos nesse projeto e as mudanças têm sido fluidas e constantes, a maior delas para mim tem relações bem diretas com a timidez e insegurança em me expor em público.

Stefany: Era final do ano passado, quando me veio a imensa vontade de colocar os projetos musicais pra funcionar, foi quando pensei na possibilidade de iniciar um duo e a primeira pessoa que eu pensei foi na Roberta por sacar que ambas tinhamos afinidade com o tipo de som que fazemos. Então só joguei a ideia, ela topou, marcamos um estúdio, apresentei uns sons gravados de forma caseira e pronto, rolou muita afinidade mesmo.
A vida mudou no sentido de rotina, começamos os ensaios pra valer no final de janeiro pra fevereiro, dois dias da semana se tornaram reservados pra ensaiar nossas músicas, ainda mais depois de ser anunciada a turnê do Anti-Corpos em março, que, possivelmente faríamos fazer parte da abertura ao lado de Vermenoise – como aconteceu -, então nos empenhamos em fechar cinco músicas em menos de dois meses, e foi, nosso primeiro show foi abrindo pra uma das bandas que a gente mais admira nessa vida. Foi bem emocionante, rolê de mina em peso. Depois rolou mais cinco shows incluindo VI Mostra de Arte das Mulheres de Sorocaba, Focinhada III, Sifodasi fest no Sound, XVII Feira Beco do Inferno, fechando com Dyke Fest #4.

INSIDE A5: O que vocês gostam musicalmente? Quais bandas são referências de vocês?
Stefany: Da adolescência pra cá ouvi bastante punk, post-punk, grunge, metal, stoner, tudo que pudesse me influenciar a tocar guitarra, as favoritas são: Hole, Bikini Kill, Wipers, The Kills, Distillers, Savages, PJ Harvey, Placebo, Smashing Pumpkins, Deap Vally, Drenge, Courtney Barnett, Bully, Turnstile, Christian Death, Oathbreaker, Gojira, Windhand, YOB, Monolord, além da cena nacional independente que me influenciou muito, como: The Biggs, In Venus, Sky Down, Vermenoise, Anti-Corpos, As Mercenárias, Weedra, Mary Una Chica Band, Gangue Morcego, Harmônicos do Universo, Fones, Wry, Justine Never Knew The Rules, Water Rats, Sara Não Tem Nome, Miêta, e por aí vai…

Barcelli: Gosto muito de música independente e ai vou citar as que curto ouvir assim num looping eterno: Bia Ferreira, Doralyce, Tuyo, Mulamba, Paula Cavalciuk, Ananda Jacques, Tássia Reis, Drik Barbosa, Jorja Smith, Nina Simone… para referenciar no processo de criação nos ensaios eu ouço bastante The Biggs, Sky Down, Miêta, Nervosa, SixKicks, Vermenoise, Mar de Lobos, Bloody Mary Una Chica Band, Weedra (tem muitas outras mas atualmente tenho me referenciado nessas)

Fotos por: Mayara Vieira

Fotos por: Mayara Vieira, XVII Feira Beco do Inferno 2019

INSIDE A5: As letras tratam de quais temas? Como funciona o processo de composição? (tanto a letra, quanto instrumental)
Stefany: comecei o processo de criação baseado no que eu vivi no último ano, quis traduzir algumas desilusões em forma de letra e melodia, dessa fase saíram as músicas “Infection”, “Stone Cold”, “Empty” e “Burning Fever”. O instrumental meio que vem naturalmente quando fico brisando e tocando no quarto, às vezes sai letra primeiro e às vezes a melodia depois a letra, vai variando.
Atualmente tenho me inspirado bastante em temas como o universo, a alquimia e o ocultismo para escrever, saiu até um som que tocamos no último show deste sábado 31/08 no Dyke Fest em SP, chama “The Witch Is Coming” e fala sobre uma “bruxa alquimista e mãe do tempo que reflete o Sol em seus olhos”, rs. Essa foi uma brisa escrever e compor a melodia, acho que é o som mais longo e complexo que criamos até agora, ficou bem sensível e forte ao mesmo tempo. Esperamos lançar todas essas músicas no primeiro semestre de 2020, que é quando pretendemos produzir nosso EP.

 

INSIDE A5: Que livros|filmes|séries|podcasts|documentários vocês indicam para quem está lendo essa entrevista?
Stefany: livro: O Tesouro Dos Alquimistas de Jacques Sadoul; filmes: The VVitch, Suspiria (2018), Häxan – A Feitiçaria Através dos Tempos; Documentários: The Punk Singer, She’s Beautiful When She’s Angry, Cosmos: A Spacetime Odyssey.

Barcelli: Livro: Quem Tem Medo do Feminismo Negro de Djamila Ribeiro, Série: Olhos que condenam, Podcast: Tudo que tem de Monique Evelle, Documentários: Estamira, Menino 23.

 

INSIDE A5: O que acham da cena atual política? Vocês acreditam que haja uma solução próxima? Isso impacta de alguma forma na música?
Barcelli: Eu procuro me referenciar em lideranças políticas que representam as minorias efetivamente e que elaboram e executam projetos políticos que busquem problematizar os desdobramentos desse projeto colonialista. As lideranças políticas que dialogam de forma coerente para enfrentar as questões e resoluções das violências estruturais. Eu procuro pesquisar e acompanhar projetos da Deputada Eleita Joenia Wapichana e Erica Malunguinho por exemplo, para aprender sobre o fazer político dentro da perspectiva partidária. Impacta profundamente também na música porque a arte é fazer político, não pode e não deve ser neutra. E quando você toma lado como se deve tomar você acaba sofrendo com as repressões.

Stefany: Parece que tudo tem caminhado para o pior, apesar de que a situação caótica já era esperada desde a última eleição, né. Tá sendo bem difícil acompanhar tudo, confesso passar dias fora das notícias pra poupar um pouco da saúde mental, pq às vezes é muita informação pra absorver do todo. Eu acredito nas nossas microbolhas de conscientização pra ganhar energia pra sair pra fora e tentar dialogar diante de tamanha ignorância e burrice. Estamos tentando.
Ainda não coloco os temas políticos na pauta principal das letras, mas não descarto a ideia. Acho que nossa presença como duas mulheres ocupando um palco e expressando suas ideias com instrumentos e microfones seja nosso próprio ato político.

Fotos por: Mayara Vieira, XVII Feira Beco do Inferno 2019

INSIDE A5: Vocês participam de outros projetos culturais fora da banda? (como: artes, produções, etc). Quais?
Barcelli: Eu procuro participar sempre Girls Rock Camp Brasil e Ladies Rock Camp Brasil, atualmente colaboro com a PLéB, um projeto voltado para discussões relacionadas a pessoas pan lésbicas e bissexuais e projetos com oficina de bateria para mulheres, chama nóis…

Stefany: Faço parte do voluntariado do Girls Rock Camp, acampamento de empoderamento musical para meninas de 7 a 17 anos, e do Ladies Rock Camp onde as atividades são direcionadas a mulheres de 21 anos pra cima. Nos camps sou instrutora de guitarra, baixo e auxílio na oficina de stencil em camisetas, também já me arrisquei como produtora de banda.

 

INSIDE A5: O que vocês acham da cena musical sorocabana? E do interior? O que vocês destacam de coisas boas que acontecem na cidade?
Stefany: Acho muito rica na questão de diversidade musical, não é de agora que a galera se movimenta por aqui e faz acontecer uns rolês incríveis envolvendo as bandas locais. Desde INI, Wry, Biggs à Justine Never Knew The Rules, Fones, Her, A Transgressão, e as mais atuais CAP, Ventilas, Ana Paia, Vermenoise, Make It Stop, Wolf Among Us, gosto muito!
Em Itapetininga também vejo uma movimentação muito massa na cena, tenho acompanhado as bandas Tempos de Morte e Casa de Sal, sonzera chique demais.

 

INSIDE A5: O que planejam para esse semestre? Quais são os maiores obstáculos a se alcançar?
Stefany: Queremos tirar esses últimos meses do ano pra planejar nosso primeiro EP que pretendemos produzir no primeiro semestre de 2020. A ideia é até focar mais nos ensaios do que nos shows durante esse período de planejamento. Acho que o maior obstáculo sempre vai ser arranjar tempo e dinheiro pra seguir com os projetos rs.

Fotos por: Chris Justtino, Focinhada III, PUPA Eventos - Sorocaba SP 2019

INSIDE A5: Considerações finais:
Stefany: Acho que a Sânias não teria vindo numa melhor hora, chegou num momento de necessidade de colocar em prática as vivências em forma de música, pelo menos pra mim, e tenho certeza que pra Barcelli também se encaixou nessa vontade. Foram 6 meses, 6 músicas e 6 shows até aqui e não teríamos conseguido concretizar tudo sem o apoio das mulheres fortes e talentosíssimas que nos cercam, que nos ajudou e influenciou no espaço de ensaio, composição, equipamentos e nas produções dos shows.
Que esse projeto seja cada vez mais simbólico pra nós e atingível pra quem nos ouve e assiste. No próximo ano vem gravação e lançamento de uns sons na forma de EP, aí sim vou sentir como todo esse rolê criou forma depois de tantas experiências fodas até aqui.
Agradecemos o pessoal da Inside A5 pelo convite da entrevista!


Fotos por: Marcela Guimarães, Dyke Fest #4, Associação Cultural Cecilia - SP 2019
Links importantes sobre a banda:

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Conheça o trabalho do Sânias:

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