Restos de aborto Tatuí

Punk Rock Pé Vermeio do Restos de Aborto!

A Restos de Aborto nasceu em 2008, com um único objetivo, fazer punk rock em português, Ricardo e Anderson colavam nos eventos que rolavam na cidade e a maioria das bandas tocava hard rock e heavy metal e a banda nasceu na contra mão disso, um som mais curto, rápido com mensagens sobre política e sociedade.

 

INSIDE A5: Como foi o início da banda? O que vocês enxergam de principais mudanças do começo para atualmente?
Ricardo Huss: Definitivamente no início a gente não sabia o que tava fazendo, apenas estava fazendo, era muito “Faça Você Mesmo” influenciado por bandas como Cólera, Garotos Podres e 88não, além das regionais como Peligro, Psicultura, RecusArmada, queríamos fazer um som, falar sobre nossas angústias e isso nos movia, fizemos muitos shows assim e começamos a produzir eventos também pra ter espaço pra tocar, mas o som era bastante tosco, nada elaborado e éramos muito limitados nisso também, a medida que o tempo foi passando, fomos amadurecendo musicalmente e aprendendo coisas novas, deixando mais complexos os sons e mais profundas as mensagens. As entradas de novos integrantes como Neto, Bone e Rodrigo deram um diferencial também, por que veio muito influência do metal no som e isso acabou criando um crossover e deixando os sons mais antigos pesados e os novos mais velozes. Acredito que também estamos mais conscientes em nosso discursos musicais, tudo que falamos é realmente o que vivemos, não é mais uma rebeldia sem foco como talvez tivesse sido lá no início e isso é excelente.

 

INSIDE A5: Vocês trocaram algumas vezes de formação na banda, como isso impacta nos sons e nas ideias? Como está a formação atual?
Ricardo Huss: Então, mantivemos por 4 ou 5 anos a mesma formação, mas banda underground é complicado, a medida que o tempo passa, as pessoas vão tendo novos anseios e o tempo vai ficando mais curto, concomitante a entrada da maioria banda em faculdade ou emprego mais estável acabou distanciando e isso gerou as trocas de formações, o impacto é muito alto no som, principalmente quando a troca se dá pelo baterista, que foi o que mais passaram pela banda, ao todo foram 8, ainda tendo o Rodrigo, que não entrou pra banda mais já fez uns 10 shows emprestado conosco, em alguns períodos, sempre temos que reaprender os sons, as vezes é bem benéfico, porque muda um pouco a cara, mas é um processo árduo e de muita paciência, quanto a parte das ideias, sempre tomamos muito cuidado com quem entra pra Restos, deixamos muito claro que somos uma banda de esquerda e que existem preceitos a serem respeitados na banda e na cena a qual pertencemos, pois é o mínimo que um integrante precisa saber e fazer para estar dentro de uma organização que é parte de uma resistência cultural. Inclusive já recusamos a entrada de pessoas por exatamente esse fator ideológico.

Cara, a formação atual está bem bacana, estamos com guitarra, baixo e voz desde maio e em outubro entrou um novo baterista, o Rodrigo (Dee, I Am – Presidente Judas e Motivo Fútil), ele caiu como uma luva, conhece bem o cenário independente e toca bem pra caramba, já entrou fazendo shows, foi bem punk a rotina de ensaios, mas tá bem bacana! Atualmente somos eu (Huss) no vocal, Neto no baixo, Yuri Bone na guitarra e Rodrigo na bateria.

 

INSIDE A5: Como é ter uma banda por tantos anos no underground do interior? Quais as maiores dificuldades e benefícios de pertencer a esse cenário?
Ricardo Huss: Cara, é uma coisa louca, por que já estamos caminhando para 12 anos de existência, tem gente que curte nosso som hoje que tinha 2 ou 3 anos quando a banda nasceu, então meio que atravessamos uma geração já, quem ouvia lá no inicio, às vezes nem em rolê vai mais e o público está sempre se renovando, esses dias tava até comentando, que daqui três anos, haverão pessoas curtindo a gente que nem tinha nascido quando fizemos o primeiro shows, é uma espécie de sucesso, não aquele da mídia, mas de perdurar e passar a mensagem pra tantas pessoas por tanto tempo.

Então né, haha, o underground tem a parte ruim também, é muito complicado conseguir espaço pra tocar, espaços de qualidade que respeitem as bandas e artistas em geração, o interior é dominado pelo entretenimento de bandas cover, então acaba sendo uma competição desonesta, e também as questões de gravar/divulgar, hoje em dia produzir um CD é muito caro, e nem sempre se tem essa grana para isso, então os trabalhos levam alguns anos pra ficar pronto, sem incentivos, a internet ajuda muito mas ainda assim acaba sendo um privilégio pra poucos registrar o som e ter um material de qualidade. E acredito que o maior benefício são os amigos e a rede que isso forma, cara, o underground me fez conhecer lugares e pessoas do mundo todo, conversar com gente de fora, saber vivências, ter amigos em várias parte do Brasil e do planeta, sério, isso dinheiro nenhum paga, de forma alguma, só estando dentro dele pra saber mesmo como isso é gratificante.

 

INSIDE A5: Conte um pouco sobre a discografia de vocês
Ricardo Huss: Nós temos lançado oficialmente 4 trabalhos de estúdio e mais umas 6 coletâneas, o primeiro foi de 2011, intitulado “Ruas do Suburbio”, foi um EP gravado em Tatuí mesmo, no estúdio 8, com 3 músicas e esse foi nossa primeira experiência em um estúdio mesmo, tanto de ensaio, quando de gravação, não conhecíamos nada, não sabíamos o que era metrônomo, foi bem engraçado, mas o resultado foi muito legal, por que a galera comprou a ideia, era um banda que colava na praça aos fins de semana beber junto e tava lançando um CD, tudo feito por nós, desde a duplicação de CDs até as confecções de capas na mão, numeradas uma a uma. Vendemos mais de 500 cópias e nos proporcionou tocar em várias cidades.

Depois gravamos em 2013, o “Cidade Dormitório”, ele foi gravado em Itapetininga no Napô Place, com o Tio Lu e o Fejão, esse já trazia umas ideias mais elaboradas e uma tentativa de som mais complexo, foi uma gravação ao vivo e a experiência foi bacana, por ficou mais visceral, mais próximo do que era o real mesmo, sem muitas firulas. Em 2015, entramos mais uma vez em estúdio para gravar o que seria o terceiro EP, gravamos 3 sons, a meta eram 5, mas por diversos motivos acabamos não conseguindo dar sequência no trabalho e lançamos eles como singles, que são o Devolutas, Infantis Perdidos e Terceira Guerra, este inclusive que entrou pra coletânea de comemoração aos 30 anos do SUB ao lado de uma pá de banda importante do Brasil, para nós foi uma honra, só 3 bandas do interior participaram, foi algo surreal. Agora em 2019 agora, lançamos o EP “Infantis” que foi um processo diferente, vou falar um pouco mais dele logo em seguida.
Nós temos muitas coletâneas espalhadas pelo Brasil, mas as mais tocantes mesmo foi a do 30 anos de SUB e o Rock São Paulo Vol5 da extinta AntiReckordz do Nenê Altro, foram bem profissionais.

 

INSIDE A5: Vocês lançaram recentemente o EP “Infantis”, como foi o processo de composição e gravação dele?
Ricardo Huss: Sim, sim, lançamos recentemente inclusive, no comecinho de dezembro, então, quando houve uma reformulação da banda, em maio, devido a perda do Jimmy, decidimos que pegamos dois sons já existentes e um que estava semi pronto e torná-los prontos para uma gravação, então pegamos “Infantis Perdidos” e “Entre as Ruas” e mudamos tudo, o som ficou mais pesado, com influências do Crossover e um pouco mais agressivo, baseado em bandas do underground mesmo e o terceiro som foi a Ícaro, que é uma música que havia sido escrita pelo Jimmy e estavamos trabalhando nela pra finalizar, a formação que assumiu então, finalizou ela, com muito peso e uma mensagem direta sobre os abuso da PM. Fizemos a captação do baixo e bateria no programa Lado B, e as guitarras e vozes com o Fernando Roma, produtor musical do Lado em dias separados, foram 5 dias no total para captação, foi bem divertido, por que foi a primeira experiência de gravação do Bone, o guitarrista, e eu Huss, tive muito apoio nas vozes do Neto, que era vocal da The Wasted, então o som ficou mais crítico e consequentemente mais redondo e melhor elaborado, ficamos muito felizes com o resultado. A capa foi feita pelo Bone, vou deixar pra ele falar aqui ahaha

Bone: Na capa, eu tentei seguir a mesma linha de idéias das imagens do nosso lyric vídeo (que foi produzido primeiro, e que no caso também foram todas feitas por mim).
A escolha da imagem das crianças, foi devido as três músicas abordarem temáticas infantis, que expressam uma relação das crianças para com a realidade de violência, abuso e convivência social. Quis também deixar bem explícito o sentimento de tristeza, referente a marginalização expressa na face das crianças do subúrbio, que são subjugadas por diversas pessoas no seu dia a dia.
A divulgação, estamos trabalhando com os sons no Youtube a prioridade, mas vamos subir eles nas principais plataformas também, Spotify, Deezer e tem um Lyric video da “Ícaro” pronta, que sairá muito em breve. A início pretendemos trabalhar esse EP apenas pela internet mesmo, apesar da música Icaro ter entrado para uma coletânea que sai em janeiro de forma física.


INSIDE A5: O momento atual político impacta de qual forma no cenário musical underground que vivemos? O que fazer para ajudar de alguma forma?
Ricardo Huss: Desde o início do ano em que temos um novo governo fascista temos percebido a recorrente censura a artistas e não só do underground, mas também do mainstream, esses dias vi que o Arnaldo Antunes não pode mostrar seu clipe e o filme do Marighella é super boicotado nas mídias, mas cara, no underground acaba sendo um pouco pior, por que já sofremos preconceito desde sempre pelo estilo de som e de viver, agora piorou, a polícia tá fechando evento sem mais nem menos, teve um caso na Paulista, teve em Goiás, teve em Campinas, em Brasília o vocalista de uma banda foi preso por falar da polícia, cara isso é terrível, mas ao mesmo tempo acaba sempre sendo combustível para continuar sendo resistência, produzindo sons mais críticos e demarcar de fato nosso espaço de resistência. Cara, acho que a melhor forma é continuar produzindo coisa e protegendo nossos iguais, é tempo de unir, tempo de dar espaço para quem precisa ter voz, não só no rock, mas nas artes, fotos, tudo que possa ser resistência de algum tipo, acho que é a forma de nos fortalecermos e continuarmos sem enlouquecer.

 

INSIDE A5: Como uma cidade como Tatuí influencia no som de vocês? Vocês também produzem eventos na cidade, como tem sido essa experiência?
Ricardo Huss: Tatuí tem músico pra caramba, haha, de várias partes do mundo inclusive, temos o conservatório né? Mas, apesar de ele estar fisicamente aqui, devolve muito pouco pra cidade, a periferia não frequenta o espaço e consequentemente nos que somos da periferia também não ou muito pouco, estar em Tatuí talvez seja mais benéfico para quem está de fora, do que para quem está aqui. E justamente por isso começamos produzir eventos, inicialmente de forma bem precária e pontual, depois fundamos um coletivo e partimos para algo bem mais elaborado, com consciência do que se está fazendo e produzindo e que vai muito além de dar espaço para artistas, é sobre ter acesso a cultura, diferente do que mídia vende, ter sua opção de escolha do que quer ver, falar e escutar, acho que isso é o maior motivo para produzir evento, nesses anos conseguimos ter bandas de mais 15 países diferentes e 50 cidades, em 40 eventos produzidos, de certa forma colocamos Tatuí num cenário que antes era expectador, e não falo só por nós, somos apenas uma parte, tem muita gente boa produzindo evento de vários estilos, do rap ao reggae, passando pelo eletro, além de literatura e arte, Tatuí tá bem servido, mas fora das paredes institucionalizadas.

 

INSIDE A5: O que vocês indicam para quem está lendo essa entrevista? (livros, filmes, bandas, documentários, etc)
Ricardo Huss: Cara, eu indico que todos assistam Bacurau, filmasso brasileiro, de extrema importância sobre o que estamos vivendo. Leiam “1984”, “Carandiru”, “Pedagogia do Oprimido”, “Veias Abertas da América Latina”, busquem conhecimentos alternativos, zines, blogs, vlogs e podcasts de pessoas que fazem parte da cena e podem dar uma visão diferente do que a mídia capitalista passa. Essas são todas obras que norteiam nossas letras e nosso pensamento.

Rodrigo: Indico o “Admirável Mundo Novo”, “Mini Manual do Guerrilheiro Urbano” e o filme “O que é isso, Companheiro?

Bone: Indico a banda Surra, que vem sendo um grande norte para quem curte idéias revolucionárias, ativistas, de revolta e também o livro Fahrenheit 451 que é uma distopia bem interessante.

 

INSIDE A5: Quais são os planos para ser alcançados nos próximos semestres?
Ricardo Huss: A gente tem muita mudança boa para acontecer, logo em janeiro haverá uma bastante drástica que ainda não podemos revelar mas haverá disco novo muito em breve e pretendemos tocar em outros estados, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná, que ainda não tocamos, a meta é essa produzir e cair na estrada metendo a cara e passar a mensagem sempre. Ainda irão ouvir falar muito de nós.

INSIDE A5: Para finalizar …
Ricardo Huss: Gostaríamos de agradecer o espaço dado aqui pelo pessoal do Inside A5, fico bem feliz, tocamos no primeiro evento produzido lá em 2014, na Casa do Baixista e pedir às pessoas que se unam e fortaleçam sempre quem fortalece a cena!

 

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