Entrevista: Radical Karma fala sobre o EP ‘Sintomas’, melodias e referênciasPor: Felipe Fogaça

O Radical Karma tem em sua formação membros com larga experiência sobretudo no cenário punk rock/hardcore, mas que nele se aprofundam em outro universo, ainda que as raízes estejam fincadas, inevitavelmente, no underground. Batemos um papo a respeito da banda, lançamento do novo EP “Sintomas”, referências, influências, pandemia e muito mais.

 

INSIDE A5: Vocês são uma banda relativamente nova, porém todos com muitas experiências de projetos anteriores, como surgiu a ideia de montar esse time e o que mudou na vida de vocês desde esse início?
Fausto Oi: Na saída do show do Hot Water Music, que rolou no fim de 2017, encontrei com o Bil que logo disse que precisávamos montar uma banda. Eu fiquei feliz pra caramba, mas achei que ele estava brincando ou contagiado pelo calor do momento, já que o show foi demais e todas as pessoas que encontrei estavam emocionadas. Falou que ia chamar o Mateus (Brandão, guitarrista do Chuva Negra) e, um tempo depois estávamos conversando no Whatsapp já pensando quem iria tocar bateria, e chegamos no nome do Chero.

Fernando Chero: Achei demais quando o Mateus me chamou! Eles já estavam trocando as primeiras ideias sobre montar uma banda nova. O Mateus e eu estudamos no mesmo colégio e desde então continuamos nos encontrando pelos shows e rolês, que foi também como conheci o Bil, nos encontros com nossas bandas e amigos em comum ao longo dos anos. Com o Fausto, além dos rolês também tocamos juntos no Dance Of Days e outros projetos que fomos fazendo depois, então já tinha essa proximidade de banda que agora tem entre os 4 no Radical Karma. Desde o início rola um carinho grande nas composições e também nos planos da banda, que são cuidados que eu já tinha desde antes mas que vem evoluindo para mim. As ideias se expandem porque a experiência dos caras é animal e estamos vivenciando isso juntos agora, então essa evolução na visão com certeza foi algo que senti mudando a partir do início do Radical. Rola uma auto-pressão por melhorar e dessa forma é um desafio, uma responsa e ao mesmo tempo um prazer pois os 3 são ótimas pessoas.

INSIDE A5: Vocês lançaram recentemente o EP, “Sintomas”, como foi o processo de gravação e produção desse material?
Fausto Oi: O “Sintomas” foi composto bem rápido, logo na sequência do “Entre O Fim E O Começo”. Estávamos bem pilhados.
Fernando Chero: Porém as etapas da gravação duraram vários meses. Acabou levando um tempão. Pegou uma época bem cheia nas vidas de cada um, então tinha que ser conciliada da forma que fosse possível, entre os compromissos e agendas de todos. Mas isso eu creio que serviu para maturar os sons também. Você ensaia o som no começo do ano e tem uma visão, quando vai gravar no meio do ano, consegue enxergar outras coisas, surgem ideias que não iriam vir naquele primeiro momento. Ter gravado com o Phil produzindo foi do caralho também. Ele trouxe ideias completamente novas para as músicas e o cuidado em cada detalhe é de acalmar qualquer perfeccionista. Ele manda muito.
Fausto Oi: O Cyro (Menores Atos) ajudou na composição da “E Se Fosse Com Você?” e foi demais tê-lo conosco nos ensaios. Essa troca foi muito boa!
A Camila Rosa fez toda a parte gráfica tanto do single “Em Colapso” como na capa do EP, assim como no nosso primeiro trabalho. As artes dela são sensacionais e ajudaram muito na identidade visual da banda.

Arte por: Camila Rosa
Arte por: Camila Rosa

 

INSIDE A5: Que influências e referências podemos encontrar no “Sintomas” e no “Entre o fim e o começo”?
Fausto Oi: O Bil trouxe temas de grande importância nas letras dos dois EPs, abordando assuntos como proteção, insegurança, medo, cobranças, ansiedade, amor… “ Âmbar Báltico” foi a primeira que ele fez após ser pai, e passa muitos sentimentos em relação a essa experiência. “Referente Ausente” foi inspirada no livro “A Política Sexual Da Carne” da escritora Carol J. Adams. O “Sintomas” num todo reflete muito do que estamos vivendo nesses últimos tempos, e, a “Em Colapso” foi a última que ele escreveu, após uma longa conversa num ensaio, onde desabafamos vários de nossos problemas uns com os outros.
Musicalmente falando, pode se ouvir a personalidade de cada integrante ali, somos pessoas que tivemos a oportunidade de tocar em várias outras bandas e isso traz uma boa bagagem, mas a sonoridade do Radical Karma é diferente, e isso deu liberdade para colocarmos nossas outras influências.

Fernando Chero: Tem umas pitadas de coisas bem distintas. Eu lembro que falávamos de Quicksand e Avail fazendo a “Em Colapso”, no fim ela parece algo diferente das duas bandas, o que é bom (e importante) também. Trocamos várias outras ideias no percurso dos dois EPs, de Violent Soho a The Police.

INSIDE A5: Cada banda tem processos diferentes de criação, como é o de vocês na hora de compor e produzir?
Fernando Chero: Geralmente o Mateus ou o Fausto aparecem com um riff novo, uma ideia de base, uma de refrão. Juntamos coisas diferentes na mesma música às vezes, mas o resto do processo sempre acontece no ensaio mesmo, com as ideias fluindo ao vivo e na hora. Tem um som que estamos fazendo agora, que saiu de umas coisas que eu tinha começado a gravar em casa no violão também. Assim vai formando. Na voz, o Bil bola as linhas e vai testando no ensaio, antes de ter a letra até, e a gente já consegue ter uma ideia do som. Depois que toma esse corpo já fica bem encaminhado. Os detalhes de cada parte e algumas ideias acabam surgindo na hora de gravar pra valer. O processo fica em aberto até esse momento final, na real.

 

INSIDE A5: Como tem sido essa fase atual para vocês? Pós-pandemia quais impactos vocês acreditam possam causar na música independente? Quando as coisas se normalizarem e voltarem a ser seguras.
Fernando Chero: Nesse momento, ter conseguido lançar o EP e o clipe novo é algo animador demais. Além disso, tem dado para dedicar um tempo para as músicas novas que estamos fazendo. Pessoalmente também tenho trabalhado bastante na minha loja de skate para atender pelo site, então a cabeça fica ocupada. Entre música, trabalho, conversas, livros e filmes está dando para manter as ideias em ordem. Ainda acho difícil prever como vai ser pós-pandemia, mas sei que estou com saudades de ver as bandas que gosto e acredito que muita gente também está. Fico otimista com isso. O lance é ter paciência, pois o momento é delicado e ainda durará um pouco.
Fausto Oi: Temos visto bastante gente dando um jeito de tocar e interagir cada um em sua casa. É uma época muito ruim mas que pode ser inspiradora, e acho que muitas bandas independentes voltarão desse período com material novo. Como acreditamos que vai durar um pouco, como o Chero falou, acho que shows só veremos no ano que vem. Faz falta a energia das apresentações ao vivo.

INSIDE A5: O que vocês indicam para quem está lendo essa entrevista? (banda|livro|filme|série|documentário)
Fernando Chero: Estou lendo e gostando muito: “A Ilha”, de Aldous Huxley. Último livro escrito por ele e é o oposto da referência que todo mundo tem de Admirável Mundo Novo. Muito massa!
Fausto Oi: Indico as bandas Camaradas (ombroaombrocamaradas), Hayz e Derrota. O último filme que eu assisti foi o “La Dictadura Perfecta” e gostei bastante, retratando uma situação ficcional (mas com certeza baseada em fatos reais) de forma satírica (mas que pode ser a realidade de vários países, incluindo o nosso) uma emissora de televisão mexicana interagindo com governantes, milícias e situações de manipulação e corrupção. É ao mesmo tempo tão absurdo e tão semelhante com a nossa política atual que é bem desesperador.

 

INSIDE A5: Quais são as próximas metas a alcançar com a banda? O que podemos esperar para os próximos meses?
Fernando Chero: Tem alguns sons que estamos trabalhando e conseguindo fazer à distância, então em breve vai ter novidade sobre isso. Está sendo massa conseguir compor assim! Estamos pensando em novos elementos para essas músicas, talvez até instrumento novo apareça aí.

 

INSIDE A5: Considerações finais:
Fausto Oi: Felipe, muito obrigado pelo oportunidade de conversarmos um pouco sobre o Radical Karma, mostrar nossas ideias e nossa história até aqui.Esperamos que, quando tudo isso passar, consigamos tocar na região de Sorocaba.

Fernando Chero: Fiquem bem! Estamos vivendo um momento surreal, com muitas perdas em muitos sentidos, mas necessitamos resistir e dá para fazer um dia de cada vez, uma coisa de cada vez. Até mais e valeu o espaço!

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