Entrevista: 20 anos de Questions!Por: Felipe Fogaça

A banda foi formada com a intenção de unir a energia e a intensidade do hardcore ao peso e à agressividade do metal. O nome representa um pensamento crítico em relação à vida: questionar, não aceitar as coisas passivamente. As letras expressam uma postura positiva e construtiva de superar as dificuldades para viver num país do terceiro mundo.
Desde a primeira demo-tape “We Shall Overcome”, lançada em junho de 2000, a banda se estabeleceu como uma das mais promissoras do Brasil. O seu show é uma explosão de energia e paixão pelo hardcore, mantendo vivo o espírito das bandas clássicas do gênero.

 

INSIDE A5: Muita coisa mudou de 20 anos pra cá, como é conseguir manter uma ideia por tanto tempo, existe algum segredo para todo esse tempo de vida da banda?
Questions: Salve galera, muito obrigado pelo espaço!
Não existe nenhum segredo, o que acontece é que somos amigos de bairro desde que a gente era moleque, muito antes de ter banda. Então, o Questions é (além da nossa paixão pela música, claro) uma forma de se manter sempre perto dos amigos de infância. Como você falou, muita coisa realmente mudou, nas nossas vidas e no mundo, nesses 20 anos. Mas a nossa vontade de estar perto dos amigos e fazer um som que expresse as nossas ideias continua a mesma. Acho que qualquer banda só dura esse tempo todo se, desde o começo, fizer uma parada verdadeira.
INSIDE A5: Vocês lançaram recentemente o videoclipe da música “Exclusão”, gostaria de saber como foram as produções e o porquê dessa música?

Essa música é do nosso último disco, “Libertatem”, que saiu no ano passado, o primeiro que a gente fez em português. A ideia nos próximos tempos é continuar divulgando as músicas desse disco, então lançamos esse clipe agora e temos mais uns dois no forno. Exclusão fala do sentimento de se sentir menosprezado e rejeitado por um grupo de pessoas por causa da sua origem, cor, classe social, orientação sexual, etc. Às vezes, o preconceito está tão enraizado que aparece inclusive em meios “libertários”, como o hardcore. É algo que sempre temos que lutar contra, a inspiração da letra vem daí. Por isso pensamos que um cenário que tem tudo a ver com a letra é o centro de São Paulo: o marco zero da cidade mais rica do país é lotado de pessoas em situação de rua, um lugar em que a desigualdade em que vivemos está escancarada.
Gravamos as imagens da banda em janeiro e o plano era lançar o clipe em março, por ai. Além da gente tocando, queríamos colocar também o Bil (Zander), que mixou o disco e faz alguns vocais nesse som, e vários amigues que representassem a diversidade das pessoas que conhecemos nos nossos rolês e se identificam com a banda de alguma forma.
Quando a gente já estava terminando, chegou a pandemia e parou tudo. Num primeiro momento, ficamos em choque como todo mundo. Foram uns dois meses ou mais em que a gente não via sentido em lançar o clipe. Até que chegou uma hora em que a gente se convenceu que, apesar de toda a tragédia que estamos vivendo, também não fazia sentido deixar na gaveta. A solução para incluir mais pessoas, como a gente queria, foi pedir para todes fazerem os vídeos em casa mesmo e nos mandarem. Assim, o clipe ganhou muito mais participações, de vários lugares do Brasil, muito massa.

 

INSIDE A5: O disco “Libertatem” fez recentemente 1 ano, como foi a recepção desse trabalho? Gostaria que vocês comentassem um pouco como foi produzir esse primeiro material em português.
Questions: Sim, já faz um ano que saiu, passa muito rápido! A recepção da galera foi animal, com certeza o disco que deu o retorno maior e mais imediato. A gente tava tocando direto e tava super empolgado com os shows e com a repercussão, até que a pandemia obrigou todo mundo a se fechar em casa. A gente imaginava que o português iria deixar as nossas ideias mais claras pra mais gente. Mas a reação foi muito além de qualquer expectativa. Desde o show de lançamento, a galera já sabia cantar as músicas, o que tava acontecendo por tudo que é lugar que a gente andava. O disco deu um novo gás no nosso show, fez muito bem pra banda.
A nossa decisão de fazer letras em português foi amadurecendo ao longo de alguns anos. A gente sempre era cobrado, no bom sentido, por uma galera que curte a banda, não só aqui, mas na Europa também. Ouvimos muitas vezes de amigues daqui que “a mensagem de vocês vai ser assimilada muito mais fácil se cantarem em português”, enquanto gringos volta e meia perguntavam “porque vocês também não cantam na sua língua?”.
A gente sempre achou muito difícil escrever em português, não só para as letras fazerem sentido e não soarem simplórias, mas também para encaixar nas músicas de uma maneira que soasse boa pra nós. Então o Edu (vocal) fez uma primeira letra, “Lutar”, pra ver como ficava e gostamos. Fizemos um lyric video, começamos a tocar no show e vimos que tinha um caminho ali pra gente seguir. Conforme a situação política do país foi piorando cada vez mais, desde o golpe de 2016, decidimos que tínhamos que fazer um disco inteiro em português.

 

INSIDE A5: A pandemia pausou os trabalhos, o que podemos esperar da banda quando tudo estiver seguro? Pós-pandemia quais impactos vocês acreditam possam causar na música independente?
Questions: Achamos muito importante dizer que a gente continua sem se encontrar e só vai retomar os ensaios e shows pra valer quando tivermos certeza de que é seguro. Provavelmente só depois que existir uma vacina confiável e que boa parte da população estiver vacinada. Quando isso finalmente acontecer, não vemos a hora de poder voltar aos shows com pique total! Fazer música ao vivo, encontrar pessoas de verdade num ambiente de verdade, tudo isso faz muita falta pra nós. Este ano deveríamos ter feito uma tour de 20 anos na Europa, quase todos os shows já estavam agendados.. ficou para 2021. Esperamos que seja possível no ano que vem.
Imagino que a retomada depois dessa loucura talvez seja um pouco lenta porque, por mais que esteja todo mundo (público, bandas, promotores, etc) com muita saudade dos shows, ainda vai levar um bom tempo para que a vacina chegue pra todos e para que a galera se sinta segura pra colar nos rolês. Sem falar que, pra grande maioria, a questão da grana vai estar mais difícil, já que muita gente perdeu a fonte de renda nesses tempos. Na real ninguém sabe direito o que vai acontecer, mas o certo é que música ao vivo é insubstituível, e a gente vai dar um jeito de continuar fazendo.

Questions SPHC

 

INSIDE A5: O que vocês indicam para quem está lendo essa entrevista?
Questions: Tem uma série legal na Netflix chamada “Guerras do Brasil”, são alguns capítulos sobre conflitos históricos do nosso país, ela ajuda a derrubar essa ideia bastante comum de que somos um povo “pacífico e acomodado”. Outra série que gostei recentemente é “Estado Zero”, sobre campos de refugiados na Austrália.
Tem o doc “Gimme Danger” sobre os Stooges, uma das bandas que deram origem ao punk.
Aqui tem um podcast do Henry Rollins contando histórias e mostrando sons, tem a primeira demo do Minor Threat e um monte de coisas:
https://www.kcrw.com/music/shows/music-special/henry-rollins-radio-longform-joy-division-ian-mackaye
Onde sempre tem sons legais também é no Mad Pizza
https://antenazero.com/programa/mad-pizza/ e nas playlists da Revelation Records
https://open.spotify.com/user/revelationrecords

 

INSIDE A5: O quanto a política está envolvida com a música para vocês? Qual a opinião de vocês sobre esse caos atual brasileiro?
Questions: A política, quer a gente queira ou não, está relacionada com tudo na nossa vida. Com a música não é diferente. Não existe você estar nesse mundo e não ter uma posição política e, mesmo que você abrace o discurso do “não quero me envolver com nada disso”, você também está fazendo parte do jogo, você está assumindo a posição de omisso. E deixando de lutar contra uma realidade extremamente injusta e desigual. Não estamos falando de militar em partido, coisa que a gente nunca fez, mas sim de tentar ter um mínimo de consciência e de senso crítico do momento histórico que vivemos.
A nossa música, hardcore feito no terceiro mundo, num país periférico do sistema capitalista, por si só já tem um lado de manifesto contra todo tipo de opressão. E viemos da periferia, onde vemos de perto o veneno que o povo passa para conseguir se manter com dignidade.
Com o passar dos anos, foi ficando mais claro para nós que a gente deveria se posicionar sobre vários problemas que enfrentamos ou vemos pessoas próximas enfrentar. E começamos a escrever letras contra o racismo, a homofobia, os preconceitos em geral, de uma forma mais direta. Aí entrou também a necessidade de escrever em português, para que ninguém tenha dúvida de qual lado da história estamos.
O caos que vivemos hoje causa revolta e tristeza. É muito impressionante que uma onda mundial de extrema direita tenha conseguido tantas coisas em tantos países. O caso do Brasil é especialmente cruel porque o presidente e seus apoiadores têm uma sede gigantesca de violência, fazem apologia à tortura, negam a ciência… e a lista de absurdos parece não ter fim. Mas não podemos nos omitir nem desanimar. Temos todos que fazer a nossa parte, ou seja, mostrar a real para as pessoas com quem temos contato e fazer com que elas enxerguem esses falsos moralistas como eles realmente são. A vida para nós sempre foi luta, nunca foi fácil. Nem nos nossos piores pesadelos a gente podia imaginar que ia presenciar um retrocesso tão grande em todas as áreas. O nosso dever é combater tudo o que esse desgoverno representa.

 

 

INSIDE A5: Considerações finais:
Questions: Muito obrigado pelo espaço! Parabéns pelo corre e vida longa!!

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Foto por: PH Fotos
Foto por: PH Fotos

Links importantes sobre a banda:

Spotify: open.spotify.com/artist/1WZWsJmrN68AsyGFdAUFOC
Instagram: instagram.com/questionshc
Bandcamp: questionshc.bandcamp.com
Youtube: youtube.com/questionstv
Facebook: facebook.com/questionsbr

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