O Inimigo Sp

Permaneço, O Inimigo

Trocamos uma ideia com o Wellington Marcelo, vocalista dO Inimigo sobre o último álbum o “Contrariedade”, hardcore, shows, política e mais!

 

INSIDE A5: Desde 2001 na ativa, como é estar quase completando duas décadas com a banda e continuar com aquela fúria juvenil?
Wellington Marcelo: Acho que pelo fato de não escolhermos local ou público para tocar, se alguém está ocupado com suas atividades fora da banda, nós convidamos amig@s para tocar (mesmo com set reduzido), ensaiamos alguns dias antes e não deixamos de tocar, porque todo show é uma missão, é uma mensagem passada, uma experiência diferente. Nós tocamos em qualquer lugar, qualquer buraco, desde o maior festival, desde a casa de show mais longe de casa, eu acho que essa fúria vem daí, nós topamos qualquer parada, isso que mantém o espírito da banda.

 

INSIDE A5: Porque o disco nome foi intitulado como “Contrariedade”? O que tem de diferente o “Contrariedade” para os trabalhos anteriores?
Wellington Marcelo: Quem deu esse nome pro disco foi o Gian, nosso baterista, são alguns motivos, como por exemplo 2019 foi um ano que marcou muito, vimos muitos amigos passando pano para político fascista, por mais que estávamos ali no Hardcore que geralmente todo mundo pensa um pouco igual, teve muita coisa ao contrário, depois fomos ver eles não eram o contrário, quem era ao contrário éramos nós novamente, havia uma galera passando pano para algumas coisas horríveis. Também para fomentar essa ideia de ovelha negra mesmo, “Out of Step”, nós somos ao contrário de tudo isso, a massa está indo para aquele caminho, nós vamos para outro, a ideia do ‘Contrariedade” é um pouco disso.

Esse é o meu primeiro disco nO Inimigo, minhas primeiras 11 músicas com a banda, eu sempre pensei no que o Kalota fez até o momento que ele esteve na banda, querendo ou não, tem uma poesia muito marginal nas músicas que ele criou, minha ideia seguir essa linha ou tentar fazer algo que se aproximasse disso, eu não conseguia manter uma linha poética em temas tão abrangentes como: ocupação da cidade, racismo ou como na música Apelo (Mães de Maio), mas é muito louco que essas músicas mais sérias foi onde eu consegui colocar o meu modo poético de escrever.

A diferença desse disco para os outros discos, primeiramente é o vocal, mas também a fase que estamos vivendo, o que difere os discos são os momentos que estamos passando, agora estamos vivendo esse momento que a polícia cada vez mais assassina, a cidade sofrendo processo gentrificação, tirando os moradores de rua da onde eles vivem, tirando os camelôs da rua, um país mais racista, fascista e podre, sofremos um retrocesso muito grande, é o que temos escrito sobre essa fase, isso é o que difere dos outros discos que foram escritos em outros momentos.

 

INSIDE A5: Como funcionou o processo de composição do “Contrariedade”? A cidade de São Paulo é muito abordada no disco, queria que comentassem um pouco a respeito disso.
Wellington Marcelo: O processo foi animal! Na real eu demorei um pouco para embalar, se for ver, eu embalei da metade pra frente, mas da metade pra trás eu estava um pouco travado, porque tipo é um disco que eu tô fazendo, é um disco que são minhas letras, é responsa! Mas depois da quarta música em diante, fluiu bem demais, de letras e de tudo, saíram músicas como “São Paulo” e a “Ritual”. Era legal que eu e o Juninho se encontrava antes e ficavamos tentando encaixar a letra com voz e violão, era um processo foda! Nós íamos segunda-feira, às 9 horas da manhã, eu e o Juninho e ficávamos encaixando as letras, logo depois chegavam os outros caras da banda e ensaiavamos a banda inteira, foram experiências fodas, porque passamos quase 5 horas ali tocando e criando, mas admito que no começo das músicas eu fiquei meio tímido, pode ver que tem uma diferença de “Sangue Nordestino” para “Ritual” ou de “Apropriar” para “São Paulo”.

A cidade é citada porque é o que vivemos e sobrevivemos, nós estamos sempre em atos, sempre fazendo coisas na cidade, movimentando, trabalhando, pedalando, nos shows e sempre acompanhando o que a cidade está reverberando, não tem como não citar a cidade, nem é um lance de patriotismo, longe disso! Acho que podemos ter um carinho pelo lugar que nós vivemos, mas não podemos fechar os olhos para o que está acontecendo de ruim, que é muito maior que as coisas boas, então não tem como não citar São Paulo, porque é o que vivemos.

 

INSIDE A5: A Tour do Contrariedade pelo Brasil contou com diferentes formações na banda (em alguns shows), como é para vocês ter essas participações?
Wellington Marcelo: É bom e ruim, bom porque que cada show é uma missão, essa tour do Contrariedade nós tocamos mais de 30 shows e nós não cancelamos nenhum show, tocamos todos! É legal que conseguimos dividir mais tempo com amigos nossos, como o Fausto, Alemão, Pilili, Tucano, Pedro Carvalho, etc. O lado ruim é que fica limitado, tipo as músicas do Contrariedade são mais trabalhadas e acabamos tocando menos e tocando mais o “Cada um em dois”, então fica mais limitado o set.

 

Foto por: Victor Balde

INSIDE A5: Vocês trabalharam forte em mais videoclipes nesse material, como é pensado/imaginado os roteiros para os vídeos? Conte nos um pouco como foi o processo de gravação até a finalização dos vídeos.
Wellington Marcelo: Nós temos muita sorte com esse lance de vídeo, porque temos muitos amigos do rap, skate, hardcore que trabalham com audiovisual e a galera pede para fazer uns videoclipes, a galera ouve os discos e chegam com ideias de vídeos para nós. Por exemplo, o São Paulo foi o Brian, um amigo nosso que fez a captação e com a edição da Fernanda Lira (Nervosa), o Alzheimer foi um dos amigos dos moleques da HBB, muitos skatistas já vieram trocar ideias, o Dj do Rincon também quer fazer um clipe nosso. O Clipe de Alzheimer eu acho muito foda, é na casa da minha vó, onde eu cresci com a minha vó, é um vídeo que vai ficar para sempre, marcado. Temos sorte de ter amigos talentosos para nos ajudar nessa parte.

 

INSIDE A5: Vocês pertenceram a diversas fases do Hardcore em São Paulo até atualmente, que mudanças positivas e negativas você enxergam nesse cenário?
Wellington Marcelo: Sobre as mudanças, depende, estamos a muito tempo nessa cena, acredito que não se limita só a banda, vai muito além, vai no que nós fazemos no dia a dia, acho que no mundo que estamos a gente não lutar um mínimo que seja, se você é um cara que só trampa e é estagnado, qualquer coisa mínima que você faz é muito nessa situação que nos encontramos.

Nós ficamos muito felizes em tocar nos lugares e ver pessoas novas fazendo muitas paradas legais ou ver amigos nossos das antigas produzindo coisas além de bandas, muito foda ver amig@s que estudaram e agora são professor@s, que estudou muito e agora é a advogad@ (e faz um trampo coerente), é legal demais ver essa evolução dos amig@s e ver esse pessoal novo que tá fazendo boas coisas.

Coisas negativas nos vemos um monte e isso decepciona, mas ultimamente to vendo muito retorno da galera que seguiu um caminho correto e está fazendo muita coisa útil, pra mim isso que vale a pena, ver nossos amig@s cozinheir@s, professor@s, advogad@s, indo viajar, comendo bem, isso é o ponto mais positivo, ver a evolução de quem tá próximo e o ponto negativo é ver gente passando pano para algumas coisas inacreditáveis.

 

INSIDE A5: O que você indica para quem está lendo essa entrevista? (livros, filmes, bandas, documentários, etc)
Wellington Marcelo: De livro eu indico, “A Nova Segregação: Racismo e encarceramento em massa” da Michelle Alexander uma mulher que é foda, ela fala muito naquele documentário “A Décima terceira emenda”, quem puder leia esse livro, é muito bom! Quem é latino e não leu “As veias abertas da América Latina” tem que ler, indico também Paulo Freire “Pedagogia do Oprimido”, indico qualquer um da bell hooks, os livros da Djamila Ribeiro eu também tô lendo e são muito fodas, leio muito também Raquel Rolnik “Guerras dos lugares” ou “Territórios e conflitos” que fala da cidade, qualquer coisa da Jane Jacobs que é relacionado a cidade também, David Harvey, são leituras que estão me chamando atenção nesses tempos.

INSIDE A5: O momento atual político do Brasil é catastrófico, como o punk/hardcore pode ajudar de alguma forma nesse atual contexto que vivemos? O que acham do punk desassociado com a política?
Wellington Marcelo: O punk desassociado com política não existe e nunca vai existir pra mim, nós estamos num momento que se não fizermos algo, você é inválido para o mundo, temos que fazer alguma coisa, porque há muitas coisas que necessitam serem mudadas. O hardcore/punk ajuda muito, desde que o que você ouça/assista não seja só entretenimento, tenha efeito no seu dia a dia e na sua vida, eu me baseio nisso, o que eu ouço eu tento colocar no meu dia a dia, nas minhas relações, nas relações com as pessoas, nO Inimigo, eu acho que é essa eficiência do punk, ser uma chama na sua mente ali que vai explodir e você vai ser ativo em alguma coisa, seja ela qual for, mesmo que seja o mínimo. Às vezes a revolução pessoal é mais importante do que qualquer outra coisa, você se questionar, se auto criticar, mudar, isso é o efeito que o hardcore punk faz que eu acho válido.

 

INSIDE A5: Sabemos que tem uma tour na Europa em breve, quais são as expectativas para ela? Quais são os próximos planos para a banda?
Wellington Marcelo: No momento estamos focado nessa tour, vai ser muito especial! infelizmente o Gian não vai poder ir, mas quem vai tocar no lugar dele é o Boka (Ratos de Porão). É a minha primeira tour na Europa, por enquanto são 27 shows em 3 países, a minha expectativa é de um moleque negro da periferia pisar na Europa e cobrar cada um que fez merda em nosso país, essa é minha expectativa, de chegar lá e mostrar que apesar de tudo que fizeram a América do Sul, seguimos lutando, esse é o alerta que eu vou fazer em todos os shows e vai ser sem massagem, vai ser rígido! vai ser coerente e difícil de ouvir, palavras sinceras não são agradáveis de se ouvir, minha expectativa é tocar o coração da pessoas com o que está acontecendo no Brasil, que é um país atrasado por conta de coisas que eles fizeram, esse é o nosso plano e é isso que vamos fazer.

 

INSIDE A5: Últimas considerações …
Wellington Marcelo: Obrigado pelo convite, é a primeira que eu respondo uma entrevista sozinho nO Inimigo, minha opinião é diferente dos caras, mas é válida também em relação a banda, como eu entrei depois, é importante. Obrigado mesmo, muito foda o trampo que vocês estão fazendo, é o que eu disse, se cada um fizer sua parte o hardcore/punk é uma sociedade, vocês estão fazendo a parte de vocês com o material virtual, impresso, fanzine e tudo mais, desculpa a demora pelas respostas, até breve!

 


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