Conheça a Rapper, Naty MCPor: Ricardo Huss

O rap sempre teve um espaço muito forte na minha vida, eu como moleque da periferia, tinha como trilha sonora nos rádios puxados da garagem, Racionais, RZO, Facção Central, entre outros gigantes do cenário da década de noventa, como a gente sempre fala em debate, essa vertente musical do rap é muito parecido com o punk/hardcore, são melodias diferentes com o mesmo objetivo, questionar e atacar o sistema, hoje o papo é com a Rapper Naty MC, que acabou de lançar um projeto Colab bem massa chamada Cypher CNR e contará um pouco disso tudo para nós.

 

INSIDE A5: Você se apresenta como Naty MC, nos fala um pouco de você, de onde veio a ideia de ser MC, as primeiras apresentações, composições, como foi?
Naty MC: A ideia surgiu pela identificação com os mcs da minha cidade quando comecei a frequentar batalhas de rima. Apesar de não batalhar, a forma como o pessoal se expressava me inspirou a voltar a compor somada à influência que já tinha do rap em si. Minhas primeiras apresentações foram nessas batalhas e em saraus com minhas composições em forma de poesia. Nesse processo me juntei com uma amiga e nós criamos um dos primeiros grupos femininos de Rio Preto.

 

INSIDE A5: Como você enxerga a participação da mulher dentro do cenário do Rap brasileiro? Na década de noventa houve uma representação com a Negra Li no RZO, como enxerga isso, quais as dificuldades, as questões abordadas?
Naty MC: Enquanto movimento contestador, a participação feminina é essencial dentro do rap. A opressão feminina é um dos pilares fundamentais de sustentação desse sistema, e qualquer movimento que se coloque numa posição ‘antissistema’ depende dessa participação. “Não podemos construir um movimento de massas se não conseguirmos educar e organizar com base nas necessidades específicas das mulheres, que ‘sustentam metade do céu’. – Trecho de um texto de Kevin “Rashid” Johnson do Partido Pantera Negra Novafrikano.
Não só a Negra Li, mas também Dina Di, Cris SNJ entre muitas outras tiveram um papel fundamental para que atualmente a participação feminina cresça cada vez mais dentro da cena. As dificuldades são as mesmas que conhecemos em outros âmbitos sociais, infelizmente a cultura do machismo é muito forte e o rap não está isento disso!

 

INSIDE A5: Recentemente vi um trabalho lançado onde você participa também, me conta um pouco o que é o Cypher CNR, de onde veio a ideia, como rolou a composição, a música fala um pouco de cada rapper dali né? Como foi produzido?
Naty MC: A ideia da Cypher foi proposta por um amigo, produtor e dono do home studio Chama na Rima, em Rio Preto. Segundo ele o objetivo é movimentar e unir a cena rio-pretense.
A composição foi individual, cada um escrevia a sua parte e depois mostrava as guias no grupo do whats em que estávamos nos comunicando. A letra pra mim veio quase que instantaneamente, eu já estava apaixonada no beat e depois de muito tempo sem escrever acabou saindo de forma bem espontânea, tanto que ela foi gravada sem alterações. Como não tinha um tema fixo, cada um expressou suas ideias a partir da própria vivência na cena. Foi interessante realizar esse trabalho à distância, 90% da minha participação foi feita daqui de Tatuí. Os meninos gravaram a parte deles no estúdio com o Nico (produtor) e eu gravei aqui em Tatuí no Casa Velha com o Davi, que além de companheiro é meu produtor. Pra gravação do clipe marcamos uma data que coincidia com minha ida a Rio Preto, o que acabou atrasando um pouco o processo.

 

INSIDE A5: Sobre o que fala suas composições? Como você vê o rap como instrumento de transformação social?
Naty MC: Minhas composições seguem muito essa linha de contestação e questionamento sobre o sistema político e econômico, sobre as dinâmicas sociais e algumas sobre a minha história. Compor é algo muito pessoal pra mim e está intrinsecamente ligado a como eu me sinto e enxergo o mundo. E isso vem muito das minhas principais influências: Racionais e Facção Central. Parece clichê, e obviamente eu tenho muitas outras, mas esses grupos são o alicerce do meu pensamento crítico, principalmente Facção que me escancarou a realidade das periferias de uma forma muito abrupta, já que mesmo vindo de família pobre não tive essa vivência. Como foi pra mim, eu vejo o rap como um meio de denúncia e agitação da revolta popular. É claro que, como arte, ele pode ser muito mais do que isso, mas enxergo o viés de denúncia das atrocidades desse sistema como função principal.

 

INSIDE A5: Quais sãos as próximas idéias da sua carreira? Vai rolar outros Colab na mesma linha do Cypher?
Naty MC: Há alguns anos eu tenho a pretensão de lançar uma mixtape com as minhas primeiras composições, e que está em processo de produção, mas ainda não tem previsão para o lançamento. Atualmente estou trabalhando em um feat com Karele Mc, integrante do grupo Ameaça Vermelha de SP, que é referência nessa linha de rap combativo e que eu admiro muito. Pretendemos lançar ainda esse ano!

 

INSIDE A5: Deixa aqui uma mensagem, um recado, uma ideia para a galera
Naty MC: A mensagem que eu tenho, principalmente pra galera nova que ta começando agora na militância é: Grito vazio não constrói mudança! Estudem, se politizem, aprendam defesa pessoal e principalmente se aliem ao povo, escutem as massas! A revolução se constrói a partir do povo! Não caiam em conto de políticos. Eleição é farsa e rebelar-se é justo!

 

 

Entrevista por: Ricardo Huss