Foto por: Cyndi Omoto

De nova formação e muito pra compartilhar: INNER!Por: Felipe Fogaça

A Inner foi criada em 2015 por dois amigos que queriam colocar pra fora tudo que tava guardado. Inner significa interior e a evidenciar esse interior, tanto no aspecto pessoal, falando de sentimentos e emoções, como no aspecto social, que é poder mostrar às demandas de viver no interior do estado. Por tudo ter começado por amizade, a proposta sempre foi a banda ter membros que são, acima de tudo, amigos. A banda está com nova formação desde o ano passado, o que tem modificado a sonoridade, mas mantendo sempre o mesmo foco de valorizar o que vem do interior.

 

INSIDE A5: Como surgiu a ideia de começar o INNER? O que mudou na vida de vocês desde esse começo?
Rodolfo Della Violla: Eu e o Otávio sempre tocamos juntos, desde as primeiras bandas nossas quase. Durante a faculdade a gente não tocava mais e até rolou uma distanciada da música pra mim, fiquei um bom tempo sem tocar guitarra, mas nunca nem pensei em vender ela. Quando acabamos a faculdade, começou a rolar uns encontros pra fazer música e daí surgiu a ideia de fazer “um ep até o fim do ano”. O que mudou é que conseguimos um ep até o fim do outro ano, mas agora todo ano a gente começa com essa meta denovo. Além disso, voltamos a ter contato com a cena de bandas autorais de Sorocaba e isso pra mim tem sido muito transformador!
Otávio Machado: Durante a faculdade eu fiquei um bom tempo sem tocar, eu e o Rodolfo estávamos afastados e a minha vida tava bastante bagunçada. Conforme fomos retomando o contato, fazer música foi um caminho natural, afinal, nossa amizade surgiu na minha primeira banda em 2006 e desde então sempre tocamos juntos. Vimos que estávamos produzindo um material legal e decidimos que precisaríamos de mais pessoas pra finalizar o trampo e poder divulgar, o que considero que foi uma das nossas melhores decisões até hoje. A INNER me apresentou um novo momento da cena de Sorocaba e região, com isso surgiram muitas amizades, conheci pessoas incríveis, e o processo criativo me fez retomar minha autoestima e trabalhar diversas angústias pessoais. O sentimento de pertencimento é transformador.

INSIDE A5: Nos conte um pouco sobre quais são as influências e referências musicalmente e artisticamente que inspiram vocês.
Rodolfo Della Violla: Meu pai é rockeiro, então aprendi muito de rock clássico com ele. Na adolescência comecei a ouvir músicas que meu pai já classificava como barulho hahaha. Emo 2005 com certeza é uma influência, sempre ouvi mais banda brasileira de hardcore também e recentemente to tentando pegar mais banda clássica tanto de rock antigo como hardcore punk. Mas gosto muito do new wave dos anos 80, muito mesmo! Além disso gosto muito de filmes e penso que isso me influencia em tudo que eu faço na vida.
Otávio Machado: Eu curto muito músicas tristes dos anos 90 e 2000, hc melódico, emo, grunge, pop punk, post hc, post rock e etc, sem dúvida é a minha escola. Nada como uma música de um jovem frustrado com a vida. Mas, o gênero que mais me inspira sem dúvidas é o rap nacional, e tenho curtido bastante brasilidades, funk, brega funk, samba e etc. Tenho procurado ter um maior contato com outras artes fora da música e do rock também, como a dança e o teatro. Considero que são artes mais complexas e talvez mais completas, que exploram muito o contato consigo mesmo e com o corpo, isso tem me proporcionado diversas reflexões e inspirações.

 

INSIDE A5: Como funciona o processo de composição da banda? Tanto de letra quanto instrumental.
Rodolfo Della Violla: A gente tá com uma formação nova desde o ano passado, então algumas coisas mudaram, mas parece que o coração do processo de composição nosso é sempre tocando juntos. Rola de alguém trazer uma ideia e a gente ir trabalhando ela e aí acho que tem a diferença. Na formação antiga as ideias vinham mais prontas do que a gente pensava em casa antes, agora as ideias vem mais simples e acabam ficando complexas no estúdios mesmo. Sobre as letras, já teve umas que vinham inteiras prontas e atualmente tem sido feito num processo mais coletivo também.
Otávio Machado: Na formação antiga eu e o Rodolfo fazíamos 99% de tudo, mas, atualmente é um processo mais coletivo e orgânico, tocando junto, fazendo jam e também trazendo ideias de casa pra desenvolver com o coletivo. Todos têm participado ativamente e com isso as músicas tem ficado bem mais trabalhadas. Tá sendo ótimo.

Foto por: Cyndi Omoto
Foto por: Cyndi Omoto

 

INSIDE A5: Quais são os pontos positivos e negativos de ter uma banda em Sorocaba? O que opinam sobre o cenário do interior?
Rodolfo Della Violla: Eu só vejo ponto positivo, sou muito otimista hahaha. Sorocaba demonstra um lado muito conservador quando a gente olha pra eleições e a maneira de administrar a cidade, mas a(s) cena de arte é profundamente questionadora. Sinto que Sorocaba é um lugar excelente pra ter banda, tem muita gente disposta a colar junto, tem muita gente fazendo música e tem espaços muito legais pra gente tocar e trazer bandas de fora pra fazer parceria. Sobre o cenário do interior, conheço muita banda e gente massa em volta da gente, sei que tem muita cidade fervendo na arte também, cada uma dentro da sua característica, fazendo coisas muito legais.
Otávio Machado: Sorocaba tem uma cena artística absurdamente rica, somos muito privilegiados de estar nesse espaço de troca com tantos artistas e trabalhadores das artes. Isso sem falar na galera que ta sempre colando nos roles e fortalecendo. O que eu penso de ponto negativo é a falta de investimento do setor público. A cidade é bastante conservadora e isso tem atravessamentos muito ruins na vivência da cidade e nos processos artísticos. Mas, a cena é muito forte, com muita banda boa de todos os estilos. Sinto que falta uma aproximação maior de alguns nichos, parar de frescura e dialogar com geral e ocupar cada vez mais espaços. Arte é resistência, não importa qual.

 

INSIDE A5: Como tem sido esse momento de pandemia para banda? Quais impactos vocês acreditam que possam causar no cenário independente?
Rodolfo Della Violla: Eu sinto que tem sido como tá pra muita gente: rola o momento de reflexão, de repensar planos, de se angustiar, de se revoltar contra a maneira que o governo tem tratado isso, de se reinventar, de desistir… a gente começou querendo manter o ritmo, lançar coisa e tal, mas acabamos naturalmente colocando o pé no freio e indo mais devagar, pq emocionalmente a gente foi ficando muito abalado. Agora a gente tem retomado reuniões planos e tem sido transformador, mas de maneira nenhuma dá pra dizer que esse momento foi bom, mas sim que conseguimos tirar alguma coisa disso pra seguir. Sobre o cenário independente, acredito que vai ser profundamente impactado, mas que vamos conseguir forças pra se manter através da união, que é uma coisa que eu sinto muito na cena independente de Sorocaba.
Otávio Machado: Tem sido complicado. Muitas angústias e incertezas que por vezes afetam negativamente o processo criativo, além de implicar em dificuldades concretas como a impossibilidade de estarmos juntos em estudio. Temos conseguido trabalhar, reformulando os planos e as expectativas, respeitando as dificuldades individuais e dando suporte um ao outro. Sobre a cena, creio que ainda teremos um longo período tenebroso. Tudo que fazemos exige troca calor humano, então, os impactos econômicos e a desesperança vai bater forte em muita gente, como já vem batendo. Vamos precisar nos reinventar, nos unir e trabalhar ainda mais forte daqui em diante pra não deixar morrer e ninguém pra trás. Cuidem da saúde mental e física!

 

INSIDE A5: Indicações de filmes | podcasts | livros | séries que você recomendam para quem está lendo essa entrevista.
Rodolfo Della Violla: Durante a quarentena eu assisti Chernobyl, aquela série da HBO. Me fez pensar demais em como a gente está tratando o momento atual da crise da COVID-19, a relação da política com a ciência e a necessidade de a gente se posicionar nesses momentos. Eu vejo muito vídeo no youtube e recomendo demais o canal da Rita Von Hunty (Tempero Drag), do Meteoro Brasil, do Henry Bugalho e o Greg News, que me ajudam a refletir além dos acontecimentos atuais e pensar em possibilidades de futuro. Além disso, assistam Bacurau (e Aquarius que eu acho tão foda quanto e é um puta show de atuação da Sônia Braga)
Otávio Machado: Indico o livro “a insustentável leveza do ser” do Milan Kundera. Livro existencialista com recorte histórico na invasão de Praga pela União Soviética abordando diversas questões relacionadas a experiência humana e formas de existência e liberdade. Série indico “westworld” da HBO, que trabalha aspectos da noção de realidade, relação humana com a tecnologia e relações interpessoais. Filme eu vou de Bacurau porque foi o mais impactante dos últimos tempos.

 

INSIDE A5: Quais são as próximas metas a alcançar com a banda? O que podem dar de spoiler de novidades?
Rodolfo Della Violla: Um EP até o fim do ano hahaha. Tamo trabalhando de single em single agora, tinha uma ideia de EP praticamente pronta, a gente tava finalizando os sons pra começar a gravar, mas aí veio a quarentena, percebemos que nesse momento a gente deveria trabalhar num ritmo mais tranquilo e lançar singles até que a gente possa voltar a estar juntos tocando. Logo menos vem esse single.
Otávio Machado: Tínhamos planos de full album, depois EP, mas, que acabou virando single. Estamos com muitas músicas semi prontas e decidimos ir lançando singles. É um bom momento pra nos testarmos. Temos desde músicas pesadas e agressivas a músicas extremamente melódicas. Estamos explorando pra ver a nova cara da banda com essa formação. Mas, tá pra sair um single nas próximas semanas e já estamos trabalhando em outro.

 

INSIDE A5: Considerações finais:
Rodolfo Della Violla: A gente é muito privilegiado de poder se reinventar e se rever num momento de isolamento, tem gente que não tem água e sabão em casa, tem um cômodo só pra ficar isolado com uma família inteira né? Então nunca que a pandemia é uma coisa boa, tá matando muita gente e, pelo que estamos vendo sobre as retomadas de atividade, vai matar muito mais. Por isso, acredito que a mensagem é: fique em casa se puder, apoie quem precisa sair de casa, fortaleça seus laços de afeto, sejam familiares ou de amizade e lute contra toda forma de opressão (racismo, machismo, homofobia), que nesse momento está simbolizado no nosso presidente e sua corja, mas que sempre cria formas de aparecer de tempos em tempos, seja na política, na mídia ou até em forma de entretenimento. E pra que essa luta seja possível, o viés precisa ser anticapitalista SEMPRE.
Otávio Machado: Cuidem-se e cuidem de quem estiver ao seu redor. Viver é resistir e temos muita luta pela frente, então, precisamos estar fortes. E quando precisar cair, saiba que tem pessoas ao nosso lado pra nos levantar. Faça arte, não importa como. Se puder, fique em casa.

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Links importantes da banda:
Bandcamp: https://innerhc.bandcamp.com/
Youtube: https://www.youtube.com/channel/UCmfc1TwnE6AkvXPdSxP8oZA
Spotify: https://open.spotify.com/artist/47x8Hj9iDylNShwbrRhJmh
Instagram: https://www.instagram.com/innerhxcx/
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