Inside A5 entrevista Hayz

HAYZ é um trio de queercore formado em 2018 em São Paulo. Foi trocando cartas sociais nos anos 90 que Josie (voz/guitarra) e Roberta (bateria) se conheceram. Desde então, passaram a se admirar musicalmente à distância. Josie conheceu Bruna (baixo/voz) nos anos 00, quando foi convidada para tocar no Festival Mulheres no Volante, organizado por ela. Mas foi somente em 2018 que Itapevi, Brasília e Juiz de Fora realmente se conectaram, dando origem à HAYZ. No dia 8 de março deste ano, a banda lançou seu EP de estreia, “Não Estamos Mais em Casa”. Profundamente influenciado pela sonoridade de bandas dos anos 90 e 2000, como Longstocking, Third Sex e Team Dresch, o EP foi gravado ao vivo em apenas sete horas no Estúdio Papiris, em São Paulo, e mixado e masterizado por Caio Monfort. O EP foi lançado em parceria com os selos Efusiva (Rio de Janeiro) e Howlin’ Records (São Paulo).

 

INSIDE A5: Como surgiu a ideia de montar a banda? A vida de vocês mudou em quais sentidos depois que começaram essa iniciativa?
Bruna Provazi: Nós 3 somos de cidades diferentes (Juiz de Fora, Brasília e Itapevi). A Josie e a Roberta se conheceram trocando zines nos anos 90. Eu (Bruna) conheci a Josie quando convidei a banda dela pra tocar no festival feminista (Mulheres no Volante), que eu organizava em Juiz de Fora, em 2009. Mas desde então não nos falamos mais. Apesar de termos contextos diferentes, todas nós começamos a tocar em bandas punks na adolescência, e todas estávamos há pelo menos 5 anos sem tocar. Em 2018 a Josie resolveu voltar a fazer som e nos chamou. Então acho que foi o encontro perfeito.

 

INSIDE A5: Como foi o processo de composição e gravação do “Não estamos mais em casa”? As letras tratam de quais temas?
Josie Lucas: Esse EP foi gravado meio no susto. Tínhamos algumas músicas prontas e começamos a falar pras pessoas que a banda existia e sempre perguntavam se já tínhamos algum material pra mostrar, daí a necessidade de gravar tendo apenas 6 meses de banda. As letras falam de temas comuns (embora nada agradáveis) a muitas mulheres nesse país, como abuso, estupro, discriminação.

 

INSIDE A5: Algum livros|filmes|séries|podcasts|documentários ajudaram vocês se inspirarem para compor esse material? O que vocês indicam para quem está lendo essa entrevista?
Josie Lucas: É claro que as letras acabam sendo resultado também da cultura que a gente consome, mas não pensamos em livros ou filmes específicos para compor as músicas do EP. Gostamos do podcast Pedaleiras, que é idealizado pela Yasmin e fala sobre mulheres, rock e bicicletas. Tem entrevistas e toca um monte de coisa legal. Gostamos também do Conversa Afinada, que é do João Pedro do blog Crush in Hi-Fi.
Bruna Provazi: Um livro que me influenciou bastante na época em que voltei a tocar foi a biografia da Carrie Brownstein, vocal/guitarra do Sleater-Kinney (“Hunger Makes Me a Modern Girl”). Me identifiquei com algumas situações que elas vivenciaram como uma banda feminista underground e, sobretudo, é muito inspirador você sentir que quer fazer isso pra sempre, apesar de todas as dificuldades.

 

INSIDE A5: Quais as diferenças positivas e negativas no cenário independente que vocês destacam de quando começaram a participar da cena para agora?
Bruna Provazi: Hoje acho que temos menor tolerância para questões que sempre estiveram presentes na cena, como machismo e racismo. Muitas denúncias vieram à tona nos últimos anos e isso foi muito importante para dar visibilidade a problemas como assédio, que sempre rolaram. Por outro lado ainda precisamos todos os dias lutar pelo nosso espaço, porque ainda vemos festivais de hardcore com lineup 100% de homens brancos héteros sendo tratados com naturalidade. E se a gente olha para a quantidade de pessoas negras na cena, vemos que o problema é ainda mais profundo.

Foto por: Juliana Marotta 

INSIDE A5: Vocês fazem outras atividades culturais fora da banda? Nos conte um pouco sobre.
Bruna Provazi: Eu organizei o Festival Mulheres no Volante por 10 anos em Juiz de Fora. Hoje em dia colaboro com outras iniciativas que já existem aqui em São Paulo, como o Desviantes Fest. E esse ano dirigi meu primeiro curta-metragem, SANTATERROR, sobre porno-terrorismo.

 

INSIDE A5: O quanto a política está envolvida com a música para vocês? Isso tem influenciado de qual forma para os eventos independentes, bandas, liberdade?
Josie Lucas: O momento político do país é catastrófico, estamos vivendo um cenário que dificilmente não interfira na vida de qualquer pessoa envolvida com música, ainda mais com música de contestação. A polícia está cada vez mais se sentindo autorizada a reprimir, impedir eventos. Nós pensamos na música como uma forma de resistir a tudo que vem sendo naturalizado nesse país, como o assassinatos de LGBTQIA+, o massacre ao povo preto nas periferias e ao retrocesso em relação a condição das mulheres. A nossa música sempre vai caminhar junto com as questões políticas.

 

 

INSIDE A5: O que vocês desejam alcançar com a banda que ainda não foi possível? Quais os planos futuros? Novos materiais, tours, formações, etc.
Bruna Provazi: Nossa ideia é lançar um single e um clipe novo ainda neste ano, e em 2020 gravar um álbum cheio, com músicas que estamos começando a compor agora. Se nossa rotina permitir, hehehe, temos muita vontade de fazer uma turnê no nordeste e quem sabe mais longe também.

 

INSIDE A5: Para finalizar:
Josie Lucas: Brigada pelo espaço e pelo interesse na banda. Aproveitamos pra convidar as pessoas pros nossos shows, apoiem a cena das minas e dos LGBTQIA+, tem muita coisa boa rolando.

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