Inside A5 entrevista Hardcore Contra o Fascismo

O Hardcore segue sendo contra o fascismo!

 

INSIDE A5: Como e quando surgiu a iniciativa desse ato? O que mudou desse 1 ano para cá?
Favela: O Bolsonaro sempre foi uma piada. Uma piada sem graça, mas uma piada. Mas esse fenômeno bizarro de formação de cientistas políticos pelo Facebook/WhatsApp/Youtube fez com que ele virasse de piada à ameaça real. Nunca imaginei que uma pessoa como ele conseguisse grandes saltos na vida, além de pouco expressivos cargos políticos. E com essa eminente ameaça de uma possível vitória dele, achamos que seria prudente começar um movimento de conscientização e posicionamento, afinal, sempre existirão pessoas que ficam em cima do muro. A nossa ideia é de mostrar pra todo mundo o lado que cada um escolheu. Tanto que chamamos os eventos de “ato”, nunca de “show”. O que mudou foi que fudeu, né? O desgraçado ganhou, as coisas pioram a cada dia e não temos muitas perspectivas. Mas, por outro lado também, nós nunca tivemos apoio e nem perspectiva, de modo geral, então estamos acostumados a sempre ser resistência.

Edi: Bem quando começou aumentar essa onda pró Bolsonaro e vimos que realmente a ameaça era séria, resolvemos nos posicionar e influenciado até por um ato que rolou na Alemanha em Berlin no ano de 1999, onde a banda Atari Teenage Riot organizou um ato em prol dos trabalhadores e teve um forte confronto com a polícia, terminando até com a prisão dos membros da banda, lembrando dessa situação nos questionamos, porque não estamos fazendo nada? Daí começamos a criar o coletivo.
O que mudou do início até aqui, foi o foco, eu acho que antes era mais um alerta, do que poderia vir e agora com o Bolsonaro eleito, agora é mais um grito de total resistência.
Pois o princípio básico do Punk-Hardcore é ser Antifascista e ir contra todas essas idéias que estão agora sendo compartilhadas por muita gente, com aval de uma liderança forte.

 

INSIDE A5: Essa onda catastrófica política tem atingido a América do Sul toda e vemos outros países tomando outros tipos de postura do Brasil, o que opinam sobre?
Favela: Eu acho que todo mundo perdeu as esperanças. As promessas da esquerda desapontaram quem acreditava num processo de mudança. Isso fez com que as alas conservadoras ganhassem força, conquistando adeptos desse grupo dos “sem esperança”. Aí um cara pobre, fudido, que passou todos os tipos de necessidade a vida toda, começa a pensar que é tudo culpa da “falta de segurança”. Aí vira esses reaças que todo mundo conhece, que faz uma par de merda, mas acha que “bandido bom é bandido morto”, que cai nessas pilhas de que “tudo é culpa da esquerda” ou que “o comunismo tá dominando o mundo”. É uma bola de neve, difícil de destruir. Com as coisas que estão acontecendo todos os dias, se as pessoas aqui tivessem um pingo de vergonha na cara, esse país já estaria em chamas há muito tempo. Mas é mais fácil acreditar em notícias falsas do que parar para pensar um pouquinho, infelizmente.

Fogaça: Temos muito que aprender com nossos hermanos, principalmente a deixar de lado esse conformismo e buscar as mudanças que acreditamos.

Edi: Existem vários pontos para avaliar nesse assunto, um ponto principal é que nós ainda temos muito que evoluir quando o assunto é política, falo nós incluindo, nós do punk também, porém no senso comum o que perpetua por muito tempo é o que a mídia sempre divulgou, e a Globo, que hoje tem a maior audiência fez uma campanha forte contra o PT e o Lula, e isso criou uma situação na qual muita gente nem sequer foi atrás de informação ou parou para pensar nos interesses que a emissora tinha, e se criou essa onda toda anti-pt, de reproduzir essas idéias anti-comunista (sem saber nem o que é comunismo) anti-direitos humanos e etc, porém ela mesmo não acreditava que o Bolsonaro teria força, e com isso agora faz uma campanha para tentar desmontar esse governo, mas tem muita coisa ruim que vai prejudicar o povo pobre e periférico que para consertar vai levar anos.
Mas outro ponto complicado é que o Bolsonaro cria alianças com a Igreja Universal, que vem como bônus espaço para fomentar suas idéias na Record, e também uma forte aliança com o Silvio Santos e Sbt o que ainda mantém seu público ativo, que é ou “Cidadão de bem” ou Evangélico.
Para finalizar essa questão ainda temos uma verdadeira máfia das fake news, onde isso mantém de certa maneira o povo alienado, ou acreditando que o PT só fez mal ao Brasil, ou que as coisas estão melhorando, por isso a Apatia.

 

INSIDE A5: De que maneira um evento de música, como “Hardcore Contra o Fascismo” ajuda as pessoas em suas lutas?
Fogaça: Para mim foi essencial para entender que não estamos sozinhos nesse combate, que tem muita gente como nós que não está conformado com a situação, que juntos somos mais fortes. Além do ato estar sempre passando informações importantes, seja pela web, seja com as bandas que estão tocando, palestras ou mesmo com as pessoas que comparecem aos atos.

Edi: Como disse lá em cima, eu entendo que seja apenas um grito, para mostrar que estamos aqui e que punk é ter posicionamento contrário a essas idéias compartilhadas por esse governo, porém precisamos ir além, o ato é apenas um lugar para nos reunirmos e daí partir para outras lutas, abrir o leque e ajudar outros projetos sociais.

Favela: Nós chamamos o evento de ato, não de show. Show é, basicamente, só música. No evento que fazemos, obviamente tem música, mas sempre tentamos deixar isso meio que em segundo plano. As bandas tocam pouco, 3 músicas. O nosso foco é mostrar que as pessoas das bandas estão se posicionando, as pessoas que vão estão se posicionando. Além disso, nós colocamos em todos os atos atividades como debate, roda de conversa, rango vegan, exibição de documentário, microfone aberto, silk screen, etc., sempre com temas relevantes. Com isso buscamos, pelo menos, despertar algum tipo de interesse nas pessoas, para que elas depois façam um corre pra entender mais sobre aquilo, tá ligado? Particularmente, eu acredito muito nas pessoas, que elas podem mudar, melhorar e sempre ver o mundo de uma perspectiva diferente, de uma forma mais justa pra todo mundo.

 

INSIDE A5: O ato expandiu para o Brasil todo, como tem funcionado essa rede de pessoas do Hardcore contra o Fascismo?
Edi: Sim tem rolado em outras cidades e isso é muito legal e que siga assim, compartilhando essa idéia de resistir.

Favela: Nós não somos donos de nada. Se você parar para pensar, não estamos inventando nada novo. Quem nos procura para fazer o evento na sua cidade, basicamente, a gente oferece a estrutura mínima, desde que as pessoas queiram seguir meio que o nosso “molde” de evento (não fazer por grana, tentar fazer ocupando um local público, com posicionamento político, que não seja só um simples show de música, etc.). Aí a gente ajuda com o lance das artes, alguma orientação geral de evento, tratamento com a polícia, essas coisas. É o que falamos para todo mundo: não tem segredo, qualquer um consegue fazer. E é isso mesmo que queremos. Anarquia é organização.

Fogaça: Fico feliz em ver que em muitas partes do Brasil existem pessoas gritando contra o fascismo, que essa centelha só cresça.

 

INSIDE A5: Como encorajar as pessoas a buscarem mudanças nesses tempos onde parece que já não existe mais esperança de luz no fim do túnel?
Favela: Essa é realmente difícil de responder. Falando por mim, como eu já disse e costumo dizer, nunca foi fácil. Sempre fomos os fudidos, os pobres, os excluídos, os maus exemplos, que nunca tiveram esperança nem perspectiva de mudança. Então meio que não mudou nada, né? Continuamos sendo a resistência, sabe-se lá por quê. Eu continuo acreditando que as pessoas podem mudar, que vão conseguir reconhecer a força que o povo unido possui. Tenho essa esperança, talvez isso que faça eu continuar por tanto tempo no punk. E tento passar essa caminhada para que as pessoas, assim como eu, apesar de tudo, não perderem as esperanças.

Fogaça: Como o Favela falou, nunca foi fácil e sinceramente é difícil afirmar que um dia será, mas ao mesmo tempo não podemos esquecer que muita gente lutou, derramou sangue e fez muita coisa para conseguirmos ter o pouco de liberdade e direitos que temos conquistados. Tudo que nós tem é nós, então nada mais justo do que lutamos por dias melhores para esse “nós” do presente/futuro.

Edi: Acho importante também que as pessoas inseridas no punk ou em algum movimento de esquerda, entenda que precisamos de mais diálogo entre nós, e que as vezes deixamos de construir coisas importantes, por questões que com diálogo resolveria, é preciso pensar que hoje ser homofóbico, racista, machista tem aval do Presidente, o que já era difícil, agora está pior, enquanto o foco não ser a mudança não iremos vencer essa etapa difícil nunca, e o essa onda de preconceitos só vai cada dia crescer mais.

 

INSIDE A5: Quais os planos futuros? Novos atos, rodas de conversas, ações?
Edi: Minha vontade desde o início era ir além, fazer outras coisas até sem música, tentando fazer um papel que infelizmente o estado não vai fazer, porém estamos todos vivendo momentos complicados, pois está tudo pior, isso implica em trabalhar mais, ter menos tempo pois precisamos sobreviver, por isso os coletivos são importantes, para nos apoiar e produzir em grupo, um ajudando o outro.

Favela: Dia 01/12/2019 tem um novo ato aqui em São Paulo, com tudo o que sempre tentamos colocar: música, debates, palestras, silk screen, rango vegan, etc. Particularmente, eu gostaria de rolassem mais coisas, mas é complicadíssimo fazer. Precisamos de mais pessoas bem-intencionadas, dispostas a ajudar e que tenham tempo pra isso.

 

INSIDE A5: Considerações finais:
Edi: Que seja apenas o início de uma nova caminhada, para seguir firme nesses próximos anos, e cada vez mais focando em mudanças, deve ser o foco, alertar seu parente, seu amigo, com calma e sem radicalismo, podemos construir muitas coisa juntos.

Favela: Eu enxergo o Hardcore Contra o Fascismo como uma fagulha, uma centelha, tá ligado? Gostaria muito que as pessoas também conseguissem enxergar isso, mas dando a sua contribuição para que tudo pegue fogo. Como? Cada um fazendo sua parte: conversando com a família, com os amigos, com os idiotas do trabalho, fazendo um evento, montando um coletivo, apoiando as outras iniciativas, as bandas, etc. Pode parecer pouco, mas se cada um fizer sua parte, fica mais fácil suportar a vida e combater essas fascistas de merda que estão tentando tomar de assalto o que deveria ser nosso.
Obrigado pelo espaço. É legal que as pessoas ainda não tenham perdido as esperanças e gastem o seu tempo e esforço pra fazer algo legal, que pode mudar a vida das pessoas. Parabéns por esse trampo que vocês fazem, além de todos os outros.

Fogaça: Gostaria de ver novos atos pelo Brasil todo, independente se for Hardcore contra o Fascismo ou o qual nome/estilo musical for. Se posicionar, estudar e ajudar passar informações nunca se fez tão importantes, se organizem com suas amizades e vão para jogo! Muita força a todo mundo que luta contra o fascismo diariamente!

 

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