Fase que não passa: 20 anos de Good Intentions

Fortes, convictos e determinados até o fim! Mais de 20 anos da lendária banda Straight Edge, Good Intentions.

 

INSIDE A5: Muita coisa mudou de 20 anos pra cá, como é conseguir manter uma ideia por tanto tempo, existe algum segredo para todo esse tempo de vida da banda?
Fausto Oi: Acho que, se os temas, as ideias continuam relevantes para nós, a gente sente vontade de continuar falando sobre elas. Todos os dias acordo e as coisas que eu acredito fazem sentido pra mim, e creio que para os outros caras também. Não que o que a gente cante e acredita sirva para todo mundo, e que não aprendemos coisas novas, pelo contrário, sempre temos que nos manter abertos para conhecer novas ideias, trocar. Mas a essência de contracultura, faça você mesmo, ideais políticos da nossa base continuam ali e se renovando sempre.

 

INSIDE A5: Vocês lançaram recentemente um novo EP, intitulado de “Good Intentions”, nos conte um pouco mais sobre ele. Sobre o que tratam as músicas?
Fausto Oi: As músicas desse EP são da mesma sessão de gravação do “Enquanto Houver”. Ele demorou muito para sair. As músicas quase saíram em um split, porém não deu certo. Ainda bem que rolou de lançar neste ano, comemorando os 20 anos da banda.

KBL: São 3 músicas inéditas em inglês e 2 em português que foram lançadas como pré no passado e que já foram até tocadas em shows, porém no EP estão melhor gravadas do que nessa época. As baterias foram gravadas no estúdio Pucci pelo Henrique Pucci e baixo, guitarras e vozes no estúdio Rock Together, onde foi mixado pelo Otávio “Boi” Cavalheiro. A masterização foi feita pelo Thiago Munhoz (MC e Produtor – fez parte dos grupos Ascendência Mista e Contra Fluxo), que é conhecido do André.
Sobre as letras, o André seria a pessoa mais apropriada para explicar, mas podemos resumir um pouco. Em “It’s Our Time” trata sobre insistir no que acreditamos, pois todo tempo é nosso tempo, nunca podemos parar; “Dias de Glória” possui um tom de nostalgia, fala sobre momentos que vivemos e que ficaram para sempre marcados na memória, para que possamos revisitá-los sempre que quisermos, nos lembrando de cada detalhe que nos emocionaram. E fala também sobre escolhas, que fazemos a todo tempo em nossas vidas e que, por vezes, o que está ao redor não nos acompanham; Em “I Won’t Stop” trata sobre a exploração de animais que nunca pára e justamente por isso nós também não podemos parar, seja com o ato de ser vegan e/ou com ativismos em relação a isso; “Inspire Me” fala sobre reflexões, olhar para dentro de si e ser quem realmente somos, não nos escondermos, sobre ser inspirado e inspirar alguém a algo; E em “Novela” trata-se quase de um relato sobre o que acontecem em vários lares no mundo todo. Como o efeito do álcool é nocivo, como ele potencializa a violência, seja ela doméstica ou não, pois o impacto reflete a todos que estão a sua volta, desde as mulheres até as crianças que nem o consomem. Uma droga legalizada que as pessoas aceitam e que até rompe com o discurso delas mesmas. O álcool é contrário a vários ideais, e nem encaramos isso como um discurso conservador, e sim reflexivo.

 

Foto por: Wander William

INSIDE A5: Porque ser Straight Edge? O que mantém a banda envolvida com a filosofia?
KBL: Faz parte da sociedade as pessoas se assumirem com determinadas identidades. Se existe um “por quê”, acho que é isso, é sobre identificação. Cada um se identificou com o sxe por algum motivo. Mas também acho que isso tem que ser algo natural pra pessoa. É algo que faz parte de mim, por exemplo, independente de banda, identidade (contra)cultural ou qualquer outra coisa. No caso da banda, acho que foi um dos propósitos de unir as pessoas com ideias semelhantes a formá-la, não estava no começo mas pelo menos foi assim com outras bandas que toquei. E até hoje, é uma das coisas que me motiva a falar a respeito, embora tenham coisas mais urgentes a serem ditas.

Fausto Oi: O Straight Edge é muito importante para mim. Mudou a minha vida, me fez sentir aceito dentro de uma cena que eu achava que precisava beber e fumar para curtir aquele tipo de som e cultura. Mas eu não preciso, não precisamos! Podemos fazer música punk/hardcore sendo “drug free”. E isso não significa que ser Straight Edge é estar acima ou abaixo de qualquer outra pessoa, mas é uma opção, uma escolha de vida, e tudo bem! Engraçado como algumas pessoas no passado achavam um absurdo a pessoa ser SXE e se ofendiam, parecia que isso incomodava a ponto de te desrespeitar. Em nossos shows colam pessoas que são e outras que não são, e isso é demais, pois não queremos que as nossas ideias fiquem restritas para um nicho. Nossas escolhas não devem ser um muro para trocarmos ideias e para as lutas em comum que são muito maiores.

 

INSIDE A5: O Veganismo está presente também com a banda, como é levar essa mensagem junto com o Hardcore? em tempos onde grandes empresas têm investido cada vez mais como nicho de negócio, etc.
Fausto Oi: Sim, realmente grandes empresas têm visto o veganismo como nicho de mercado, porém para nós ser vegans é e vai continuar sendo uma forma de protesto, lutar por quem não tem voz. Esperamos que as pessoas que tenham contato com o veganismo como uma visão de dieta, como algo que está em evidência, se aprofunde mais e entenda mais a fundo esse conceito.
André Vieland: Me recordo de pegar alguns fanzines em shows no final dos anos 90 e ver algumas informações sobre veganismo e pensar: “é isso que faz sentido pra mim!”.
O hardcore trouxe pra minha vida questionamentos que mudaram definitivamente minha vida pois faziam sentido. O veganismo, com uma visão política e também como uma peça de mudança fez com que minha vida profissional mudasse para eu viver de algo que efetivamente acredito, e hoje posso e mostro para as pessoas possibilidades. Que podemos mudar nossas vidas sem explorar animais e consequentemente sem apoiar e financiar uma indústria que explora, escraviza, devasta, corrompe, danifica sempre em busca de mais lucro.

 

INSIDE A5: Vocês pertenceram a diversas fases do Hardcore em São Paulo até atualmente, que mudanças positivas e negativas você enxergam nesse cenário?
Fausto Oi: Teve uma época que os shows ficavam lotados, muita gente aparecendo mesmo. Talvez essas pessoas não curtam mais ir nos rolês, ou estão fazendo outras coisas. Talvez nem curtam mais esse tipo de música e cultura, mas, se de alguma forma algo da época que elas viveram nesse meio trouxe alguma mudança pra elas, já é válido. Tem gente que não cola mais em shows e não curte mais o tipo de som mas se tornaram vegetarianas ou veganas por conta de bandas que cantavam sobre isso, ou por causa da Verdurada e outros eventos.
André Vieland: Penso que a facilidade que hoje temos de consumir e produzir conteúdos fez com que tornássemos acomodados em muitas situações e vejo que por algum tempo um vazio de questionamentos surgiu e eu via apenas música por música. Mas é isso, o momento que vivemos no país refletiu em nós e novamente vejo muita música questionadora e com conteúdo de qualidade sendo feita. Que assim siga!

Que o hardcore volte a mudar vidas como mudou a minha.

 

INSIDE A5: O que vocês acham sobre a legalização das drogas?
Felipe Saluti: Acreditamos que a legalização das drogas é um importante passo para a descriminalização do usuário e um primeiro momento para o debate a respeito das relações entre produção, distribuição e consumo de drogas em nossa sociedade. Em geral, por um lado, muitas drogas sintéticas foram a princípio produzidas em grandes laboratórios de pesquisa e são hoje um grande negócio a parte da economia formal, ao legalizar as drogas, e estou sendo radical é preciso legalizar todas elas, um dos elementos a serem debatidos é a forma pela qual ela será produzida e distribuída no mercado legal que não envolve o tráfico e uma cadeia de violência que se inicia na produção dessas substâncias e envolve relações de trabalho mal ou não remunerados submetidos a uma exploração sem igual no mercado formal. Por outro lado, existem drogas legais e essas não são questionadas, são naturalizadas em nossa vida cotidiana, a título de exemplo podemos citar o álcool e a inúmeros “remédios” psiquiátricos que bombardeiam as casas de todos, talvez o caso brasileiro o rivotril seja o melhor adágio, o uso intensivo dos mesmos esconde um problema social mais amplo. Aliás, o mercado de drogas, mesmo o informal, está associado às condições materiais de existência dos indivíduos, ou seja, as condições econômico-financeira das famílias, e isso já foi sentido a muito tempo pelo tráfico organizado e suas arregimentações, o efeito disso é a oscilação do preço das drogas que cria um mercado segmentado em classes sociais e a produção de produtos novos extremamente perigosos, um parâmetro é a relação entre crack e cocaína; no mesmo diapasão existem determinadas substâncias cujo uso não é tão nocivo como se propagou e podem ser utilizadas em importantes tratamentos específicos, como é caso da maconha e tantas outras substâncias.
O que queremos dizer é: uso de drogas ultrapassa a dimensão legal de sua proibição, é preciso identificar as causas sociais e as razões históricas que levam ao uso indiscriminado de determinados produtos, o uso de drogas, principalmente em demasia, reflete determinada condição social e formação dos indivíduos, portanto, o uso de substâncias nocivas a nossa razão ou saúde deve ser enfrentado no conjunto ou complexo de fatores que envolve as nossas vidas nas grandes cidades, a ausência ou a mercantilização de atividades de lazer e cultura, a falta de atividades coletivas e lúdicas para os jovens, o problema da falta de perspectiva em relação ao emprego e a estabilidade financeira; junta-se à isso o mercado ilegal de drogas como fomentador de gerações que ligadas ao crime como promessa de um futuro de lucros e glórias.
Acreditamos que a droga em si não é um problema, mas a forma social que ela assume em nossas vidas, além disso, cabe a cada um escolher se quer ou necessita usar drogas para determinadas atividades do cotidiano e qual o seu efeito em relação a totalidade de sua vida.

 

INSIDE A5: Que livros|filmes|séries|podcasts|documentários|bandas vocês indicam para quem está lendo essa entrevista?
Felipe Saluti: Entre os livros que mais instiga gerações na oposição ao obscurantismo dos dias de hoje, embora com alguns problemas, é a análise de Carl Sagan sobre os problemas do misticismo e da pseudociência na sociedade intitulado “O mundo assombrado por demônios”. Sobre as nossa realidade latino-americana e que explica no contexto social atual é a obra “Neoliberalismo, Neodesenvolvimentismo e Socialismos” do geógrafo argentino Claudio Katz. Talvez um livro de cabeceira para todos aqueles que queiram entender de nossa história seja o já clássico “Veias Abertas da América Latina” de Eduardo Galeano.

Fausto Oi: Tenho ouvido muito o podcast Seita Macabra, que tem uma série de entrevistas bem divertidas com uma galera bem legal.

KBL: Acompanho alguns canais do YouTube (alguns tem podcast/site também) quando posso, as vezes assistindo, ouvindo ou lendo. Posso citar alguns.
Sobre política: TV Boitempo, CartaCapital, Tese Onze, Bob Fernandes, Ahí les Va.
Sobre música acompanho: Amoeba, hate5six, Instrumental Sesc Brasil, KEXP, NPR Music, Mass Appeal, Merge Records, Revelation Records, AV Club Undercover, Programa Freestyle, Manos e Minas, Bateração, Drumtalk, Drumeo, Sounds Like Us, Do it Yourcast e Inside A5.
Relacionados a skate: Transworld Skateboarding, ThrasherMagazine, The Berrics, Krooked Skateboarding, BS with TG, The Nine Club, CemporcentoSkate, Black Media, 55VM.
Alguns artistas/designers/coletivos de arte que acompanho/curto: Contemporary Bart, Chris B. Murray, Estúdio Miopia, Rubrica, Leo Vilas, Alexandre “Crucial” Kool, DiogoDVS, gzäs, Camixvx, Leo Augusto. Gosto também dos clicks dos fotógrafos Wander Willian (Deco), Maurício Santana, Yuri Nieto, Jaíne Rodrigues, Dani Moreira, Dhyego Xinxilah.
Algumas bandas que tenho escutado nos últimos tempos: Understand, Intervenção, Avante, Camaradas, Bastardo, A Sangue Frio, War Inside, Make it Stop, Time and Distance – aqui do brasa. Change, Line of Sight, Bystander, Praise, Red Death, Power Trip, World Be Free, Constant Elevation – gringas. Sem ser punk/hc tenho escutado Newen Afrobeat, Slum Village, Common, Nas, A Tribe Called Quest, De La Soul e discos que o J.Dilla produziu. Tentei citar mais coisas novas do que velhas.

André Vieland:
Livros: Ecofascismo – Uma Coletânea – João Bernardo/ Willians Gilis/ Carlos Taibo – Editora Subta. Inflamando Pensamentos Insurgentes no Gueto – Rodrigo Ktarse – Literatura Incendiária Combativa. Da democracia à Liberdade – A diferença entre governo e autodeterminação – crimethinc.com. Combater o machismo para unir a classe – Mariúcha Fontana – Sundermann. Bela Baderna – Ferramentas para a Revolução – Andrew Boyd / Dave Oswald Mitchell – Edições Ideal. Ideias para adiar o fim do mundo – Ailton Krenak – Companhia das Letras. Capitalismo e o colapso ambiental – luis marques – Editora Unicamp. Sintomas Mórbidos – Sabrina Fernandes – Autonomia Literária.

Podcast: do it yourcast, teologia de boteco, anticast, outras mamas, esquizofrenoias, tese onze e armas da crítica.

Bandas nacionais: War Inside, Time and Distance, Horace Green, O Inimigo, Dead Fish, Zander, Mais que Palavras, Understand, Radical Karma, Make It Stop, Rastilho, tuNa, Deserdados, Flicts, Skamoondongos, Cólera, Kamau, Elo da Corrente, Rodrigo Ogi, Nego Max, Djonga, Eloy Polemico, Black Alien, Tetriz, Gog, Nação Zumbi.

Bandas gringas: Change hardcore, Constant Elevation, Mainstrike, Fury, Protein, Good Riddance, Iron Chic, Tender Defender, Beach Rats, Strike Anywhere, No Trigger e The Casting Out.

 

INSIDE A5: O que planejam para os próximos semestres? Podemos esperar novos materiais, tours, merchs . . . o que podem adiantar?
KBL: Em abril tocaremos no sul: dia 4 em Floripa (onde a banda nunca tocou) e 5 em Curitiba (2020). Logo saem as informações desses shows. Saiu agora nas plataformas o EP com uns sons inéditos, estamos produzindo um videoclipe para uma das músicas (Dias de Glória). Acabamos de gravar o show especial de 20 anos, agora teremos o processo de edição de imagens/áudio, e assim que ficarem prontos, planejamos já soltar nas redes (plataformas de streaming). Temos uns modelos de camisetas novos, que saíram nesse show comemorativo e estão sendo vendidas via internet também, só entrar em contato via direct do instagram. Estamos gravando o documentário da banda, que surgiu espontaneamente a ideia, inclusive com você (Felipe Fogaça), que ta nos corres desses materiais e que logo começará a ser editado com ajuda de amigos. Quando estiver finalizado, pensamos em fazer algumas exibições do doc em alguns lugares/cidades, podendo ser seguido de um show da banda. Estamos pensando como fazer a exibição e vendo a possibilidade de inscrevê-lo em algum festival, tipo o In-Edit (festival internacional sobre documentários musicais). Acho que é isso, a banda está se organizando, esses dois projetos (show de 20 anos e Documentário) são importantes porque marcam um período da banda, de passado e presente. E esse ano queremos compor umas músicas com calma, já temos uns esboços de sons, para gravar algo com essa formação e lançar futuramente, em material físico até, se rolar.

 

Foto por: Yuri Nieto

INSIDE A5: Considerações finais:
Good Intentions: Obrigado Inside A5 e Felipe Fogaça pelo interesse em nos entrevistar e por se manter sempre ativo no que se propõe a fazer. Achamos muito válido essas ações, sejam elas entrevistas, zines e cartazes que são produzidos e eventos organizados em suas cidades. Acreditamos que ainda são boas formas de propagar ideias e que alguém sempre será impactado por elas. Mentes sóbrias são mentes perigosas.

 

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