Boca de Lobo- Jundiaí

Relatos do lado esquecido do Cecap, Boca de Lobo

Formado em 2013, em Jundiaí-SP, o Boca de Lobo mescla Hardcore Punk e Thrash Metal. Com muito peso e letras que abordam temas socioculturais e vivências dos próprios integrantes, o Boca de Lobo possui dois registros: Demo (2015) e Relatos do Lado Esquecido EP (2019).

 

INSIDE A5: O que mudou na vida de vocês de 2013 para cá desde que começaram a banda? O que esses anos de estrada somou para a vida pessoal de vocês?
Mateus Cappuccelli: De 2013 para cá aprendemos demais em todos os aspectos, desde convivência entre amigos – que há altos e baixos – até conhecimentos técnicos envolvendo música, digamos assim. Em nossas reuniões sempre enfatizamos o momento em que estamos vivendo e o que já passamos. É uma avaliação necessária para que possamos alinhar as ações futuras, as atividades e tudo mais. No caso da vida pessoal, a estrada nos instruiu – e instrui – a ser mais organizados, mais unidos nas decisões.

INSIDE A5: Vocês lançaram em 2019 o “Relatos do Lado Esquecido”, como foi o processo de composição e gravação? Do que as letras falam?
Cassiano Biaggio: Foi simples e direto. Como estávamos desde a Demo, de 2015, sem lançar nada e nosso álbum estava em processo inicial de gravação, sentimos a necessidade de lançar algo para não ficar no silêncio absoluto. Resolvemos fazer uma gravação ao vivo, como faziam nos anos 80, e o resultado foi além do que esperávamos. A galera curtiu bastante, pois pelo fato de ter sido gravado no esquema “diretão”, o material trouxe aquela energia dos shows.

Raul Fernandes: Sem contar que tudo foi feito naquele esquema do faça-você-mesmo. Arte na mão, recorte de fotos, gente que facilitou os impressos. E o que torna o material mais bacana é que além de lançarmos nas plataformas digitais, também disponibilizamos em CD e fita cassete. A galera curtiu demais.

Mateus Cappuccelli: Em relação ao conteúdo lírico de “Relatos…”, as letras giram em torno das nossas vidas. Temos momentos de alegria, de ódio, de diversão, de reflexão. O Boca de Lobo é tudo isso. Temos “Lado Esquecido”, que expõe os impasses em que as pessoas que vivem nos subúrbios e favelas enfrentam todo santo dia, e também temos “Jurandyr”, que narra o nosso comportamento em uma van a caminho de um show fora de Jundiaí. (Risos)

 

Foto por: Valeska Barboza

INSIDE A5: Vocês são uma banda que também produzem shows e sempre fomentaram a cena da região de vocês, o quanto isso é importante para o Boca de Lobo?
Galiego Edge: Eu faço parte do coletivo Matinê Hardcore, ao lado do Samuel Nogueira (Against X Filé) e do Marco “Pipoca” Tadeu (Boçal). Acredito que a principal importância de se organizar um evento é de caráter coletivo. As bandas são contempladas, outros coletivos dialogam conosco, o público torna-se cada vez mais presente e quanto mais o público está presente, mais bandas surgem. Afinal, um público ativo forma bandas ativas.

Dentro de toda essa onda de coletividade proporcionada por esse fomento, o Boca de Lobo também é contemplado. Nós tocamos, nós auxiliamos, nós compartilhamos, criamos novas amizades e, principalmente, adquirimos conhecimento por meio de um intercâmbio cultural. Isso é demais!

 

INSIDE A5: O quanto a estrada é importante para vocês? Tem alguma história bizarra ou atípica que tenha acontecido?
Diego Martins: Tocar em diversos lugares é ótimo! A estrada nos trouxe grandes camaradas, grandes bandas e muita experiência também. Nunca fizemos viagens longas, fora de São Paulo. Mas nos caminhos que já percorremos tivemos experiências ótimas, outras nem tanto, o que é normal. A nossa intenção é continuar na correria e atingir o máximo possível de pessoas.

Sobre histórias, tivemos muitas. São aquelas bem típicas do underground. Uma que foi marcante foi quando tocamos em Atibaia, mal descemos da van para conhecer o local e os arredores e já tomamos enquadro da polícia. (risos) Suspeitamos de uma vizinha do local, uma senhorinha, que no momento do enquadro saiu da casa e ofereceu um cafezinho e um pãozinho para os policiais.

Uma ocasião que rendeu boas risadas foi quando tocamos em Sumaré. Na van, já estava uma bagunça. Quando chegamos lá, o motorista aumentou som e estava rolando Cindy Lauper, Stevie B., algo assim. Nós e nossos amigos e amigas descemos da van dançando, e a galera olhou de um jeito tipo “qual que é dessa galera!?”. Só risada. O rolê foi muito engraçado.

 

Foto por: Valeska Barboza

INSIDE A5: O que o interior tem de diferente das grandes capitais?
Mateus Cappuccelli: Tocar na capital, em São Paulo no nosso caso, dá visibilidade, e mostra a presença da banda no circuito. Mas é aquilo, na metrópole tudo acontece ao mesmo tempo, principalmente na área central. Muitos eventos na mesma data, e isso acaba impactando um pouco na presença do público.
No interior é diferente, o modo de organizar é pensado para que possa aglutinar o maior número de pessoas possível. Não há muitos atropelamentos de datas, e isso favorece o cenário como um todo. Todo mundo marca presença em um evento, não há divisão. Os organizadores dialogam e fazem eventos em datas diferentes. No final, o resultado é muito bom.

 

INSIDE A5: O quanto a política está envolvida com a música para vocês? Isso impacta de alguma forma na música? O que podemos fazer para ajudar?
Galiego Edge: Sempre gostei de política. Atualmente eu trabalho com comunicação na esfera sindical/trabalhista, então a política faz parte do meu dia a dia. Muitas situações que vejo na rotina de trabalho me servem de inspiração para compor algo, ao até mesmo para debater com a galera da banda. E para expor toda essa carga de informações, nada melhor que a música, afinal, ela é uma linguagem que facilita o entendimento de complexidades.

 

INSIDE A5: Que livros|filmes|séries|documentários|bandas vocês indicam para quem está lendo essa entrevista?
Galiego Edge: Livros, indico O Significado do Protesto Negro (Florestan Fernandes), O Lucro ou as Pessoas? (Noam Chomsky) e O Estado de Narciso (Eugênio Bucci). Filmes, indico Pixote – a lei do mais fraco (Hector Babenco), Carandirú (Hector Babenco) e Terra em Transe (Glauber Rocha). Documentários, indico Conservadorismo em Foco (Arthur Moura e Felipe Xavier) e Nós Que Aqui Estamos, Por Vós Esperamos (Marcelo Masagão). Bandas e músicos, indico The Flex, Arms Race, Pure Disgust, Foreseen, Power Trip, War X Inside, Bioma, Clandestinas, No Deal, CÄBRÄ, MUFA, Cerberus Attack, Fim da Aurora, Facing Death, niLL, Yung Buda e Nikito.

Cassiano Biaggio: Os dois últimos livros que li são ótimos. Anarquia e Anarquismo (Errico Malatesta) e Saturno nos Trópicos: A Melancolia Européia chega ao Brasil (Moacyr Scliar).
A minha indicação de filme é O Diabo era Mais em Baixo (Manu Maltez). Também indico as produções “western” de Sergio Leone.
Indicação de bandas vai Dinohorse, Corehum, Doomslang, Sisko, Riffcoven, Urutu, Corrosivo420, Tosca e Karina Buhr.

INSIDE A5: Quais são os planos para os próximos semestres da banda?
Raul Fernandes: A nosso foco está totalmente voltado para a finalização do álbum, já estamos na reta final e logo mais tem novidade. E claro, fazer o maior número possível de shows em diferentes locais.

INSIDE A5: Mensagem final …
Galiego Edge: Marquem presença nos eventos, formem bandas e não tolerem intolerantes.

 

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