Blackjaw entrevista

Novos horizontes musicais do Blackjaw

11 anos de estrada, centenas de shows na bagagem e um ímpeto incessante de fazer música, debater ideias e influenciar positivamente a vida das pessoas. Em constante evolução, o Blackjaw apresenta nova formação, novos horizontes musicais e melodias cada vez mais marcantes.

 

INSIDE A5: O que mudou na vida de vocês de 2009 para cá desde que começaram a banda? Continuam sendo @s melhores dançarin@s?
Ravi Fernandes: Em 2019 a banda completou dez anos de estrada e, olhando pra trás, vendo onde tudo começou, me parece um universo completamente distinto, o que eu enxergo de maneira bastante natural. A experiência da estrada, a evolução dos processos criativos, as incontáveis pessoas incríveis que conhecemos pelo caminho, as dificuldades, as conquistas, e o tempo como um todo moldaram uma nova versão da banda, e eu acho incrível essa transformação. Muitos valores permanecem intactos como, por exemplo, fazer o som que gostamos, seguindo sempre a vontade do momento; construir laços, passar adiante mensagens que encorajem as pessoas a serem melhores a cada dia. Seguimos fiéis a isso e ainda somos, sim, os melhores dançarinos e dançarina! E assim seremos enquanto nossas articulações permitirem (risos).

INSIDE A5: A banda passou por algumas mudanças de formação, no que isso impacta no som da banda?
Daniela Gumiero: Quase tudo (risos). Por mais que a essência e intenção permaneçam, naturalmente o som se transforma e cada integrante agrega diferentes elementos e influências. No momento, são vários universos musicais se alinhando, aos poucos. Tem sido um baita aprendizado! Estamos experimentando mais e nisso, muita coisa legal tem saído. Sonoridades mais soltas, leves, inesperadas mas sem perder a empolgação característica da banda. Esperamos que seja tão agradável e surpreendente pra quem ouve, assim como tem sido pra nós. Preparem-se pra dançar!

 

INSIDE A5: Vocês lançaram recentemente o single “Doors”, nos conte um pouco a respeito da música.
Ravi Fernandes: ‘Doors’ fala sobre a dor dos ciclos que se encerram, da incerteza dos que recomeçam, e de como lidamos com essas angústias e sensações. Experimentamos coisas novas nas harmonias e nos envolvemos muito no processo de composição desse som. Gravamos o instrumental dessa canção através do projeto ‘Experiência Family Mob’, em São Paulo, onde fomos muitíssimo bem acolhidos pelo estúdio. As vozes foram gravadas em Santos com o Ivan Pellicciotti, que já assinou muitos trabalhos do Blackjaw, e a mixagem e masterização ficaram por conta do Nando Bassetto (Garage Fuzz), com quem já trabalhamos muitas vezes também e temos ótima relação. A arte ficou por conta do grande Estúdio Miopia. A repercussão foi a melhor possível, beirando os 10.000 plays em apenas dois meses. Ficamos felizes demais com os frutos de todo o trabalho envolvendo esse lançamento e gratos por sempre trabalharmos com pessoas que contribuem demais para o resultado final.

INSIDE A5: O quanto a estrada é importante para vocês? Tem alguma história bizarra ou atípica que tenha acontecido?
Ravi Fernandes: Somos uma banda que ama a estrada, afinal, é ela quem dá todo o sentido à coisa. A gente se nutre das experiências, das histórias, dos lugares e pessoas que conhecemos, e dos laços que construímos. E eu sou muito grato por tudo o que vivemoms tocando numa banda, pegando a estrada rumo ao desconhecido e espalhando um pouco do que temos pra falar e mostrar. Me sinto conectado com diversos lugares e devo isso à vivência adquirida na estrada. A gente passa muito perrengue, dói, mas através deles nos tornamos mais fortes e no final das contas o saldo é sempre muito positivo.

Não é, necessariamente, uma história bizarra, tampouco atípica porque as viagens são sempre cheias de emoção e situações curiosass, mas, lembro-me, em 2018, no dia em que participamos do ato ‘Hardcore Contra o Fascismo’ no Rio de Janeiro, estávamos na maior correria, alguns de nós saímos do trabalho, mal nos alimentamos, e já pegamos a estrada com o mínimo de hesitação que conseguimos para que pudéssemos chegar ao local do ato o quanto antes. Em determinado momento, no meio do caminho pela Dutra, enfrentamos um severo congestionamento decorrente de um acidente grave que havia ocorrido há pouco. A gente ficou bem preocupado porque estávamos com o tempo apertado para chegarmos no horário planejado. Após um bom período bloqueados na estrada, seguimos viagem sem nenhuma parada, naquela adrenalina de não saber se chegaríamos a tempo de nos apresentar ou não até que, enfim, estávamos na Penha, onde estava acontecendo o ato. Respiramos um pouco, subimos ao palco e reafirmamos nosso posicionamento contra a onda reacionária que ascende em nosso país pregando ódio às minorias, atacando as liberdades individuais e tentando destruir qualquer resquício de senso crítico nos cidadãos. Foi intenso, encontramos amigos, debatemos ideias, e vimos ótimas bandas em um ato muito bem sucedido. Saímos do ato e fomos à Niterói, cidade onde moram nossos amigos Felipe e Luciana, que nos hospedaram naquela ocasião. Após nós, finalmente, conseguirmos fazer uma refeição, encostamos num baile funk que acontecia ali perto. Um rolê bem diferente do ato, mas com uma atmosfera que também se opunha ao candidato de extrema direita que hoje, desoladoramente, preside o Brasil. E isso foi muito significativo, estar lá e ver as pessoas, em sua grande maioria jovens, se divertindo e entoando gritos fervorosos de repúdio ao candidato fascista. Um ambiente distinto do que estávamos horas antes, mas que também reconhecia seu inimigo, nos fez ter esperança de que dias menos sombrios virão. Dia corrido, que exigiu muita energia da gente, mas extremamente recompensador, foi especialmente marcante, dentre muitos dias marcantes, na nossa trajetória recente na estrada.

 

INSIDE A5: Santos, a Califórnia brasileira influenciou/influencia de qual forma na banda? Como tem sido a cena do litoral?
Sérgio Junior: Não sei se respondo por nós 5, mas eu cresci indo a shows do Garage Fuzz, Social Resistência, escutando 100 Ilusões, Sociedade Armada, as minas do Anti-Corpos, Same Flann Choice.
É uma porrada de banda que admiro pela trajetória, e eu acredito muito que essa galera foi em parte responsável por preparar o terreno pro Blackjaw e tantas outras bandas contemporâneas. Sem contar inúmeros shows internacionais que chegaram a Santos, mesmo a cidade fazendo parte do litoral / interior.
Apesar de tocar em mais duas bandas da Baixada (Circvlo e Contradição Arkana), moro em São Paulo faz 8 anos, então não tenho acompanhado de perto a cena santista pra lançar uma opinião sólida.
Mas o que eu tenho observado é o seguinte: tem várias banda de som próprio, não só de Hardcore, e pouco espaço pra som autoral. Tem o Jamel (Guarujá), Full Rise Arte (Praia Grande), Lobo Studio, Mr. Dantas (Santos), The New Custom (São Vicente) que às vezes faz alguns rolês, mas muitos acabam fechando as portas, como o Boteco Valongo em dezembro passado, e tantos outros com o passar dos anos – porque o esquema se torna insustentável. Quem consegue fazer é sempre a duras penas.
Acredito que o momento político atual do país, de perda de direitos sociais, censura ao livre pensamento e boicote da classe artística também contribui para um ainda maior esvaziamento do cenário musical underground. Ainda falando de Baixada Santista: 68% da população local votou em um presidente ultradireitista em 2018 – parte elite conservadora, outra do pobre oprimido. Vejo um alinhamento estreito desse público com o governo autoritário, ao buscar cultura como entretenimento esvaziado de questionamentos, arte obrigatoriamente ligada a valores reacionários, e por aí vai.
Entendo o caminho do artista independente como uma luta contínua que exige persistência e mais organização do que temos atualmente, pra que a mensagem continue sendo passada. Não temos tempo de parar o corre por causa de pequenezas como tretas pessoais, que devem sim ser resolvidas, mas individualmente. O avanço enquanto coletivo é mais importante e necessário. O inimigo sempre foi outro.

 

INSIDE A5: O que vocês indicam para quem está lendo essa entrevista? (livros, filmes, bandas, documentários, etc)
Juliano Amaral: De livro eu indico ‘Guerra do Velho’ e ‘Orador dos Mortos’, são livros de sci-fi bem cabeçudos, aqueles pra gente ler e ficar refletindo depois. Os últimos filmes legais que vi foram ‘Dois Papas’ e ‘Coringa’, mas eu também indicaria ‘1917’, puta de um filme de Primeira Guerra, muito bem feito e com uma bela história. De sons eu ando ouvindo muito Alfa Mist e Snarky Puppy, que é uma pegada Neo Jazz, som fino para gente elegante, mas também indico o AmarElo do Emicida, impossível de ouvir e não ter um grande dia. Agora sobre docs eu indico ‘Privacidade Hackeada’, documentário que mostra como o processo eleitoral dos EUA fora influenciado; ‘Dieta de Gladiador’, que aborda uma dieta vegana em atletas de alto rendimento e, pra finalizar,‘Mercedes Sosa: La voz de Latinamerica’ e What Happend, Miss Simone?’, dois documentários que contam as historias de duas artistas que eu admiro muito: Mercedes Sosa e Nina Simone.

 

INSIDE A5: Vocês sempre tiveram um elo forte com o interior de São Paulo, o que acham do cenário do interior?
Ravi Fernandes: Somos apaixonados pelo cenário do interior de São Paulo. É impressionante ver a enorme quantidade de bandas relevantes, coletivos, e pessoas interessadas, engajadas e produzindo material. Não vamos citar nomes pra não sermos injustos, mas sempre fomos muitíssimos bem acolhidos e construímos um vínculo muito forte com os amigos que fizemos durante nossas inúmeras passagens por diversas cidades do interior. A galera se mobiliza de uma forma ímpar pra organizar os shows e movimentar o cenário local. É de verdade, é sincero, e isso tem que ser valorizado. O interior de São Paulo é referência. Máximo respeito e admiração pelo corre dessas pessoas.

 

INSIDE A5: O que podemos aguardar para o futuro do Blackjaw? O que podem nos dar de spoiler que está por vir?
Ravi Fernandes: A gente vem compondo músicas novas e planejamos gravá-las nos próximos meses. Temos procurado dar uma maior amplitude ao som, experimentando coisas diferentes, explorando ao máximo a singularidade criativa de cada um, e o resultado tem sido incrivelmente surpreendente. Dá vontade de falar mais coisas sobre os sons, mas temos que segurar os spoilers (risos). Estamos marcando uma série de shows também, paralelamente ao processo de composição. Quem acompanha a banda pode ter certeza que vem um material muito consistente por aí.

 

INSIDE A5: Considerações finais …
Ravi Fernandes: A gente agradece demais o espaço e o interesse no Blackjaw. É sempre muito motivador quando vemos pessoas produzindo material, shows, dando suporte às bandas e impulsionando o cenário independente. Parabéns, Inside A5, e obrigado por resistirem! Obrigado também a todos e todas que nos encorajam. Em retribuição a gente promete continuar entregando sempre o nosso melhor. Vamos em frente!

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