Afonsinho | Futebol Político #1

Nesse mês de maio, comemoramos o dia do trabalhador, não do trabalho, por que quem move o mundo é à força do trabalhador, sem ele não há oficio, não há economia e muito menos produtos, mas aqui, venho falar sobre as relações de trabalho dentro do futebol e mais ainda, venho falar de Afonsinho, o primeiro jogador a ter passe livre no futebol brasileiro.

Afonso Celso Garcia Reis, mais conhecido como Afonsinho nasceu em Marília, no ano de 1947 atualmente trabalha como médico, profissão que se formou pós quatro linhas, era um meio amador de oficio, começando sua carreira no XV de Jaú, com 15 anos, aos 18 foi transferido pro Botafogo, clube o quão atingiu suas maiores glorias como esportista, levando campeonatos cariocas, Taça Brasil e Rio São Paulo.

Afonsinho foi emprestado para o Olaria em julho de 70, jogador já renomado, voltou de lá com barbas e cabelos longos, em plena ditadura militar, isso gerou uma espécie de inferno em sua vida, foi perseguido e até impedido de treinar, pois o visual era tido como agressivo e rebelde pelos conservadores da época, e o botafogo claramento sofria interferências externas da politica ditatorial.

Diante do que era considerada uma ameaça, o diretor de futebol Xisto Toniato e o técnico Mário Jorge Lobo Zagallo num dia o chamaram de canto e Zagallo proferiu a seguinte frase:

– “Você quer ser um “Che Guevara” ou faz parte de algum movimento hippie? Com essa barba e esse cabelo você parece mais um tocador de guitarra do que um jogador de futebol”.

O jogador além de ser suspenso da rotina do clube,  também não tinha a conivência da diretoria para deixa a agremiação, dessa forma, estava impedido de trabalhar e executar o seu oficio; jogar futebol.

Afonsinho então travou uma queda de braço junto a diretoria botafoguense, levando o seu caso ao STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) e depois de muitas audiências conseguiu ser o primeiro jogador brasileiro a ser dono do próprio passe. A mídia esportiva explorou muito esse fato, e estamos falando de 1970, há apenas cinquenta anos atrás e os jogadores ainda não eram considerados em suma maioria trabalhadores formais, só para refrescar a memoria o Brasil era Tri Campeão do Mundo nessa época.

Dentre muitas ideias encabeçadas por ele, a regulamentação da profissão de jogador de futebol, junto a criação de um sindicato forte que pudesse lutar pelos direitos da classe, foram as que mais tiveram consequências positivas dentro da história do esporte, podemos até dizer que movimentos como o “Bom Senso Futebol Clube” (Que pretendo falar em breve) trazido por Alex e Paulo André em 2013, sejam filhos de um insurgência dessa época, de lutas por direitos dos trabalhadores de uma determinada classe.

 

Em tempos de cifras milionárias em alguns casos, com superfaturamento de grandes estrelas, esquecemos que boa parte dos jogadores de séries B, C e D, são trabalhadores como quaisquer outros, tendo rendimentos tão baixos quanto os trabalhadores da indústria, o ponta pé de Afonsinho, liderando sua categoria, é um embrião do que representaria Dr. Sócrates Brasileiro e a democracia corinthiana. Contemporâneo de Pelé e tendo jogado em grandes equipes como Vasco, Flamengo, Santos e o próprio Botafogo, este talvez tenha sido um dos maiores de sua geração pela luta que travou em favor de seus colegas.

Nesse mês de maio, para nós amantes de futebol, Afonsinho é rei!

 

Texto por: Ricardo Huss

 

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