Lista – 5 Filmes sobre Relações de Trabalho no Brasil RecentePor: Marco Sartori

O cinema brasileiro vinha num dos seus melhores momentos em anos. Desde a retomada da produção em meados dos anos 90, foram em torno de 25 anos amadurecendo e chegando numa fase adulta próspera de temas e diversa em seu potencial. Bacarau (2019) é um marco que elevou o jogo com um cinema construído na base de referências e identidade nacional. Uma pena que daqui pra frente, com o desmonte da nossa ainda jovem e precária indústria cinematográfica, a produção sofrerá um baque bem forte.

Dentre os vários temas abordados nesses anos, vou destacar aqui um que me é bastante caro: as relações de trabalho. As nações imperialistas enxergam na força das mãos da população dos países subdesenvolvidos a sua maior fonte de riqueza, e vários cineastas se debruçam sobre esse tema para radiografar as nossas mazelas sociais. Acordos exploratórios entre empregado e patrão, a bestialização diante de funções desumanas, salários abaixo de um linha digna de sobrevivência, a informalidade. Fenômenos recentes advindos do processo neoliberal, como o processo de uberização de empregos, o coach e governos alinhados à essa política avançando e destruindo direitos trabalhistas. Selecionei 5 filmes nacionais com essa abordagem em comum, fitas políticas em sua essência e ótimos exercícios de reflexão sobre nossas condições atuais.

 

Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar (2019)

No sertão de Pernambuco, a cidade de Toritama se tornou o maior polo de produção de jeans do país. Famílias todas são envolvidas no processo de manufatura, garagens dão lugar a ateliês e o som da máquina de costura é uma sinfonia constante num trabalho que começa nos primeiros raios de sol e termina muito depois dele se pôr.

O diretor Marcelo Gomes narra as transformações da cidade que conheceu durante sua infância, em passagens com seu pai. Uma típica cidade do interior do Nordeste que se modificou totalmente diante do novo mercado emergente, na qual toda a economia gira em torno desse comércio, e todas as expectativas de trabalho se voltam para ele.

O filme revela um processo de autoexploração, em que cada uma das células de produção faz de tudo para alcançar os maiores números de peças fabricadas. Nessas microempresas onde não existe patrão, também não há espaço para direitos e horários de funcionamento. As condições para que as funções sejam exercidas também se modelam diante do trabalhador, pouco importando o calor dos galpões ampliado pelo clima ou a tinta do jeans que mancha suas peles.

A cidade se encarrega de todas as etapas do comércio, sendo que nos finais de semana o centro da cidade se torna uma feira livre destinada à venda e comercialização das peças. Compradores de diferentes partes do Estado e do país são atraídos até a cidadezinha e lotam suas ruas. De segunda a segunda, a cidade se desdobra sem descanso para atingir suas metas.

Dentro desse ciclo ininterrupto, sobra pouquíssimo tempo para as pessoas colherem os frutos de seu esforço e o erário adquirido se dilui em ítens básicos de sobrevivência e alguns poucos luxos. Uma cadeia que recomeça a cada semana e com poucos momentos de fuga. Momentos que quando acontecem apresentam toda a catarse dos trabalhadores. Em Toritama, como vamos descobrir, duas coisas são sagradas: o labor e o Carnaval.

 

Que Horas Ela Volta? (2015)

Quando exibido para o mercado internacional, Que Horas Ela Volta? ganhou um curioso novo título, menos poético que o original, mais literal: The Second Mother (A Segunda Mãe). Das várias questões que o filme sobre a retirante Val, que teve que deixar sua filha no Nordeste para buscar formas de prover uma vida minimamente confortável para ela a partir do Sudeste, a da terceirização da maternidade é das mais importantes.

A segunda mãe, papel muitas vezes de membros da própria família como a avó, na nossa sociedade atual pode ser atribuído a uma pessoa que será remunerada para exercer aquela função. Assim como a maternidade, outras atividades do lar que também poderiam ser divididas entre seus moradores, são delegadas e concentradas a uma única pessoa. Enquanto isso, a mãe biológica não precisaria se preocupar com atividades de criação.

Que Horas Ela Volta? pode ser encaixado num momento do nosso cinema que discute os primeiros efeitos da era após o governo Lula. Observamos a criação de uma classe-média com grande poder aquisitivo, que a partir do seu conforto se acha no direito de tratar os empregados como seres desprovidos de desejos e anseios. Por outro lado, as classes pobres tiveram acesso à universidade pública através das cotas e a profissão de diaristas e domésticas foi regularizada, garantindo uma possibilidade para que pudessem agora alcançar novos estratos sociais. É nesse momento que o filme se dá a sua história.

A chegada à São Paulo de Jéssica, filha de Val, é a ruptura necessária para que a mãe consiga enxergar as estruturas exploratórias às quais está exposta. A filha começa a questionar a posição de servidão da mãe, os direitos que lhe foram tomados e o tratamento dispensado a ela pelos patrões. Val começa a enxergar que o quartinho anexo em que vive não é um ato de caridade. No meio desse processo, ela própria começa a se perguntar sobre os anos perdidos em que deixou de cuidar da filha para criar outra criança.

A chegada de Jéssica abala as estruturas de toda a família da casa, afeta a vaidade do filho, a solidão constrangida do pai e arrogância da mãe. Expõe uma classe média arcaica e que ainda teima em carregar costumes de tempos da escravidão. E que detesta quando suas estruturas podres são reveladas. Quase que como numa premonição, percebemos que muito da revolta das classes altas que hoje se rendem ao fascismo tiveram sua gênese em momentos tão particulares como o aqui representados.

 

Temporada (2018)

Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte, conta com uma produção bem interessante do cinema nacional. Temporada faz parte dessa criativa nova fase. Filmado nas periferias da cidade, o filme retrata o novo cotidiano de Juliana, funcionária pública que trabalha no controle de pragas da cidade mineira, mais especificamente durante uma campanha contra a prevenção da dengue.

Na função de Juliana, ser funcionária pública é uma faca de dois gumes. Se por um lado o salário baixo mal permite que todas as contas sejam pagam, por outro garante a estabilidade em um emprego, num momento em que o índice de inativos é alto. Mesmo essa seguridade tem um alto preço, em um cargo sem perspectivas de avanço e desprovido de prazer. Juliana observa dia a dia seus companheiros de profissão que foram ficando e se sentem presos a atividade. Mesmo o sonho de um deles de ter um negócio próprio, uma barbearia, parece se tornar cada vez mais distante com os obstáculos que não vencem de aparecer em seus caminhos.

Temporada é muito eficaz em exteriorizar os personagens através da geografia dos espaços e objetos de arte. Juliana precisa chegar à sua nova residência e tem que subir uma ladeira íngreme que dói de ver, e mesmo depois de tanto esforço erra o caminho para o seu lugar de descanso. Transita por ruelas apertadas e casas mal-acabadas. É comum nos cenários encontrar coisas jogadas nos cantos e empilhadas, terrenos cheios de entulhos, fontes inesgotáveis de mosquito. Tudo representativo para a protagonista, que se sente perdida e confusa diante de tantas incertezas que se desdobram diante dela.

Suas limitações também são obstáculos para sua emancipação. Sofrendo de labirintite, mesmo subir de escadas é um ato de extrema dificuldade. Juliana é o reflexo de muitos brasileiros presos a trabalhos medíocres, infelizes em profissões que não lhes oferecem muito além do necessário para sua sobrevivência. Como a metáfora da escada, subir pode ser um ato muito penoso. Agora descer já é bem mais fácil.

 

Arábia (2017)

São dois momentos contrastantes logo no início de Arábia. André anda de bicicleta por uma estrada de bela paisagem, céu aberto e vento na cara, uma canção folk completando a cena. No instante seguinte, já em casa, o jovem é vizinho de uma siderúrgica, a luz do sol é trocada pelas sombras da casa, a música dá lugar ao barulho constante da fábrica e o único vento que recebe vem carregado de fuligem. A mensagem que a vida na estrada é mais atrativa que um lugar fixo se destaca.

André é a introdução para a história de Cristiano, verdadeiro protagonista. Encarregado de limpar a casa de um funcionário da siderúrgica em coma, André encontra o diário de Cristiano e toma consciência da trajetória do personagem principal. Advindo do sistema prisional, Cristiano ruma sem destino em busca de trabalho. No interior de Minas Gerais, ele pula de trampo em trampo, em funções sazonais como colheitas, descarregando caminhões e na construção civil. A constante na vida de Cristiano é a informalidade, continuar em atividade pouco importando a função desempenhada.

A música em Arábia é muito importante e toma a frente do filme em diversos momentos, além de auxiliar na narrativa. Do cancioneiro popular do sertanejo, músicas como Caminheiro e Longa Estrada da Vida remetem ao distanciamento do trabalhador de sua família durante longos períodos. Do rap, o filme se apropria do ritmo, em que Cristiano narra sua vida quase como um MC, tirando poesia de lugares hostis. Três Apitos, música de Noel Rosa numa bela versão de Zélia Duncan, ajuda a dar corpo aos sentimentos do protagonista em um momento em que passa por uma desilusão amorosa num ambiente industrial.

É o trabalho que movimenta cada mudança de Cristiano, cada cidade deixada pra trás, adicionando mais à sua vida e personalidade, cada pessoa que conhece riscando uma saudade no coração. Até que finalmente, no trabalho fixo e fustigante da siderúrgica, Cristiano encontra seu fim, e justamente relembrando seus passos toma noção da exploração dos seus trabalho, de situações de semi-escravidão, de funções que sugam suas forças e sua saúde até a exaustão. Um caminho percorrido também por uma grande parcela da nossa população, do brasileiro que vê oportunidades de trabalho em todos os cantos, dividindo postos de emprego com outros, mas nunca se conectando com ninguém. A dúvida é o que resta, se realmente tudo valeu a pena, quando nada parece ser recompensado.

 

Boi Neon (2015)

Nas arenas da vaquejada no interior do Nordeste, o principal trabalho de Iremar é passar areia nos rabos do boi. Com areia, a cauda fica menos escorregadia e depois que o animal é solto, os cavaleiros o seguram pelo rabo e o derrubam no chão com mais facilidade. O ato é tão violento que o rabo do bicho se descola e fica jogado na arena, até que Iremar o recolha e o reutilize em peças de roupa que ele mesmo produz.

Tal cena de Boi Neon é uma amostra ao que os personagens estão expostos numa profissão que os rebaixa a vários níveis. Lidando sempre com animais, não é incomum que os empregados sejam tratados da mesma forma que os bois da vaquejadas. Os cuidadores são carregados na boléia do caminhão junto com os bichos, como se fossem cargas vivas. Em outra cena, tomam banho todos juntos e em silêncio num ambiente escuro, agachados em torno de uma bacia de água. São trocados de fazendas num estalar de dedos, conforme as necessidade do patrão, não importando o laço afetivo que tenham desenvolvido com companheiros de profissão.

Tratados como subespécie, os personagens se sujeitam a diferentes humilhações para continuar empregados. Numa realidade em que são colocados no mesmo patamar que os bois, os cavalos são as verdadeiras estrelas do show. Tem todas as regalias de beleza e alimentação, e são adjetivados com nomes que remetem à realeza: sangue azul, princesa. Mesmo dentro do mundo dos bichos, a diferença de classe existe. Afinal, todos os bichos são iguais, mas uns são mais iguais que os outros.

O trabalho mecânico pouco exige das pessoas além da força física e retira de homens e mulheres suas individualidades. Então os personagens buscam formas de se reafirmar através da criatividade e da vaidade. Iremar sonha em tornar seus desenhos de roupas em uma grife. A criança Cacá devaneia ter seu próprio cavalo, ignorando por completo o enorme abismo de dinheiro que a separa do seu desejo.

Nesse ambiente em que todos são tratados da mesma forma que animais, surge espaço para que questões de gênero sejam revistas. Mulheres exercem funções que são comumente associadas à homens, como caminhoneira e vigia noturno. Iremar nunca é julgado por seus sonhos de alta-costura. Mesmo a forma como o sexo é visto passa por um novo filtro, como quando revistas pornográficas ganham nova conotação, vestindo as modelos ao invés de despindo. O respeito se desenvolve através da constatação coletiva da mesma dura realidade por todos compartilhada.

As relações de trabalho acompanham o ritmo das novas políticas e de seus governos. Em momentos de grandes incertezas e atribulações, é difícil dizer como as relações evoluirão nos próximos anos. Espero que em uma lista futura possa escrever sobre filmes em que existam melhores condições e representações de trabalhadores unidos pelos seus direitos.

 

Escrito por: Marco Sartori