Matéria: 5 bandas de Sorocaba/SP que você precisa conhecer!Por: Luitz Terra

Quando eu comecei a sair por aí, feito um noia de som, obcecado por ruídos e confusões, eu nem imaginava o que constituía uma cena independente, não sabia que existiam bandas na cidade que movimentavam gigs, eventos, festivais e nem nada, tudo o que sabia do que rolava no rock independente eu via no programa “Banda Antes” da MTV, mas nunca vi ninguém da minha cidade naquele palco, eu era uma criança e o meu primeiro contato com o rock de Sorocaba foi ainda muito tímido e indireto, sem saber muito do valor e da proporção do que realmente era.

Tudo começou com um vizinho meu, um cara gente boa, que sempre tava tocando violão com a rapaziada do bairro, ele escrevia as músicas dele, ele desenhava também, eu lembro que ele trazia consigo um carisma natural e um senso de humor brilhante, apesar da minha pouca idade, aquela figura ilustre me provocava muita admiração e curiosidade. Todo mundo chamava ele de Fabinho.

Eu só conversei com ele, sobre som uma única vez, eu devia ter uns 12 anos, e tava descobrindo um monte de banda, e ele dava aula de guitarra para um colega meu, cheguei a assistir uma dessas aulas, nesse dia ele ensinou meu amigo a tocar “Black” do Pearl Jam, mas o que não me esqueço foi dele me falando que eu adoraria conhecer o “Sonic Youth”, acertou em cheia: até hoje uma das minhas bandas favoritas.

Mas o engraçado disso tudo, é que eu não sabia nada da banda dele, todo mundo falava da “banda do Fabinho”, essa “Banda do Fabinho” tocou em um festival muito importante, que inclusive tocou o, já citado, Sonic Youth, vi todos os shows que rolaram nesse festival na MTV, menos a banda do Fabinho.

Infelizmente, só cheguei a conhecer o som que ele fazia, depois da sua morte prematura, apesar de não ser tão próximo, foi um negócio que mexeu comigo, e de alguma forma comoveu a cidade, tanto que até a nossa (extinta) Rádio Rock local chegou a prestar uma homenagem, tocando para nós uma canção de sua banda, que agora tinha nome: era Volpina.

Mal sabia eu que, além de integrar uma das bandas mais incríveis da cidade, eu já tinha visto ensaios deles no quintal de um vizinho, sem me dar conta do tesouro que havia lá. Fabinho também ajudou a compor “Babilônia” da Ini, talvez o hit mais injustiçado do rock brasileiro.

 

Por isso, eu não poderia começar uma lista de 5 bandas fodas que deixaram saudade, sem começar pelo Volpina.

01. Volpina

Com letras em português, uma dose barulhenta de guitarras, atitude punk nos palcos, e uma certa vocação pro Pop, Volpina se tornou uma banda notável, seja pelo visual caracterísitco, que tinha todo um estilo inglês, que eu achava bem interessante, quanto a verve provocativa de suas letras, nessa época, bandas autorais que cantavam em português, pelo menos no espectro alternativo local, eram bem raras, então isso já me chamava a atenção logo de cara.


Sobre o som, eu lembro que na época eu achava muito dificil classificá-los, era um mix de referências muito peculiares, havia muita afinidade com o grunge e, sobretudo, a estética garageira de bandas como Nirvana e Mudhoney, mas também havia uma coisa melódica mais pra cima que era a cara do Weezer mas, de repente via-se um escárnio, típico do rock inglês, nas letras e no jeito mutante de cantar que transitava entre um jeitão falado de cantar, com gritos, e as já mencionadas melodias pops, tudo casava bem numa química bem interessante das vozes de Felipe Marinelli com a do Jairo Sanches, que fica muito bem exemplicada em canções como “Alex Confessa Ser um Assassino”, que mostra também um pouco do lado mais experimental, e até um certo flerte com o Post Punk nas composições do grupo, particularmente é uma das faixas mais criativas produzidas aqui na Cidade Amarela, sempre me arrepia! Volpina é uma banda formadora de caráter, cuja a influência conseguiu atravessar gerações, servindo de inspirações para grupos como Fones e Incesto Andar.

 

02. Vzyadoq Moe

Em 2007, eu já era muito afinado com variadas vanguardas do rock, é verdade que eu ainda frequentava muito pouco shows locais, mas já comecei a me jogar na pistinha do Supersonic, e também já arriscava uns mosh no Underground bar, mas ainda não tinha uma visão das bandas locais, nessa época eu tinha descoberto uma tag que realmente mudaria minha vida, o Post Punk.

Eu e meu irmão éramos obcecados pelas bandas inglesas, fomos pouco-a-pouco descobrindo tudo que existia no gênero, a internet foi fundamental pra fazer uma varredura no estilo, nossa curiosidade era tamanha que a gente se perguntava, será que no Brasil também haviam bandas assim? E pra nossa surpresa, descobrimos que o Post Punk tupiniquim não era apenas abundante, como também tinha um representante aqui em Sorocaba, nos anos 80, uma banda como nenhuma outra – Vzyadoq Moe, ou simplesmente VZ para os mais íntimos.


A gente pirou naquele som, na verdade eu fiquei bem assustado a primeira vez que eu ouvi, parecia tudo desconsertante, a gravação estranha, as vozes pareciam desencontradas, o rítmo esquisitaço pra caramba, definitivamente não era um som pra iniciantes, mas era tudo tão diferente que era sedutor, a gente foi atrás das letras, de textos, depoimentos, vídeos e mais sons, tudo o que era sobre essa banda se tornou um tesouro muito particular.

Descobrimos que eles eram muito pioneiros, baterias improvisadas, com latões e objetos de metais, timbres ruidosos, atitude dadaísta, muita poesia e uma estranha brasilidade fazia parte da alquimia desse Hard Macumba. Foi o som que me abriu a cabeça pra muita coisa, e que inclusive me fez ficar amigo do Rái Mein e do Sandro Sonic, além de ser a principal motivação de eu começar a me envolver com música.

Vale mencionar que essa busca por assumir ritmos populares e brasileiros ao caldeirão de influências rockeiras, além da própria forma de cantar, antecede o que seria a principal motivação das bandas nacionais dos anos 90, em especial, bandas do movimento manguebit, como o Chico Science e a Nação Zumbí. Eu defendo muito que o embrião dessa mudança de paradigma do rock more nessa revolução proposta pelo VZ.

Infelizmente eu não tive idade pra acompanhar esse fenômeno de perto, mas tive o privilégio de ver um show único da banda em 2010 no Asteroid.

Uma experiência que eu guardo pra vida, nunca mais verei algo igual.

03. The Name

Felizmente, descobri que meu tão amado Post Punk tinha um correspondente contemporâneo, que era a The Name, com uma roupagem indie mais sofisticada e letras inglês, a banda seria o elo perdido entre o Wry e o Vzyadoq Moe, eles começaram com um aura bem inglesa próxima a bandas como The Cure, com o chorus gritando em suas composições clássicas como Broken e Don’t Blame Me.

Imediatamente eu me apaixonei pela banda, e procurei ver todos os shows que estavam ao meu alcance, a qualidade e atitude deles no palco era um negócio muito acima da média, eles cantavam em inglês e sempre que os via ao vivo ficava essa sensação de que eu tava vendo uma banda gringa, de tão bem resolvido era o trio sorocabano. Pouco-a-pouco, eles se afastaram dessa atmosfera dark dos primeiros shows e alçaram uma identidade mais experimental e dançante, trazendo covers inusitados de Liquid Liquid, Gang Of Four, A Certain Ratio e New Order em seus repertórios, que direcionava para um caminho mais “groove” e pista desse Post Punk, não posso deixar de destacar o trabalho incrível de bateria do Bruno Alves que junto com o pontual baixo de Alexandre Molinari criou uma cozinha anarquica que soava tribal e ao mesmo tempo disco, devo dizer que Bruno é um dos bateristas mais fodas da cidade, essa mudança no som tornou a banda ainda mais dançante e hipnotizante.


E, como resultado dessa nova roupagem, o EP Assonance causou um relativo barulho pelo país à fora, tendo destaque em toda a imprensa alternativa brasileira, e shows por todo o território nacional, além de uma passagem icônico festival Planeta Terra em 2011.

O clipe da faixa You Want it Back Now era fascinante, e a música igualmente potente, ela chegou fazer bastante barulho em pistas locais, e o vídeo teve exibição em programas da MTV e Play Tv.

O grupo chegou a trabalhar um disco que nunca foi lançado, e também chegou ao festival SXSW em Austin, Texas e inexplicavelmente teve de encerrar as atividades em seu auge.


04. Pugna

O lugar que se tornou o meu radar sobre tudo que eu deveria saber da cena alternativa da cidade e do país era a Tentáculos, uma loja que se propunha a vender camisetas com estampas exclusivas, que eu adorava frequentar, era um lugar relativamente pequeno na Mascarenhas Camelo, mas era efervescente, além das camisetas de banda que fugiam daquele padrão “Gallery Rock”, o lugar vendia acessórios, algumas peças usadas, bottoms e discos. Mas o grande lance aconteciam nos fim de semanas, Pocket Shows naquela salinha super apertada, mas com muita energia, quem organizava as gigs por lá era um casal muito simpático, com sobrenomes curiosos, era a Flavia Biggs e Fábio Pugna. Numa dessas tardes de sábado, fui ver a banda do Fábio.

E o negócio me colocou de cara no chão, todo mundo suando e a poesia reverberando naquela salinha, era um som pesado, agressivo, marginal e eu podia entender o que era cantado, eram letras em português, uma boa influência de Fugazi, com aquele jogo entre guitarras, uma mais suja e percusiva, e outra mais clara e melódica, além de um baixão fuzzeado que escrevia um groove stoner.


Já a mensagem, berrada a plenos pulmões, era direta e surpreendentemente poética, como num RAP, o vocalista Márcio Pugna usa sua voz pra narrar crônicas cruas sobre crimes, drogas, sobre a rua e a vida de quem tava sempre na mira do perigo.

É o tipo de som que é impossível não se envolver e aprender rapidamente as letras, os shows deles eram catárticos, vigorosos e cheios de energia.

Um rock visceral que tem muito pra ensinar até hoje, para quem se atreve seguir esse caminho.

05. Iansã

Na mesma salinha apertada que me apresentou o Pugna, eu tive uma surpresa esmagadora assistindo ao Iansã. Se o Pugna era o Fugazi da favela, o Iansã era o Sonic Youth do terceiro mundo, naquele show tudo colidia ao caos, distorções sem miséria, linhas surpreendentes de bateria e um baixão hipnótico, era um noise que eu nunca tinha visto antes, era tudo que eu queria ter escutado e não sabia, na época a banda ainda tinha vocalista e as letras eram igualmente revolucionárias, algo como “A Vida Te Espera de Quatro Lá Fora”, depois de ouvir isso, acho que eu nunca mais voltei completamente pra casa, eu passei uma semana vadiando na rua. Nessa época, eu era um cara que não participava efetivamente de nada, eu só levava meus olhos a observar silenciosamente tudo que estava acontecendo, de repente o pessoal dessa banda queria conversar comigo, saber de mim, me chamar pra acompanhar eles nas gigs e nas ações que eles faziam, e é óbvio que eu caí dentro, e fiz o que pude pra ver o máximo de shows que estavam ao meu alcance, meu sonho era sair em turnê com eles e relatar tudo que eu ia vendo.

Era uma banda que transpirava poesia dentro e fora dos palcos, acho que a história deles era bem honesta e se misturou com outras duas ações muito poderosas que mudaram o cotidiano alternativo da cidade, eu to falando do projeto “Guerrilha Gerador” e do “Carne de Segunda”, a proposta da banda e de todo mundo que era envolvido com a Rasgada Coletiva era ocupar os espaços públicos pra mandar um recado pras pessoas, inspirarem artistas, plantarem bombas nos asfaltos e formar um público que fosse realmente interessado em fazer parte de uma experiência artística transformadora.


Por isso, era tão comum os shows da Iansã se tornarem happenings, não havia uma linha divisória entre palco e plateia, eu não sei o que havia naquela fórmula sonora que sempre tornava tudo tão imprevisível ao vivo, o caos era sempre instaurado, quando o show começava, cada apresentação da Iansã tinha um jogo de pergunta e resposta silencioso entre a banda e a plateia, era uma comunhão muito linda de entrega mútua, era como se cada performance fosse realmente a última, eram artistas que levavam muito a sério a própria arte.

Dessa forma, eles chegaram a se aventurar em turnês, com esse mesmo princípio, marcaram shows por vários lugares e onde era caminho eles pegavam um gerador de energia, encostavam em uma praça e começavam a tocar, sem aviso prévio, para manguearem uma grana pra ajudar nos custos da viagem… uma banda exemplar.

O Iansã teve dois bateristas incríveis que era a Amanda Naughton e o Victor Vieira-Branco, ambos foram essenciais pra o desenvolvimento dessa estética, o estilo único deles tocarem permitiu uma liberdade sonora pra banda que emergia numa sonoridade torta, que permitiam improvisos, e flertes o math rock, o post rock e o garage, mas tudo com a cara e o cheiro da rua.

Tanto no quesito sonoro, quanto em questão de atitude, Iansã segue sendo a minha banda favorita, aguardo ansiosamente um retorno.

 

Texto por: Luiz Terra